"E impelido pela minha ávida vontade, imaginando poder contemplar a grande abundância de formas várias e estranhas criadas pela artificiosa natureza, enredado pelos sombrios rochedos cheguei à entrada de uma grande caverna, diante da qual permaneci tão estupefato quanto ignorante dessas coisas. Com as costas curvadas em arco, a mão cansada e firme sobre o joelho, procurei, com a mão direita, fazer sombra aos olhos comprimidos, curvando-me cá e lá, para ver se conseguia discernir alguma coisa lá dentro, o que me era impedido pela grande escuridão ali reinante. Assim permanecendo, subitamente brotaram em mim duas coisas: medo e desejo; medo da ameaçadora e escura caverna, desejo de poder contemplar lá dentro algo que me fosse miraculoso"

Leonardo Da Vinci

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Bahia Express - relato.2, mais duas belas cavernas

Texto Daniel Menin
Fotos: Daniel Menin e Leda Zogbi
Mapa: Leda Zogbi

Na mesma viagem express à Bahia já descrita aqui no site, mapeamos mais 2 cavernas relevantes além da descrita no relatório anterior. Ambas estas cavernas consideravelmente importantes e bastante diferentes entre si.
Como tínhamos 4 dias de viagem e terminamos os trabalhos na primeira caverna já no segundo dia, ainda nos sobravam 2 dias inteiros para averiguar outras áreas ali próximo e, se possível, já irmos tomando o rumo de Salvador. Sendo assim, no terceiro dia fomos acompanhados de nosso guia até uma fazenda não muito distante onde tínhamos pistas da existência de cavernas.
Pergunta daqui, entra em estradas de terra ali, pergunta novamente, mais alguns kms de terra e não foi difícil encontrar a fazenda. Logo próximo à entrada, moradores locais trabalhavam em uma roça. Com um pouco de conversa conseguimos que alguns deles nos levassem até uma suposta entrada de gruta, na encosta de um morro não muito longe. O problema foi que para acessar a entrada da caverna, tínhamos que atravessar uma densa floresta de cizal. Para quem não conhece, o cizal compreende a arbustos de compridas folhas com afiadíssimos espinhos na ponta de cada folha. Isso sim foi bem mais difícil do que esperávamos.


As folhas saem de um núcleo da planta, próximo ao chão e se prolongam até a altura da cintura. Os espinhos apontam para todos os lados fechando qualquer possibilidade de caminhamento. Com facão e foice na mão fizemos várias tentativas de trilhas sem muito conseguir avançar. Em cada tentativa acumulávamos doloridos furos nos braços e pernas. Simplesmente desesperador ver o morrote tão perto (uns 50m adiante) e com acesso tão complicado.

Estávamos quase desistindo quando um dos moradores que nos acompanhava nos informou ter encontrado um caminho mais próximo em uma lateral da floresta de cizal. Seguimos por este caminho até conseguirmos chegar a poucos metros do morro. Bastou mais alguns minutos abrindo a trilha em meio aos espinhos e conseguimos chegar a uma grande entrada de caverna. Uma íngreme descida acessa um enorme salão, morro adentro. Descemos em silêncio, para não irritar uma imensa colméia no teto da caverna, próximo à entrada. O barulho das abelhas era assustador. Dentro da gruta, nenhuma pegada nos dava a sugestão de pouca visitação até o momento.

No fundo do salão uma enorme montanha de travertino, em forma de bolo de noiva, estava cortada ao meio pelo afundamento da metade da formação. Um corte transversal expondo centenas de camadas em uma excelente representação didatica da geologia e idade do espeleotema.


Um estreito caminho entre blocos, por baixo da formação sugeriria continuação, porém encontra-se totalmente fechada sedimentos.


Trata-se esta caverna um belo exemplo de gruta de fácil acesso, mas com pouquíssima intervenção humana. Faz-se extremamente necessário aplicar medidas de proteção em seu interior e entorno para evitar depredação e poluição da caverna por desconhecimento e desinformação por parte da população, em especial, fiéis religiosos.


No mesmo dia, ainda fomos a uma outra caverna alí próximo. Segundo os moradores, tratava-se de um buracão no chão, onde até então ninguém havia descido por medo e insegurança.

Logo ao chegar fiz uma rápida ancoragem natural em umas grandes raízes infiltradas na rocha e fui sozinho até o fundo da gruta.


Caminhei por alguns metros até acessar um salão maior de onde saiam 2 condutos paralelos. Caminhei mais um pouco, o suficiente para avaliar a necessidade do mapeamento e estimar o tempo de uma topografia.

Nem foi preciso andar por toda a caverna. Voltei com a notícia de que a mesma prometia um belo mapa e resolvemos iniciar os trabalhos naquele mesmo dia. Puxamos um pouco as atividades ficando até mais tarde dentro da caverna, mas valeu muito a pena. Saimos com o mapa pronto e belas fotografias.

