"E impelido pela minha ávida vontade, imaginando poder contemplar a grande abundância de formas várias e estranhas criadas pela artificiosa natureza, enredado pelos sombrios rochedos cheguei à entrada de uma grande caverna, diante da qual permaneci tão estupefato quanto ignorante dessas coisas. Com as costas curvadas em arco, a mão cansada e firme sobre o joelho, procurei, com a mão direita, fazer sombra aos olhos comprimidos, curvando-me cá e lá, para ver se conseguia discernir alguma coisa lá dentro, o que me era impedido pela grande escuridão ali reinante. Assim permanecendo, subitamente brotaram em mim duas coisas: medo e desejo; medo da ameaçadora e escura caverna, desejo de poder contemplar lá dentro algo que me fosse miraculoso"

Leonardo Da Vinci

quarta-feira, 3 de março de 2021

Expedições em Natalândia revelam parte do rico patrimônio espeleológico da região

Texto: Daniel Menin e Leda Zogbi

Entre os dias 13 e 20 de Fevereiro de 2021 foi realizada mais uma expedição espeleológica na região de Natalândia. O município está localizado no Noroeste do Estado de Minas Gerais, a 585km de Belo Horizonte, 266 de Brasília e 998km de São Paulo. 

A expedição teve como objetivo dar continuidade aos trabalhos iniciados em 2020 pelo GREGEO (Grupo de espeleologia da Universidade de Brasília): uma atividade de levantamento do potencial espeleológico realizada com fomento do Edital (SBE 01/2020) promovido pela SBE em parceria com CECAV (Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Cavernas). Na ocasião da primeira viagem, foram mapeadas 3 cavernas sob a coordenação da equipe do Meandros, sendo que não houve tempo para finalizar a topografia da maior delas, a Lapa da Pantera.

Em 2021 a viagem foi organizada voluntariamente pela espeleóloga Leda Zogbi. Contou com a participação de diferentes grupos de espeleologia (Meandros, EBG e Bambuí) e apoio do poder público local cedendo estrutura para acampamento e instalação das equipes. A viagem teve como objetivo dar andamento na topografia iniciada em 2020 e documentar outras cavernas da região. 

Entre as descobertas, destaca-se a caverna do Alto da Serra, uma gruta de amplas salas e uma ressurgência subterrânea. Sem referências espeleológicas, a caverna já era conhecida e visitada pela população local. Atenção especial também para a abundância de pinturas rupestres na entrada de algumas cavidades (incluindo o conhecido sítio arqueológico de Columbia (Iphan-MG) e às interferências na Caverna Lapa da Pantera, que além de pinturas em sua entrada foi possível encontrar vestígios de mineração rudimentar. 

A região de Natalândia possui um relevo cárstico exuberante, com afloramentos verticalizados  entre uma paisagem de matas e fazendas de criação de gado. 

A geologia regional, é atribuída ao período Pré-Cambriano, pertencentes ao supergrupo São Francisco, Bambuí, Paranoá e Subgrupo Paraopeba (COMIG, 2003 apud XAVIER, 2008). Os carbonatos fazem parte, na sua maioria, do Subgrupo Paraopeba, pertencente ao Grupo Bambuí, cuja deformações datam do Proterozóico inferior (540 milhões de anos). A região representa relevante acervo de informações arqueológicas em sítios de superfície, abrigos e em cavernas (XAVIER, 2008). Em uma gruta de Unaí (Caverna do Gentio) foi descoberta uma múmia de 3.500 anos, o que pode nos revelar importantes partes sobre a ocupação humana na região (UIANET, 2019).

Análises de satélite revelam que a região tem potencial para muitas outras expedições, com áreas ainda inexploradas do ponto de vista espeleológico. 

Os valores histórico, cultural, paisagístico e científico também são evidentes, o que pode estimular novos estudos no contexto de geoconservação, manejo, investigações científicas e educação ambiental.

Outras viagens deverão ser organizadas em breve para dar continuidade nas topografias em andamento, documentação e novas prospecções.


