"E impelido pela minha ávida vontade, imaginando poder contemplar a grande abundância de formas várias e estranhas criadas pela artificiosa natureza, enredado pelos sombrios rochedos cheguei à entrada de uma grande caverna, diante da qual permaneci tão estupefato quanto ignorante dessas coisas. Com as costas curvadas em arco, a mão cansada e firme sobre o joelho, procurei, com a mão direita, fazer sombra aos olhos comprimidos, curvando-me cá e lá, para ver se conseguia discernir alguma coisa lá dentro, o que me era impedido pela grande escuridão ali reinante. Assim permanecendo, subitamente brotaram em mim duas coisas: medo e desejo; medo da ameaçadora e escura caverna, desejo de poder contemplar lá dentro algo que me fosse miraculoso"

Leonardo Da Vinci

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Caverna Paçoca tem seu mapa atualizado

O mapa da Caverna Paçoca, localizada no PETAR (Parque Estadual Turístico do Alto do Ribeira), em SP, passou recentemente por atualizações. Foram inclusas novas fotografias, ajustes de detalhamento no arquivo e aumento da representatividade da caverna.


A Caverna Paçoca tem uma importância histórica devido às atividades de exploração e mapeamento de espeleólogos ilustres (como Michel Le Bret, Pierre Martin, Guy Collet e Joaquin Justino) na Década de 60. Em 1993 passou por mais um mapeamento realizado pelo GEGEO (Grupo de Espeleologia da Geologia). Entre os anos de 2005 e 2010 teve um novo mapeamento, contendo um maior detalhamento e incluindo galerias desconhecidas dos trabalhos anteriores. Em 2010 uma equipe do Grupo Bambuí de Pesquisas Espeleológicas realizou uma escalada subterrânea no extremo noroeste da caverna, sobre a ressurgência de um dos rios, mas não encontrou continuações. A caverna é também importante devido a seus 2 rios, fazendo parte de uma recarga relevante para o aquífero cárstico do Córrego Fundo.


A Caverna Paçoca tem um desnível total de -108m, dos quais 45m compreende a um grande abismo, localizado no conduto principal da caverna. Para transpor é necessário cerca de 75m de corda, equipamentos adequados e experiência em técnicas verticais. Equipes da década de 60 e também 90 tiveram problemas quase se acidentando na caverna (histórias descritas no livro "Brasil Subterrâneo", de Michel Le Bret e também no próprio documento do Projeto Paçoca e arredores - GBPE).

Para a topografia da área mais a Leste das caverna foi necessário a transposição de um sifão, seco apenas alguns dias do ano, nas épocas menos húmidas.

É possível encontrar neste site os relatórios de cada viagem, com fotos e evolução da topografia.

O mapa em alta resolução, bem como todo o histórico das atividades encontra-se no documento "Projeto Paçoca e Arredores - Sistema Córrego Fundo", entregue aos órgãos competentes e disponível para consulta pública mediante solicitação.



(fotos Alexandre Camargo - Iscoti)



(fotos Daniel Menin)







domingo, 15 de junho de 2014

O resgate mais caro da história da espeleologia alemã

Johann Westhauser, experiente espeleólgo e um dos descubridores do
sistema subterrrâneo onde aconteceu o acidente

Por José Humberto M. de Paula

A operação de resgate é realizada em condições extremas - temperaturas de 3°C, lagos a serem transpostos, locais alagados, passagens estreitas e sinuosas, abismos de até 300m...