Em um dos condutos encontramos estranhos objetos depositados acumuladamente no solo. Espécies de escamas, brancas, grandes, compactas. Não conseguimos identificar de que animal se tratava, ou se tinha realmente alguma origem biológica.

Na dúvida, cansados e com pouco tempo, deixamos exatamente da maneira em que encontramos e seguimos rumo para fora da caverna.

No momento da saída, ao desescalar a ancoragem de fora da gruta fui surpreendido, a poucos centímetros de meu rosto uma enorme aranha caranguejeira. A maior que eu já havia encontrado. Um verdadeiro presente após 3 dias de muito mapeamento. Pedimos licensa e desculpas pela invasão e ela respondeu com certo ar de desconfiança, mas não fugiu. Então todos saíram da caverna a deixando em paz para prosseguir sua jornada, ou melhor, noitada!


E as surpresas continuam no RN... continuam... continuam..

Texto: Daniel Menin
Fotos: Daniel Menin, Leda Zogbi Walter Cortez

A expectativa para esta viagem era enorme. O amplo conduto deixado em aberto em uma das viagens anteriores e o insucesso da última investida faziam deste final de semana especial. A época de chuvas havia passado e o nível da água no sifão já estava baixo, o que foi confirmado pelo próprio CECAV em uma averiguação prévia. As abelhas que nos atrapalharam nas outras viagens também já não eram um problema pois haviam sido retiradas por moradores locais. Sem estas barreiras, certamente desvendaríamos a tão esperada continuação da caverna.

Os preparativos ocorreram milimetricamente como planejávamos. Ou quase. A Leda chegou cedo em Fortaleza na Sexta-feira, e cedo também tomamos nosso rumo à Mossoró. Apesar da péssima condição da estrada chegamos cedo em em nosso destino (antes das 22hs) e resolvemos seguir direto para Felipe Guerra onde dormiríamos na pousada de sempre. Dormiríamos...

Acontece que a pousada estava lotada por conta de festividades locais. Paradoxalmente por sorte, havíamos errado o caminho e por conta disso realizado uma grande volta por uma estrada mais longa, mas passando em frente a uma pousada bacana. A pousada ficava cerca de 20km de Felipe Guerra, no sentido contrário do caminho correto... Voltamos e nos instalamos nesta segunda opção.

Dia seguinte encontramos com nossos companheiros do CECAV e seguirmos direto para a caverna. Mais uma vez, bem intensionados, tentamos encontrar pontos para spits e mais uma vez resolvemos descer com ancoragens naturais. Os cuidados para posicionar o nó da descida mais alto que das outras vezes e uma barriga na corda na ancoragem ajudaram a entrada e saida do abismo serem menos penosos.

A descida foi rápida. É verdade que todos estavam mais treinados do que das outras vezes. Uma vez no conduto principal, nos desequipamos e seguimos entusiasmados para as continuações. Em menos de 1 hora chegamos no ponto final da topo anterior. Tinhamos a nossa frente realmente um belo file em se tratando de caverna. Visadas de 20, 30, 35m. Nenhuma pegada. Melhor que isso somente se a temperatura da caverna fosse mais amena. Acontece que o calor interno é fortíssimo (em média 32graus) além de muito humido e sem nenhum sinal de circulação de ar. Tinhamos que nos mover com calma e beber muita água para repor o que perdíamos.


Em poucos minutos já estávamos enxarcados e exaustos. As gotas de suor misturadas com terra pingavam na folha de croquis gerando uma irritante lama em cima do desenho.

E assim topografamos o dia todo cerca de 450m de belos condutos. Algumas tiradas retas, algumas leves curvas e áreas bem ornamentadas. Destaque para alguns setores repletos de ossos bem calcificados e alguns bem grandes, possivelmente de megafauna.


Mas não foi neste dia que chegaríamos no final da caverna. Resolvemos parar a alguns metros de uma curva. Caminhei até a curva apenas para confirmar a continuidade da caverna naquele mesmo padrão e deixamos para prosseguir a topo no dia seguinte. Nos acompanhou à essa empretada o Walter, companheiro de Vôo livre e muiti-atleta, com boas noções de vertical e iniciando-se na espeleologia.

No dia seguinte nossa equipe estava mais reduzida. O próprio Walter, com a empolgação de sua primeira caverna, acabou sobrecarregando seus joelhos em passagens apertadas no dia anterior o que os fez amanhecer inchados... melhor não arriscar.

Como haviamos deixado a caverna equipada, nossa descida no Domingo foi ainda mais rápida. Em pouco tempo estávamos nos limites do dia anterior e dando prosseguimento à topografia. A caverna continuava sem nenhuma dificuldade ou obstáculo. Mais visadas enormes intercalando partes ornamentadas e verdadeiros condutos de metrô.


