"E impelido pela minha ávida vontade, imaginando poder contemplar a grande abundância de formas várias e estranhas criadas pela artificiosa natureza, enredado pelos sombrios rochedos cheguei à entrada de uma grande caverna, diante da qual permaneci tão estupefato quanto ignorante dessas coisas. Com as costas curvadas em arco, a mão cansada e firme sobre o joelho, procurei, com a mão direita, fazer sombra aos olhos comprimidos, curvando-me cá e lá, para ver se conseguia discernir alguma coisa lá dentro, o que me era impedido pela grande escuridão ali reinante. Assim permanecendo, subitamente brotaram em mim duas coisas: medo e desejo; medo da ameaçadora e escura caverna, desejo de poder contemplar lá dentro algo que me fosse miraculoso"

Leonardo Da Vinci

domingo, 6 de outubro de 2013

A Redespeleo Brasil e a Edição especial do Conexão Subterrânea N. 111

(Comissão Editorial, Setembro de 2013)

A ideia da Rede nasceu em Januária, Minas Gerais, em julho de 2003, após um Congresso de Espeleologia, quando grande  parte dos grupos de espeleologia mais ativos da época em conjunto com cientistas e entusiastas da área, sentiram a necessidade de criar uma organização de estrutura horizontal, que renovasse o panorama da espeleologia nacional, institucionalizando fóruns permanentes de intercâmbio e reflexão sobre a prática da espeleologia e ciências correlatas no Brasil.

Em 22/11/2003 foi fundada oficialmente a REDESPELEO BRASIL, instituição sem fins econômicos cuja missão era “Congregar pessoas e instituições interessadas na convivência em rede e contribuir para a descoberta, estudo, documentação e proteção das Cavidades Naturais Subterrâneas, bem como o seu meio ambiente externo relacionado, através da utilização de todas as ciências, atividades e técnicas correlatas à espeleologia, visando a conservar o patrimônio espeleológico nacional”. A instituição tinha também como objetivo funcionar como elo entre seus sócios, o Poder Público e a Sociedade Brasileira.

As principais metas definidas para a instituição eram:

1) a congregação, união, fortalecimento e aproximação dos sócios;

2) o intercâmbio de conhecimento e experiências de pesquisas, estudos e projetos das mais diversas áreas e disciplinas envolvendo as cavidades naturais subterrâneas e o ambiente cárstico;

3) a elaboração de projetos a serem desenvolvidos pelos sócios;

4) a realização de eventos visando capacitação técnica/ científica;

5) a criação de espaços para denúncias, apresentação de propostas referentes à legislação ambiental e políticas públicas referentes às cavidades naturais subterrâneas e ambientes cársticos;

6) a integração e aproximação com outras entidades, nacionais e internacionais voltadas à espeleologia;

7) A defesa, preservação e conservação das cavidades naturais subterrâneas e ambiente cárstico, visando a promoção do desenvolvimento sustentável.

Dez anos após aquele primeiro encontro em Januária, temos plena convicção de que grande parte destas metas foram alcançadas e estamos encerrando as atividades da Redepeleo Brasil com o sentimento de “Dever Cumprido”. 


Aqui você encontra um link para download da Edição 111 do Conexão Subterrânea, o último informativo digital da Redespeleo Brasil. Uma edição especial pois nele contêm um breve relato do que foi realizado pela instituição, para que todos rememorem e guardem a lembrança da bela Aventura que vivemos juntos.


quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Expedição São Mateus, Setembro de 2013

Acabamos de chegar de mais uma expedição de topografia no sistema de São Mateus, Imbira, em Terra Ronca. Desta vez, devido a distância das áreas subterrâneas o foco foi a ressurgência da caverna, com acampamento próximo à entrada e equipes dedicadas a topografar a conexão descoberta na última expedição. Mas o principal destaque desta viagem foi uma outra conexão, agora entre as cavernas S. Mateus II e III, realizada através de mergulho.