O espeleólogo, um físico de um instituto de tecnologia alemão, é muito experiente em caving. Não é um aventureiro de fim de semana, também comum mesmo na Europa. O espeleólogo foi um dos descobridores do sistema subterrâneo e participou do mapeamento. É a maior caverna alemã, na divisa com a Suíça e Itália, com aproximadamente 19km de desenvolvimento. O acidente ocorreu quando o espeleólogo alemão estava a 1000m abaixo da superfície e a 3km de distância da entrada da caverna. Uma rocha caiu e atingiu a cabeça do caver. Embora usando capacete, a cabeça do espeleólogo foi atingida. Se estivesse em um hospital a vítima estaria em uma sala de tratamento intensivo. A vítima está sendo transportada para cada uma das estações (pontos quente). Como a temperatura é muito baixa na caverna a vítima está protegida por um saco de dormir. Existe a possibilidade de uma intervenção médica de emergência, ainda dentro da caverna, caso a pressão craniana da vítima se eleve. Por enquanto, ainda é estável o estado da vítima, parece. Foi montado um sistema de comunicação por rádio com fio, mas que não chega até o local do acidente. Mas a vítima já está sendo deslocada. Junto com a vítima seguem 02 Equipes de Evacuação com 14 resgatistas, incluindo alguns médicos - pelo menos  um suíço, um esloveno e um italiano. 
Mais de 200 resgatistas - alemães, italianos e suíços - participam do resgate. Um helicóptero faz mais de 10 viagens por dia... Transporte de resgatistas e suprimentos. O Posto de Comando foi montado na boca da caverna, com duas grandes tendas. No momento a mídia começou uma discussão sobre quem vai pagar, ou arcar, com os custos do resgate. Segundo a matéria já chega em milhares e milhares de Euros. Já tem gente comentando se o Seguro Pessoal da vítima vai cobrir. É de lascar, não!?!...

Para nós aqui do Brasil, fica a lição de que é preciso prevenir, prevenir e depois ainda prevenir. Um resgate na Lapa do Bezerra, São Vicente I com as suas 15 cachoeiras e vazão de 5m3/s, ou mesmo, Angélica e São Mateus (todas em São Domingos-GO) seria impensável, com a estrutura e número reduzido de resgatistas preparados, que nós temos por aqui.

A fins de registro e aprendizado, segue abaixo acompanhamento dia-a-dia das operações de resgate:

ATUALIZAÇÃO 16/06/2014 (segunda-feira) às 10h:
(Fonte: Site do Espeleo Socorro Alemão, coordenador do resgate, junto com equipes internacionais)

Houve uma longa parada de quase 22h, entre o sábado e o domingo, para descanso da vítima e dos integrantes das equipes de evacuação, no Ponto Quente n°4 (estações de apoio previamente equipadas; são em número de 5 estes pontos dentro da caverna). Este ponto, ainda se encontra, a uma profundidade de aproximadamente —900m, abaixo da superfície. No domingo à noite (ontem) foi realizado o içamento da maca com a vítima até o Ponto Quente n°3. O desnível desse deslocamento foi 200m. Portanto, a vítima se encontra a uma profundidade de aproximadamente —700m, na Base n°3 (Ponto Quente 3). Nessa base deverá permanecer por mais 10—12h.

Uma equipe de evacuação de espeleólogos Austríacos já está equipando, com cordas, o trecho seguinte até a Base n°2. Este trecho deverá ser o mais difícil. O içamento vertical livre é de 300m, com diversas transposições. As cordas tiveram que ser trocadas em função do desgaste das mesmas. A causa desse desgaste é o uso intenso em constantes descidas e subidas, uma vez que, em média, 50 resgatistas se revezam dentro da caverna. Já foram utilizados mais de 2.000m de cordas. O içamento neste trecho de 300m de negativo, deverá acontecer durante o dia e a noite dessa segunda-feira.

ATUALIZAÇÃO de 17/06/2014, terça-feira:
(Fonte: Espeleo Socorro Italiano e amigos do La Salle 3D SpeleoPhoto).

A vítima agora está no Ponto Quente n°2 (Base n° 2) a uma profundidade de aproximadamente —490m. O deslocamento ocorreu normalmente durante o fim da tarde de ontem e a noite/madrugada de hoje, terça-feira. A maca venceu um trecho vertical de 70m, com passagens muito estreitas, onde uma pessoa magra tem dificuldade para passar . Houve uma parada de 02 horas para atendimentos médico de rotina da vítima. A maca chegou a essa Base n°2 às 02h da manhã de hoje, terça-feira. Deverá permanecer neste ponto por algumas horas para que a vítima possa descansar e sejam feitos atendimentos médicos.
A evacuação segue feita pelas equipes de resgate internacionais da Itália, Áustria, Alemanha e Suíça. 