Referências:

XAVIER, Leandro Augusto Franco. Arqueologia do Noroeste Mineiro: análise de indústria lítica da bacia do Rio Preto-Unaí, Minas Gerais, Brasil. 2008. Tese de Doutorado. Universidade de São Paulo.

UIANET - Conheça Acauã, a múmia unaiense de 3.500 anos. 2019. Disponível em: https://unainet.com.br/conheca-acaua-uma-mumia-brasileira/ 

Fotos: Daniel Menin, Rafael Grudka e Leda Zogbi


Afloramentos verticalizados são uma característica do carste da região (Foto Leda Zogbi).
 

Ressurgância na Caverna do Alto da Serra

Ampla sala de abatimento na Caverna do Alto da Serra

Ampla sala de abatimento na Caverna do Alto da Serra. Até o presente momento, a caverna de maiores volumes da região.

Caverna do Alto da Serra e algumas salas bastante ornamentadas.


Trilha de acesso à caverna, uma íngrime descida margeando o paredação da ressurgência


Uma das entradas na Caverna 6 Bocas. Além da entrada, é possível observar na imagem um jardim suspenso sobre uma clarabóia.

A mesma entrada (Caverna 6 Bocas) pela perspectiva interna.


Interior labiríntico da Lapa da Pantera. Grande concentrações de guano e labirintos em diferentes níveis tornam o mapeamento deste setor da caverna um desafio.

Ossos encontrados no interior da Lapa da Pantera. Provavelmente uma vaca acidentada entre grandes blocos próximo à entrada.

Pinturas rupestres no sítio arqueológico da Caverna Columbia, em Unaí. A entrada e os paredões estão repletos de pinturas e vestígios da ocupação humana.

Painel de pinturas na Caverna Columbia. Os desenhos se encontram em diferentes níveis e alguns deles mais afastados e escondidos.


Condutos labirínticos na Lapa da Pantera revelam contatos e mergulhos do carbonato.

Vestígios de mineração rudimentar encontrados no interior da Lapa da Pantera. Mesmo os condutos mais distantes da entrada sofreram intervenções para extração de algum material.

Condutos labirínticos na Lapa da Pantera.

Parte dos espeleólogos no final de um dia de mapeamento.

Topografia formando rede de condutos labirínticos também representa um desafio para o mapeamento.


quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Gruta do Mandembe

No último dia 03 de Janeiro de 2021 estivemos em uma rápida incursão em Luminárias (MG), na Gruta do Mandembe. O objetivo da viagem foi a realização de alguns registros audiovisuais para o 36 Congresso Brasileiro de Espeleologia. Mapeada Pela União Paulista de Espeleologia (UPE), a Gruta do Mandembe tem 244m de desenvolvimento e menos de 20m de desnível. Trata-se de um conduto vadoso principal com algumas cachoeiras e um pequeno tributário de recarga em uma das laterais. A caverna faz parte de um complexo de pequenas grutas de Quartzito da região. Na ocasião, encontramos uma colônia de andorinhões em seu interior. Durante a atividade pudemos também realizar algumas fotografias realizando assim também o registro fotográfico da caverna e suas feições morfológicas.
Relevo da região, com leves desníveis e algumas matas ciliares.

Uma das entradas da caverna


Percurso principal com algumas corredeiras, cachoeiras e um conduto fóssil

Condutos paralelos e um lago subterrâneo

A sucessão de quedas proporciona também alguns lagos internos

Cachoeira perto de uma das entradas

Amplo conduto


terça-feira, 15 de dezembro de 2020

Novos trabalhos de mapeamento na Caverna Laje Branca - PETAR

Espeleólogos dos grupos Meandros, EGRIC e Bambuí estiveram no final e semana dos dias 12 e 13 de Dezembro na Caverna Laje Branca, localizada na região do Lajeado, no PETAR, SP.