Com esta conexão e os mais de 10km de galerias mapeados na viagem, a caverna de São Mateus assume a posição de terceira maior caverna do Brasil (27km, ao todo, de linha de trena).

O sistema de São Mateus foi desde 1975l - quando descoberto - palco de expedições de diferentes grupos de espeleologia. O CEU (Centro Excursionista Universitário) iniciou as atividades na década de 70 embora não tenha realizado a conexão entre as cavernas ou produzido um mapa detalhado. Nos anos 90 o GREGEO, de Brasília, também realizou atividades de topografia na caverna de São Mateus, mas também sem conectar as grutas ou concluir o mapa realizado. Na década de 2000 o Grupo Bambuí iniciou o remapeamento da caverna e está prestes a terminar os trabalhos nesta importante caverna brasileira.

Com tempo curto e atividades intensas de exploração e mapeamento, poucos foram os momentos dedicados à fotografia, mas seguem abaixo algumas imagens captadas.


Chefe da expedição, averiguando a organização final dos equipamentos 
Parte dos integrantes antes da caminhada para a ressurgência
Carros estacionados no início da trilha e preparativos para a caminhada

Penosa caminhada por estrada de terra até se chegar a trilha da caverna
(poderíamos ter evitado essa parte...)


Acampamento-base, próximo à ressurgência

Entrada de grande galeria superior
Topografia de grande salão fóssil
Topografia das galerias superiores na ressurgência da São Matheus

Invasão de mosquitos
Equipe feliz da vida com a inesperada carona na volta da trilha

Céu estrelado em frente à Caverna Terra Ronca

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Sardegna: grutas de Su Palu e Su Manau

"Su" em dialeto sardo corresponde ao artigo "O". "Palu" corresponde a uma espécie de árvore - grande e forte - típica da região. Uma das principais teorias é de que o nome Gruta de Su Palu faça referência a esta árvore. O carste é lindo. Largas encostas formam grandes paredões repletos de entradas, nem todas completamente exploradas. A Gruta de Su Palu é uma das mais importantes da Sardegna e encontra-se em um belíssimo carste na região leste da ilha, Supramonte, próximo à cidade de Dorgali. Com um sistema explorado de mais de 40km, teve suas explorações várias vezes interrompidas por sifões ou encontro das galerias com o mar - azul turquesa - do mediterrâneo. A principal entrada se dá através de um buraco estreito e uma sequência de descidas em fendas verticais. Após o aperto segue-se em amplos condutos de blocos abatidos, por um rio. Minutos depois encontra-se um pseudo-sifão. Uma única passagem, bastante apertada, entre blocos e a gelada água subterrânea. Alguns espeleólogos tiram a roupa e se aventuram nus para não molharem seus costumes. Melhor passar frio extremo por alguns segundos do que ficar o dia inteiro molhado. Passado o sifão encontra-se uma sequência de belos e amplos condutos. Mais a frente, uma cachoeira de cerca de 15m verticais dá acesso à um grande lago, um salão fóssil e outras áreas, bastante ornamentadas.

Já em outra região carstica, localizada a Sudoeste da Sardegna encontra-se a Gruta de Su Manau. Trata-se de uma caverna completa: grandes condutos, salões, rios em diferentes níveis, lagos e muitas formações. A gruta dispõe de uma grande área bem preparada para o turismo, com passarelas, escadas e iluminação e vários “percursos espeleológicos”, com inúmeras passagens em corda e vias ferratas (escadinhas de aço). Durante a visita, nos acompanhou um espeleólogo chamado Ubaldo, que há décadas cuida da caverna e de suas explorações. Fizemos um percurso de cerca de 6 horas, de fácil dificuldade, mas que exige equipamentos verticais e conhecimento de técnicas. Além das belezas morfológicas a caverna também abriga uma boa riqueza arqueológica. Seu nome resgata uma lenda local e rituais antigos de referência a água - abundante na caverna, mas escassa na superfície. A caverna foi também abrigo de pastores. Em seus condutos e salões fósseis, foram encontrados inúmeros utensílios antigos. Segundo história local, Manau era o nome de uma criatura (humanoide) que por sua feiura foi trancado dentro da caverna. Chorando continuamente de tristeza, suas lágrimas originaram o rio subterrâneo que ainda hoje banha as profundezas da caverna. A criatura (Manau), perdido dentro da caverna, continua sempre alimentando-a com suas lágrimas. As pessoas, por mais pena que sintam da criatura, ainda coletam a água subterrânea e assim desejam que a criatura não encontre uma saída ou pare de sofrer...