Uma equipe com 20 regatistas Croatas está na entrada da caverna para qualquer emergência. O trecho entre a Base n°2 ( onde neste momento se encontra a MACA) e a seguinte, a Base n° 1, está tecnicamente equipada: ancoragem prontas, cordas instaladas. Será um trecho muito difícil. O deslocamento deverá durar inúmeras horas. Vítima em estado ainda grave, mas estável.




ATUALIZAÇÃO de 17/06/2014, Quarta-feira 
(Fonte: Espeleo Socorro Italiano e amigos do La Salle 3D SpeleoPhoto).


Após ultrapassar a fenda vertical de 250m e a cachoeira, a maca alcançou um poço de aproximadamente 40m, denominado Nirvana, cuja base se encontra em um nível —430m, em relação à superfície.

Os 20 resgatistas Croatas se juntaram aos trabalhos junto à maca, para substituir a equipe Italiana... O complexo e estreito labirinto vertical de 250 m e a cachoeira impediam o caminho para a chegada das novas equipes de resgate. Após a passagem foi possível restabelecer a comunicação com o Posto de Comando, na Boca da Caverna, antes dificultado pela própria cachoeira. Nas próximas horas, haverá uma pausa, durante a qual o médico e as enfermeiras, que acompanham a vítima, vão descansar e avaliar as condições de saúde do ferido.

Há um total de 109 regatistas do Espeleo Socorro Italiano-CNSAS, organizados em vários turnos, atuando nas operação de resgate. O que está permitindo que técnicos italianos atuem como voluntários, inclusive fora da Itália, é um Decreto Presidencial (N°194/2001). Esse Decreto garante a todos os voluntários a preservação de seus empregos , não comparecendo ao trabalho, caso esteja atuando em operações de resgate como essa. Além disso, o voluntário tem garantido o reembolso das despesas de viagem durante a a intervenção. Mesmo após a ativação do CNSAS , o Departamento de Protecção Civil da Presidência do Conselho de Ministros, continuou a desempenhar um vínculo efetivo entre o trabalho dos serviços de emergência e instituições envolvidas na Itália e na Baviera.No Brasil não temos nenhuma regulamentação nesse sentido, o que dificultaria, ou tornaria impossível, uma operação de Espeleo Resgate dessa natureza e magnitude. Além disso, temos muito poucos socorristas preparados para esse tipo de resgate, no Brasil.

Nas próximas horas a vítima deverá chegar no Ponto Quente n°1 (Base 1), o último planejado antes de se chegar à Boca da Caverna. Desta última Base até a Entrada da caverna ainda restam um desnível de 400m, com vertical difícil de aproximadamente 200m.

Este trecho de vertical, transporte da maca e apoio médico será feito com um sistema do pêndulo e contrapeso. Vias paralelas redundantes permitirão que equipes de resgate possam apoiar a recuperação.

Não é certo que este trecho de vertical difícil (sinuoso, estreito em alguns pontos) possa ser superado durante o dia dessa quarta-feira . Dependerá da resistência das equipes de evacuação envolvidas. Mesmo depois desse obstáculo, a caverna tem outras passagens estreitas e ainda na vertical.

Ainda não se pode dizer exatamente quando a vítima chegar à superfície. Supõe-se que o caver pode sair à noite ou durante o dia na quinta-feira (amanhã).

No Posto de Comando, na Boca da Caverna, tudo já está preparado. Um Posto Médico Móvel, montado logo perto da entrada da caverna, aguarda a vítima para as verificações e exames médicos iniciais. Um helicóptero habilitado para vôo noturno vai levá-lo logo depois em uma clínica médica especializada.

Do ponto de vista médico, o perfil clínico do Caver acidentado — Sr° Westhauser — é estável. Mas, segundo os especialistas médicos da Baviera Aid, esta é uma situação nova, mesmo na Europa. É a primeira vez que um paciente com um ferimento tão grave na cabeça permanece, sem tratamento específico, por tanto tempo.

Previsões da meteorologia prevê tempo estável para as próximas horas, na região onde se encontra a caverna.