Por muito tempo, a caverna fez parte de tradicional circuito turístico da região devido principalmente à seus valores cênicos: largas galerias, um colossal salão subterrâneo e a bela vista de seu paredão.

Há alguns anos, com a exigência de um plano de manejo espeleológico para abertura regulamentada das atividades turísticas, a caverna foi fechada e sua visitação ficou restrita apenas à pesquisadores e sobre autorização dos donos da terra.

Pela cavidade não estar dentro dos limites do PETAR (Parque Estadual Turístico do Alto do Ribeira), mas em terras particulares, o manejo e uso turístico ficou sobre responsabilidade da iniciativa privada não saindo desde então do papel.

Há alguns anos, um projeto de pesquisa paleoclimática, liderado pelo Instituto de Geociências da USP (IGc), solicitou mapeamento com cortes e perfis específicos para o trabalho e uma equipe do Grupo Meandros esteve no local realizando a topografia. Desta vez, de maneira voluntária, espeleólogos de diferentes grupos se uniram para dar andamento a um novo mapa, bem mais detalhado e preparado para futuras análises de uso turístico.

Durante a viagem 3 equipes se organizaram para topografar a maior parte da caverna e também realizar alguns registros fotográficos. Como de costume, a viagem contou com o apoio do Parque e do Instituto Florestal.

Novas atividades deverão ser organizadas para os próximos meses dando andamento ao mapeamento, a algumas explorações e documentação fotográfica. As equipes serão montadas de acordo com as demandas e objetivos de cada viagem e estão abertas a espeleólogos de diferentes grupos.


Sala acessada logo após transposição da fenda.


Sala dos travertinos, localizada em área distante da entrada, após transposição de uma fenda horizontal ao final do grande salão.

Sala dos travertinos. Ao fundo é possível ver o conduto superior de acesso ao rio. 

Equipe revisando detalhes no mapa após trabalho de campo.


Visitante noturno na casa de pesquisa.


Visitante diurno na casa de pesquisa.






quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

Retomada dos trabalhos no sistema Areias, PETAR - SP

Em Outubro de 2020, após mais de uma década da publicação do Livro sobre o Sistema Areias, contemplando também o mapa da Caverna Areias de Cima, uma frente de trabalho deu entrada a um novo projeto para retomar as explorações e documentações espeleológicas na região.

Ora realizado entre 2005 e 2006 pelo GPME (Grupo Pierre Martin de Espeleologia), parte dos mesmos espeleólogos assumiram o projeto em 2020 através do Meandros Espeleo Clube. A mudança de instituição é uma mera formalidade uma vez que espeleólogos de coordenação no passado também estão trabalhando no projeto atual. Além disso, as atividades são abertas a diferentes grupos desde que os espeleólogos tenham comprovada experiência. 

Uma primeira viagem foi realizada em Novembro de 2020 quando, em dois dias de atividades, 3 equipes retopografaram toda parte conhecida da caverna Areias de Baixo. Novas galerias também foram incorporadas no mapa bem como continuidades do sistema.

Além da caverna, também foram identificadas drenagens e dolinas com potencial de aumentar a relevância espeleométrica das cavidades do sistema.

Como de costume, as viagens têm apoio do PETAR (Parque Estadual Turístico do Alto do Ribeira) e do Instituto Florestal e seguem todas as recomendações de segurança diante das restrições da pandemia.


Formações típicas de água turbulenta (Squellops) em condutos superiores da caverna



Contudo típico do sistema, em forma de fenda.


Novo conduto fóssil incorporado no mapa

Grande sala já conhecida em mapeamentos anteiores.

Boa parte da caverna é realizada em condutos vadosos



Recepção na saída da caverna.

sábado, 21 de novembro de 2020

De volta à Paripiranga e Uauá

 Uma nova expedição à Paripiranga e Serra do Uauá foi realizada em Novembro de 2020. Os objetivos eram principalmente dar continuidade à coleta de dados de campo para pesquisas paleoclimáticas e topografar uma caverna encontrada na última viagem. Também foram mapeadas as cavernas do Cazuza e o Abismo do Meio do Morro do Parafuso, em Paripiranga. Ambas já conhecidas e parcialmente estudadas, mas ainda sem mapas.