Pseudo-sifão na Gruta de Su Palu

Gruta de Su Palu

Gruta de Su Palu

Gruta de Su Palu

Gruta de Su Palu

Gruta de Su Palu

Gruta de Su Palu

Gruta de Su Palu

Gruta de Su Palu

Equipe da visita à caverna de Su Palu

Encostas de calcário, repletas de entradas

Equipe da visita à caverna de Su Manau

Carste da região de Dorgali


domingo, 11 de agosto de 2013

Vista às cavernas de São Desidério - BA durante o 32º Congresso Brasileiro de Espeleologia

Em julho de 2013 estive em Barreiras, município do oeste baiano, para participar do 32º Congresso Brasileiro de Espeleologia. Realizado no Instituto de Ciências Ambientais da Universidade Federal da Bahia, foi um dos mais desorganizados e chatos congressos já realizados. Os próximos organizadores precisam repensar o formato e recuperar a graça que havia nos encontros de espeleologia.Transformar o CBE em um evento científico de terceira linha direcionado, em sua maior parte, à trabalhos incompletos, irrelevantes e "comentários iniciais preliminares inconclusos" sobre qualquer coisa só para o autor ter uma linha no Lattes é uma péssima estratégia. Mas isto fica para outro artigo. 

Barreiras é uma cidade em pleno crescimento econômico movido pelo poder do agronegócio, evidente nas dezenas de novas construções, na expansão urbana desordenada e nos artigos e carros de luxo pelas ruas. Cidade interessante do ponto de vista histórico, com destaque para o aeroporto usado como base pelo exército Norte Americano durante a II Grande Guerra, porém do ponto de vista espeleológico o que nos interessa é a cidade vizinha de São Desidério.

O carste de São Desidério é magnífico, lapiás à perder de vista, cavernas, dolinas e
caatinga misturada à espécies de mata tropical, remanescente de tempos mais úmidos na região.

Rio Grande em Barreiras 
BR135 sobre o carste de São Desidério. As obras da rodovia afetaram cavernas e dolinas, especialmente o Buraco do Inferno da Lagoa do Cemitério, que abriga o maior lago subterrâneo do Brasil. Estão paralisadas mas devem ser retomadas devido à pressão política.

Trilha no Parque Municipal da Lagoa Azul.

Dolina

Lagoa Azul

Gruta do Catão

Detalhe de formações na Gruta do Catão

Trilha para Sumidouro do Jõao Baio

Trilha para Sumidouro do Jõao Baio

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Acontece: palestra sobre explorações

Um bom programa para quem estiver em Campinas no Sábado, dia 27 de Julho é assistir a palestra do Alexandre Camargo (Iscoti) e do Roberto Brandi sobre os dez anos de exploração espeleológica na região de Bulha D'água, no PETAR, SP.

Embora muitas das aventuras estejam publicadas com fotos e relatos aqui neste site, conhecer, rever, assistir a palestra e bater um papo com alguns dos exploradores pessoalmente é sem dúvida um programa bacana.



BULHA D'ÁGUA - 10 ANOS DE EXPLORAÇÃO
Por: Alexandre Camargo (Iscoti) e Roberto Brandi.