O video abaixo, publicado pelo jornal The Telegraph mostra técnicas de progressão com maca durante os trabalhos de resgate.




ATUALIZAÇÃO de 18/06/2014, Quinta-feira 
(Fonte: Espeleo Socorro Italiano e amigos do La Salle 3D SpeleoPhoto).


RESGATADO!

Resumo da oiperação:

Após 12 dias, equivalente a 275 horas de operações contínuas de resgate, a vítima - o espeleólogo alemão Johann Westhauser - foi resgatada. O acidente ocorreu nas primeiras horas do domingo, mais precisamente à 1:30h do dia 08/06/2014, no horário da Alemanha (20:30h no horário de Brasília-Brasil, portanto ainda no sábado). A vítima - Johann Westhauser - um experiente espeleólogo alemão de 52 anos, foi um dos descobridores desse Sistema Subterrâneo, em 1995, na Alemanha, tendo participado de inúmeras expedições de exploração e mapeamento da caverna a partir de 2002. No momento do acidente o caver participava de estudos referentes ao sistema de drenagem interna da caverna. O acidente ocorreu após uma quase saraivada de rochas atingir e ferir, gravemente, a sua cabeça. O sinistro aconteceu a uma profundidade de -980m na caverna Riesending-Schachthöhle - a cavidade subterrânea mais profunda da Alemanha e com 19,3km de desenvolvimento. Está localizada nas montanhas da Alta Baviera na fronteira com a Áustria. Um de seus companheiros foi capaz de sair da caverna e dar o alarme, enquanto outro espeleólogo permaneceu assistindo a vítima. O espeleólogo em busca de socorro gastou cerca de 13 horas para percorrer os quase 3500m até a saída da caverna. Teve que transpor inúmeros poços profundos (um deles uma grande fenda com mais de 250m de vertical e com uma cachoeira a meia altura), túneis, passagens estreitas e sinuosas e trechos alagados, que separavam o local do acidente à saída da imensa caverna. Isso tudo em temperaturas muito baixas de até 3ºC, em todos os trechos do trajeto interno na caverna.

A operação de resgate teve a participação de uma equipe internacional do Espeleo Socorro Italiano-CNSAS, juntamente com os Serviços de Resgate em Cavernas da Áustria, Alemanha, Suiça e Croácia. De toda a operação de resgate participaram mais de 300 socorristas (109 somente do CNSAS), organizados em vários turnos. Os socorristas trabalharam, cada um, por várias dezenas de horas sem interrupção, deslocando a maca com a vítima em todo o trajeto planejado para a evacuação no profundo, complexo e perigoso sistema subterrâneo da Alta Baviera Alemã.

Uma contribuição decisiva para a sobrevivência da vítima foi dada por todos os técnicos e médicos envolvidos em cuidar do acidentado. Todos os socorristas são especialistas em resgate em ambiente hostil e em áreas remotas. Os membros da equipe da Comissão Médica do CNSAS-Italiano e um médico Austríaco foram os primeiros a chegar no local do acidente e a medicar a vítima, já no dia 11/06.

A vítima - o espeleólogo alemão Johann Westhauser - foi finalmente resgatada. Mas, a equipe internacional continuará a operação, sem interrupção, enquanto o último socorrista ainda estiver dentro da caverna Riesending-Schachthöhle. A operação somente se encerrará, oficialmente, quando o último resgatista for transportado de helocóptero ao Posto de Comando Central.

Referência: http://www.telegraph.co.uk/news/worldnews/europe/germany/10900044/Most-expensive-rescue-in-German-history-as-man-begins-second-week-trapped-3000-feet-underground-in-cave.html

quinta-feira, 29 de maio de 2014

grutas e cavernas - canal off

Recentemente o programa “grutas e cavernas” exibido no Canal off da TV à cabo causou uma perturbação no lado negro da força. Produzido pela carioca Manjubinha Filmes para o canal aventuresco da Globo, ele mostra dois mergulhadores em busca da foto perfeita. “Uma câmera que vai onde nenhuma outra câmera foi”.




