"E impelido pela minha ávida vontade, imaginando poder contemplar a grande abundância de formas várias e estranhas criadas pela artificiosa natureza, enredado pelos sombrios rochedos cheguei à entrada de uma grande caverna, diante da qual permaneci tão estupefato quanto ignorante dessas coisas. Com as costas curvadas em arco, a mão cansada e firme sobre o joelho, procurei, com a mão direita, fazer sombra aos olhos comprimidos, curvando-me cá e lá, para ver se conseguia discernir alguma coisa lá dentro, o que me era impedido pela grande escuridão ali reinante. Assim permanecendo, subitamente brotaram em mim duas coisas: medo e desejo; medo da ameaçadora e escura caverna, desejo de poder contemplar lá dentro algo que me fosse miraculoso"

Leonardo Da Vinci

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

O retorno à Bulha D'água

Aos poucos vamos retomando nossas atividades espeleológicas. 

Nos dias 11 e 12 de Outubro demos andamento aos trabalhos do Grupo Bambuí de Pesquisas Espeleológicas na região de Bulha D'água, em São Paulo. A atividade foi autorizada e seguiu as normas de orientação de segurança publicadas em Diário Oficial para atividades de pesquisa na região.

Os trabalhos realizados foram de registro fotográfico na caverna Buenos I, coletas de aranhas e pendências topográficas na Buenos IV. Esta última com mapeamento quase pronto, entretanto fazia-se necessário realizar uma conexão de uma grande sala fóssil com o conduto ativo de rio.

No Sabado a atividade decorreu sem nenhum problema e foi relativamente fácil, com fotografias e coletas em condutos freáticos da caverna Buenos I. Já Domingo, não somente pelas dificuldades normais de progressão na caverna, mas principalmente pela topografia e lances verticais a atividade foi mais longa e cansativa. Parte da equipe ficou no apoio enquanto outra parte buscava entre desmoronamentos e lances verticais, um bom caminho para se chegar ao rio. A passagem correta foi encontrada somente no período da tarde o que fez o tempo de atividade se prolongar. Após equipagens e topografia de parte do conduto freático, a equipe iniciou seu retorno chegando na casa de pesquisas às 23h30. Segunda-feira, feriado em São Paulo, foi dia de organização e lavagem de equipamentos.


Maior lance vertical que dá acesso ao rio
Equipes Sábado de manhã.

Marcas de onças pelo caminho: uma constante nesta região.

Conduto freático da caverna Buenos I

Entrada - Buenos I

Ossos recentes próximo à uma claraboia

Chuveiro em conduto freático da caverna Buenos I

Conduto freático da caverna Buenos I

Animais por todo lado, ainda bem!

Conduto freático da caverna Buenos IV.
Com um pouco de esforço, é possíve ver a corda ao fundo.


Como sempre, as trilhas estavam escorregadias.

"Máquina de lavar cordas"

Bulha é Bulha: nem tatu de kichute caminha tranquilo. 

Salões superiores
Salas superiores com claraboias e acúmulo de sedimentos (Caverna Buenos I)


Domingo, 23h30. É assim que saímos da caverna!


quinta-feira, 8 de outubro de 2020

Parte Michel Le Bret


Por Daniel Menin

Mais um nome da história na espeleologia Brasileira nos deixa.

Eu não tive a oportunidade de cavernar com Michel Le Bret. Por ironia, quando ele esteve no Brasil para sua última expedição em grutas, eu estava na sua terra natal, a França.
Mas tempos depois eu tive a felicidade de lhe fazer uma visita e ser muito bem recebido em sua casa, no Vale do Loire. Ele e sua esposa tiveram o cuidado de preparar um almoço brasileiro, com arroz e feijão e de por um dia todo falar português comigo. Passeamos por seu museu, pelo jardim e por parte de sua fazenda de búfalos. Empolgado, ele contava histórias de seus anos vivendo no Brasil.

Até então eu o conhecia apenas pelo livro "Maravilhoso Brasil Subterrâneo" e o admirava muito. A obra me inspirou e me fez viver com ele grandes aventuras de descoberta e exploração em cavernas que eu conhecia bem: Abismo da Paçoca, Areias, Agua Suja, entre outras também em São Paulo e Goiás.

Michel foi fundador da SBE - Sociedade Brasileira de Espeleologia e explorou algumas das mais consagradas cavernas do nosso país. Era um exímio croquista e, como algumas vezes explorava as cavernas sozinho, mapeava à sua maneira desenhando a caverna de memória.

O corpo de Michel se foi para os subterrâneos, mas posso arriscar que sua alma também continua debaixo da terra, explorando as cavernas brasileiras.

A Edição 412 do Informativo SBE Notícias publica uma série de textos em homenagem à Michel. Você pode ter acesso ao informa através do site ou entrando em contato comigo.



Michel em seu museu pessoal.

Meu pai, Michel, sua esposa e eu em sua casa (2005)


"Não saia do carro, os búfalos são bravos", disse ele para nós.

Croquis em planta e perfil da caverna Paçoca, feito por Michel em 1967. Uma das histórias mais emocionantes do livro "Maravilhoso Brasil Subterrâneo"e que me inspirou a remapear e continuar suas explorações nesta caverna anos mais tarde.