Após uma década de exploração na região de Bulha d’Água, Vale dos Buenos, Fundão e Caboclos, as aventuras vividas serão contadas ao público revelando fatos e descobertas feitas por Espeleólogos de todo o Brasil, nesta que é uma das últimas áreas intocadas do Estado de São Paulo.

A palestra também marca o início uma exposição fotográfica de mesmo tema que ficará em exibição na sede da SBE até o final de agosto.

Data: 27/07
Local: Parque Taquaral, portão 2 (ao lado da Concha Acústica) - Av. Dr. Heitor Penteado, s/n - Campinas SP

terça-feira, 16 de julho de 2013

CURSO - espeleoresgate



Entre os dias 07 e 15 de Setembro de 2013 será realizado mais um curso de espeleoresgate do EGB (Espeleogrupo de Brasília) em parceria com a FFS (Federação Francesa de Espeleologia) e SSF (Speleo Secours Francais).

Este ano será o segundo curso ministrado pelos franceses em Terra Ronca (o primeiro foi em 2012). O curso será focado nas particularidades das cavernas do território brasileiro, além da apresentação de técnicas próprias de resgates em cavernas desenvolvidas na Europa. Os instrutores são espeleólogos franceses que possuem amplo conhecimento das técnicas, da dificuldade do ambiente cavernícola e particularidades do carste brasileiro, tendo participado de diversas expedições em Minas Gerais, Bahia e
Goiás.

Para maiores informações e inscrição, entrar em contato com espeleoresgate2013@gmail.com

domingo, 16 de junho de 2013

Expedição à Caverna de São Mateus, Goiás - Maio de 2013

(Texto Ezio Rubbioli)

Acabamos de voltar de São Domingos em Goiás onde continuamos o mapeamento do sistema São Mateus –Imbira; a ultima das grandes cavernas da região que ainda não teve o seu mapeamento refeito. A exploração e topografia inicial foram realizadas pelo CEU – Centro Excursionista Universitário de São Paulo na década de 70, sendo identificados 5 segmentos do sistema batizados de Matildes. A maior delas (Matilde III) somou na época mais de 10 km restando inúmeras galerias superiores a serem devidamente verificadas.

O Bambuí iniciou os trabalhos de topografia em São Mateus no ano de 2000, sendo na época retopografados cerca de 6 km, quase que totalmente na Matilde II (o segundo maior segmento do sistema). Este ano ficamos 10 dias na região com uma equipe de 15 pessoas e conseguimos acrescentar mais 10,6 km  na topografia, sendo 9,9 km na Matilde III e 700 metros na Matilde II. Além disso, encontramos uma passagem no meio a um grande desmoronamento que permitiu a conexão da Matilde III com a Matilde I (ressurgência do sistema). Esta ligação havia sido descartada nas explorações iniciais da década de 70 onde os espeleólogos foram barrados por um sifão. Com isso devemos acrescentar na Matilde III pelo menos 1 km de novas galerias além de estabelecer um acesso rápido e fácil às galerias mais distantes (anteriormente eram necessários pelo menos 4 a 5 horas utilizando a entrada principal do sistema só para chegar ao fundo).

Este mapeamento faz parte do projeto de reedição do livro “As Grandes Cavernas do Brasil”. Nos últimos 12 meses já formam topografados mais de 62 km de galerias nas grutas Sem Fim, Brejões, Torrinha e agora na São Mateus. Ainda este ano devemos finalizar o mapa da Torrinha e São Mateus sendo que na ultima devemos retornar em setembro. Para o final de 2013 estamos planejando uma expedição a Ourolândia para finalmente topografar a Toca dos Ossos, sem dúvida uma dos maiores labirintos do Brasil e que tem potencial para superar a marca dos 15 km.

Obs: Todas as medidas apresentadas acima são referentes a soma das visadas. A projeção horizontal real só deve ser confirmada depois de confeccionado o mapa. Abaixo segue a linha de trena da Sistema São Mateus com todos os dados atuais.


(fotos: Cavernas Terra Ronca e São Mateus III -  Daniel Menin)