O entusiasmo entre trogófilos e trogloxenos antes da estréia logo se transformou em decepção. 



Como se fosse possível esperar mais de um típico programa de turismo para quem curte aventuras no conforto do sofá de casa. Com belas imagens, músicas descoladas e sem riscos. Enfim, um programa pop.


Mas então eles resolveram dizer que são espeleólogos e feriram nosso orgulho cavernoso. Afinal não basta botar um capacete e sair por ai dizendo que é espeleólogo, certo? E o ritual de iniciação? E das profundezas escuras dos confins do agreste surgiram seres com macacões coloridos e luzes na cabeça dizendo que tá tudo errado

e os defensores do programa não tardaram a aparecer

Mas o programa é ruim? Não exatamente, depende. Ele apela para o falso ineditismo e para o exagero, omite informações, que provavelmente nem conhecem. Pessoalmente não gosto, acho pretensioso e lento. Mas deve agradar ao público alvo. O slogan no site da produtora dá uma dica do objetivo “Num filme o que importa não é a realidade, mas o que dela possa extrair a imaginação. http://www.manjubinhafilmes.com.br/


Filmes de ação


Os filmes são muito importantes para a divulgação de diversas atividades. Especialmente as de ação e que são praticadas em lugares em que não é qualquer um que chega ou qualquer um que pratica. Skate, surf, snowboard, escalada, mountain bike, vôo livre etc se valem dos vídeos para conseguir espaço e apoio. 



Em todas estas atividades há vários programas ruins, se aproveitando da fama ou pegando carona no estilo dos praticantes, mas geralmente sabe-se distinguir um praticante legítimo de um impostor. Em atividades de ação é mais fácil separar um do outro, já que se você não sabe o que está fazendo provavelmente vai se dar mal na brincadeira. Por isto todo mundo sabe que o Bob Burnquist é skatista e o Serra não.





Ser ou não ser

Embora tenhamos bastante gente identificada com o Serra, falta habilidade e sobra política, na espeleologia é mais complicado distinguir quem é quem. Parece mais fácil apontar um do que descrever o que ele seja.

Tirando as cavernas mais técnicas com abismos e sifões e atividades prolongadas com grande esforço físico, frio, dificuldade de acesso etc no geral a espeleologia pode não ser uma atividade que exija muito do praticante e, ao contrário do vôo livre por exemplo, tem-se tempo de pensar antes de tomar alguma decisão, podendo parar e/ou recuar.

Além disto são poucos praticantes que de fato se dedicam à explorar, registrar e estudar as cavernas, a maioria só visita as cavernas. Comparativamente, e com os devidos descontos, é como dizer que o cara que pedala no parque no domingo é tão ciclista quanto o campeão da Volta da França. Talvez por isto ainda se discuta se são caverneiros, cavernistas, espeleístas ou espeleólogos. E sabemos que há cavernas e cavernas e praticantes e praticantes. Facilmente confundidos uns com os outros.



exploração


mapeamento

Esta imprecisão entre nós, somada ao quase total desconhecimento do que fazemos e à curiosidade que as cavernas despertam são os ingredientes perfeitos para programas desinformativos como este Grutas e cavernas. Começando pelo nome. Quando aparecem estes caras despreparados, desinformados e querendo tirar uma onda de fodões, ficamos duplamente chateados. Pelas besteiras que falam e pela oportunidade perdida. E se num futuro houver outra chance, será necessário desconstruir a anterior para então contar uma nova história.

Falha nossa


E temos de apontar as falhas do lado de cá também. Há alguns anos alguns espeleólogos resolveram medir a altura da Gruta do Janelão com um balão de gás para aparecer no Globo Reporter. A ideia do balão com esta finalidade já seria questionável num mundo com telêmetros, trenas etc e numa gruta fácil como aquela. E para piorar o plano foi montado um teatro com uma reação química para gerar o gás que encheria o balão. Lógico que não funcionou.