Devido aos cuidados decorrentes da pandemia, um grupo reduzido de espeleólogos participou das atividades e a equipe buscou estar isolada, principalmente no município de Uauá. Um relatório de pesquisa e geoconservação referente às cavernas da região foi gerado e disponibilizado para a prefeitura, uma vez que as cavernas estão dentro de uma unidade de conservação, o Parque Municipal da Serra do Jerônimo.

As cavernas até o momento mapeadas pelo projeto são: Grutas do Jerônimo I e II (Uauá), Absimo do Meio do Morro do Parafuso e Caverna do Cazuza. 

O projeto é coordenado pelo Instituto de Geociências da USP e conta com o apoio de espeleólogos do Grupo Bambuí de Pesquisas Espeleológicas (GBPE) e do Grupo Mundo Subterrâneo de Espeleologia (GMSE).

Vista de dentro da caverna Jerônimo II

A caverna do Jerônimo II está localizada no meio de um paredão rochoso no contato entre Ferro Bandado (BIF) e rocha Carbonática o que atribui à gruta um alto interesse geológico e científico. 



Marcas de extração de salitre, usada para produção de pólvora na caverna Jerônimo II, demonstram o valor histórico regional da caverna.


Espeleotemas corroídos provavelmente por biocorrosão.


Cúpolas e amplas salas com acúmulo de guano são características da caverna.






Análises químicas realizadas dentro da Caverna do Bom Pastor (Paripiranga)





quinta-feira, 15 de outubro de 2020

O retorno à Bulha D'água

Aos poucos vamos retomando nossas atividades espeleológicas. 

Nos dias 11 e 12 de Outubro demos andamento aos trabalhos do Grupo Bambuí de Pesquisas Espeleológicas na região de Bulha D'água, em São Paulo. A atividade foi autorizada e seguiu as normas de orientação de segurança publicadas em Diário Oficial para atividades de pesquisa na região.

Os trabalhos realizados foram de registro fotográfico na caverna Buenos I, coletas de aranhas e pendências topográficas na Buenos IV. Esta última com mapeamento quase pronto, entretanto fazia-se necessário realizar uma conexão de uma grande sala fóssil com o conduto ativo de rio.

No Sabado a atividade decorreu sem nenhum problema e foi relativamente fácil, com fotografias e coletas em condutos freáticos da caverna Buenos I. Já Domingo, não somente pelas dificuldades normais de progressão na caverna, mas principalmente pela topografia e lances verticais a atividade foi mais longa e cansativa. Parte da equipe ficou no apoio enquanto outra parte buscava entre desmoronamentos e lances verticais, um bom caminho para se chegar ao rio. A passagem correta foi encontrada somente no período da tarde o que fez o tempo de atividade se prolongar. Após equipagens e topografia de parte do conduto freático, a equipe iniciou seu retorno chegando na casa de pesquisas às 23h30. Segunda-feira, feriado em São Paulo, foi dia de organização e lavagem de equipamentos.


Maior lance vertical que dá acesso ao rio
Equipes Sábado de manhã.

Marcas de onças pelo caminho: uma constante nesta região.

Conduto freático da caverna Buenos I

Entrada - Buenos I

Ossos recentes próximo à uma claraboia

Chuveiro em conduto freático da caverna Buenos I

Conduto freático da caverna Buenos I

Animais por todo lado, ainda bem!

Conduto freático da caverna Buenos IV.
Com um pouco de esforço, é possíve ver a corda ao fundo.


Como sempre, as trilhas estavam escorregadias.

"Máquina de lavar cordas"

Bulha é Bulha: nem tatu de kichute caminha tranquilo. 

Salões superiores
Salas superiores com claraboias e acúmulo de sedimentos (Caverna Buenos I)


Domingo, 23h30. É assim que saímos da caverna!