Outra encenação, também durante o Globo Repórter, quando o repórter foi fazer um rapel desnecessário em um paredão no Piauí, naquelas cenas em que o cinegrafista filma debaixo, e, com todo o peso do seu equipamento é óbvio que ele não foi pelo mesmo caminho. Depois de bater a cabeça na rocha e ficar enrolado na corda, o repórter se borra quando o camarada que vinha dando segurança de cima decide cortar a corda para livrá-lo do enrosco.

Bons exemplos


Contando uma história interessante e bem produzida, como Jacques Cousteau fez brilhantemente e a BBC hoje esbanja - fazendo você ficar parado uma hora na frente da TV vendo formigas e depois sair falando como é legal ser formiga - quem sabe não despertaríamos o interesse pelas cavernas, a preocupação com a sua preservação e de quebra mostraríamos o que são e o que fazem os espeleólogos. 

O filme Caverna dos Sonhos Esquecidos de Werner Herzog é outro ótimo exemplo de entretenimento com informação sobre uma atividade que não é de ação. Há outros, alguns programas com o pessoal do Grupo Bambui são muito sérios.


O filme produzido na década de 1990 sobre a Lechuguilla é interessante e corretíssimo. Links abaixo.


E para fechar os filmes O mundo das cavernas da série Pré-história de Minas Gerais






Em tempos de privatização das unidades de conservação, destruição de cavernas e falta de praticantes não seria nada mal mostrar um pouco do nosso Brasil subterrâneo pelos olhos de quem o conhece. E então não se preocupar com programas do “tipo” aventura.

* os comentários sobre o programa são públicos e estão disponíveis no site do canal off




quarta-feira, 30 de abril de 2014

Expedição São Mateus, Maio 2014

Maio de 2014. Acabamos de chegar de mais uma expedição para a caverna de São Mateus, no Parque estadual de Terra Ronca (PETER), em Goiás.

Esta foi a quarta viagem do projeto, cujo objetivo é a produção de um novo mapa para a caverna a ser publicado na reedição do livro “As Grandes Cavernas do Brasil.” Além de mapear com mais detalhes  áreas principais já conhecidas, as viagens proporcionaram muitos Kms de galerias novas, com salões e conexões até então desconhecidos. A descoberta de uma saída na área mais remota da caverna São Mateus I, através do sumidouro do rio, deu uma nova perspectiva nas explorações, acelerando a topografia sem a necessidade de dormir dentro da caverna. A união subterrânea entre as cavernas São Mateus I e II fez com que efetivamente as duas cavernas, antes separadas por um sifão, se tornassem uma só gruta, muito maior. Diversas laterais não exploradas também foram somadas ao mapa. Hoje, ultrapassando os 30km de linha de trena, a caverna São Mateus deve assumir o posto de terceira maior caverna do Brasil.


Esta última viagem foi marcada pela finalização da topografia da São Mateus II e pela correção de alguns dados obtidos em áreas mais distantes da caverna São Mateus I. O mapa final deverá ficar pronto em breve e ser publicado como um patrimônio de uma das mais completas, bonitas e desafiadoras caverna do Brasil.

Equipe de topografia
(faltando alguns desertores que insistiam em não aparecer no momento de foto oficial)

Entrada da São Mateus II
Lu próxima à entrada 
Lu aguardando saída da gruta
Conduto do rio, Luciana com morcegos






Vulcões


sexta-feira, 21 de março de 2014

Bulha D'água: Nova entrada da Buenos I

Março de 2014 e lá fomos nós para mais uma viagem à região de Bulha D'água, no PETAR.

Com algumas baixas de última hora, desta vez a equipe estava reduzida somente aos mais bravos e persistentes espeleólogos: Iscoti, Fabio, Zé e eu (Daniel). Um dos objetivos era descer um pequeno abismo localizado em uma viagem anterior, bem próximo às cavernas Furo 30 e Buenos I. 

Para se chegar até o abismo escolhemos um caminho alternativo, atravessando por dentro da montanha pela caverna Furo 30 ao invés de contorná-la pela trilha A decisão, além de nos poupar esforços abrindo a trilha já tomada pela mata, nos proporcionou um agradável passeio.

Encontramos a entrada do abismo depois de bater um pouco de mato, ao sair da Furo 30. Um buraco estreito ao lado de uma íngreme encosta. Antes de descer, como já é de costume, jogamos algumas pedras para estimar a profundidade. A pedras resvalavam em superfícies sólidas até encerrarem a queda em um sonoro "TIBUM"..... água abaixo! Rapidamente ancoramos a corda na própria encosta. Nos espremendo um pouco pelo estreito buraco deslizamos pela corda caverna abaixo. Chegando ao fundo, uma íngreme descida escorregadia nos levou até um conduto de rio. Estávamos na Caverna Buenos I, já conhecida e mapeada.

No Domingo o dia foi curto, mas não o suficiente para uma escalada até uma possível gruta, em um paredão próximo a casa de pesquisa. A escalada foi rápida. Subi usando raízes como apoio, costurando proteções para passar a corda. Na outra ponta, o Iscoti garantiria minha segurança em caso de queda. A escalada em si não foi difícil, embora uma queda poderia ser grave visto a altura do barranco até o rio, correndo mais de uma dezena de metros abaixo. Um pouco de suor e cheguei até o topo. Na verdade, apenas um abrigo no meio do paredão. Mistério de dois anos desvendado.

Em resumo, o final de semana foi ótimo e Bulha, mais uma vez, honrou sua fama de região inóspita. As trilhas íngremes e de difícil acesso já estavam se fechando em resposta a nossa ausência por poucos meses. Encontramos animais peçonhentos, cobras e pegadas de pacas que insistem em rondar nossas trilhas.

(Fotos Daniel Menin)


Equipe de bravos, que não "desistiu" da viagem
Trilhas íngremes e fechadas fazem jus à fama da região


Entrada da Caverna Furo 30, para atravessar a montanha e seguir nosso caminho

Casa de pesquisa e Fabio ensaiando uma Dança da Chuva

A Dança funcionou e lá vem a tempestade de raios

(Fotos Iscoti)

Abismo - uma nova entrada para a caverna Buenos I

Se espremendo para passar

Ancoragem de aproximação

Parada para lanche, após exploração do abismo

Escalada de Domingo. Iscoti dando proteção.



segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Abismo ventania - Morro do Chapéu

O nome da gruta é sugestivo. Normalmente quando da entrada de uma caverna sentimos uma corrente de ar temos uma idéia de que grandes galerias nos aguardam de baixo da terra. Mas nem sempre é assim. As vezes estas galerias não são tão evidentes ou mesmo podem nem mesmo existir. E nesses casos, então, de onde vem o vento?

Em 2010 estivemos em Morro do Chapéu averiguando algumas dolinas. A maioria estava mesmo entupida de sedimentos mas uma delas chamou especialmente nossa atenção. Por uma entrada em formato de fenda soprava um forte vento. Depois parava. Depois voltava a soprar.
Na ocasião, não conseguimos tirar a dúvida pois para se adentrar tínhamos que usar cordas. O buraco era totalmente vertical. Uma queda de uns 30m de onde não se podia nem ter uma visão do que havia lá em baixo. Blocos equilibrados pareciam estar prestes a se soltar a qualquer momento.

Pois bem. Aproveitando a expedição na Toca dos Ossos, em Janeiro de 2013, uma equipe de 4 espeleólogos esticou mais um dia na região e, em fim, o abismo foi explorado.

Segue abaixo o mapa. Apesar da corrente de ar, não conseguimos encontrar nenhuma continuação evidente. Talvez ela não exista mesmo. Talvez esteja guardada para futuros exploradores...

Mapa do abismo: -120m de profundidade.

(Fotos: Luciana Fakhouri, Adolpho Milhomem, Letícia Moraes)
Dolina, dentre várias entupidas na região, uma que conseguimos adentrar.

Fenda da entrada, com aproximação para a descida.

Ancoragem inicial
Descida, com muitos blocos soltos

Fim da linha (lago na parte mais baixa sugere que encontramos o lençol freático)

Equipe retornando para o carro

Equipe de topografia (Letícia, Adolpho e Daniel)
Lu da equipe de apoio de superfície tirando fotos de plantas e bichos... e dela mesma!.