Após cerca de 300m a caverna começa a mudar sua morfologia. Os condutos ficam mais volumosos, com grandes blocos no solo e teto bem mais alto. Em um determinado ponto encontramos uma piscina, ou melhor, uma pequena poça d’agua, o suficiente para molharmos nossas mãos e levar um pouco de água ao rosto e à cabeça. Um grande alivio diante daquele calor insuportável. E continua…


Topografamos até um ponto onde seria preciso escalar grandes blocos para prosseguir. Resolvemos fixar uma base e pararmos a topo neste ponto. Além dos blocos, não se via uma continuação óbvia, parecia estarmos próximos ao fim. Resolvi atravessar o desmoronamento e averiguar se a gruta terminaria ali ou se haveria novamente alguma continuação. Após os blocos a caverna fazia mais uma curva à esqueda. Ao chegar na curva iluminei o conduto com a força máxima da lanterna e o que vi à frente foi novamente o vazio inexplorado. Amplos condutos ainda nos aguardam à frente. Neste segundo dia havíamos topografado 490m somando quase 1000m em todo final de semana. Praticamente dobramos o tamanho da caverna o que estava muito além de nossas expectativas.

Georeferenciando o mapa em imagem de satélite observamos que não estamos muito longe do rio Apodi.

O que nos aguarda da próxima vez? Uma saída próxima ao rio Apodi? Acho improvavel visto o calor e a falta de circulação de ar... Uma passagem subersa (sifão) uindo a caverna ao rio poderia ser uma boa especulação. Para saber ao certo teremos que aguardar e nos preparar para a próxima investida.

A única certeza que temos hoje é de que inicia-se aqui uma nova fase de trabalhos nesta caverna: o vertical de sua entrada, o calor intenso em seu interior, o tempo de deslocamento até o ponto de trabalho entre outros importantes fatores representam riscos a mais e exigem toda uma logística de equipemantos e planejamento da expedição. Além desse planejamento, os espeleologos envolvidos deverão ter uma preparação física e principalmete psicológica para encarar a encrenca. Nada mais natural quando se trata da mais pura espeleologia!

Até as próximas!

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Bahia Express - relato.1

Abril de 2009
Texto Daniel Menin / Fotos: Daniel Menin e Leda Zogbi / Mapa: Leda Zogbi

Tinhamos apenas 4 dias de viagem. Uma passagem de ida e volta à Salvador e 1 carro alugado. Nosso objetivo principal era sair de Salvador e ir até esta pequena cidade mapear a caverna visitada pela Leda há alguns meses anteriores. Não foi difícil nos convencer da viagem, bastou a Leda enviar a fotografia de um abismo no final de um conduto acompanhado de alguns comentários: “não pude ver direito mas parece que continua bastante... segundo os moradores locais ninguém ainda desceu...” pronto. Logo depois deste e-mail já estávamos marcando a data da viagem.
Tratava-se de um feriado na Quinta-feria, com ponte na Sexta. Chegamos em Salvador Quarta de noite. Nossa agenda estava corrida e com horários bem apertados, mas tivemos agilidade e na quinta mesmo já conseguimos ir até a caverna. Como muitas outras cavernas no Brasil, a gruta tem um apelo regional à religiosidade e sofre bastante as consequências da desinformação somada à fé humana. Uma bela entrada dá acesso a um grande salão onde foi construido um altar que estava repleto de oferendas. Velas, pedaços de roupa, retratos, dezenas de crucifixos, pernas postiças e muitos outros apetrechos se misturam à garrafas pet, latas, sacos plasticos e muito lixo. Difícil de separar o que ainda tem valor religioso do que foi efetivamente deixado como lixo dentro da pobre gruta.




Quanto mais adentramos à caverna menores são as consequências da visitação humana. Ainda bem! Mais adiante e após uma passagem lateral encontramos uma terceira sala, esta paralela à segunda e morfologicamente bastante similar. Teríamos que atravessá-la por um caminho lateral, margeando a sala pela parede a meia altura até chegar em um outro conduto que nos levaria até o abismo fotografado pela Leda na viagem anterior.
Estávamos acompanhados de um guia local e do prefeito da cidade. Além de nos acolher, o prefeito fez questão de nos acompanhar pessoalmente até o fundo da caverna para desvendar os misterios da gruta e daquele abismo.
Mas não seria neste dia que desceríamos o abismo. A ideia era somente avaliar a descida e voltar com a quantidade certa de equipamentos no dia seguinte. Aproveitamos então para iniciar a topografia voltando do abismo para a entrada da caverna.
No dia seguinte resolvemos iniciar a atividade descendo o menor abismo (próximo à entrada) antes de seguir para o abismo final. Corda ancorada naturalmente em uma grante estalagmitie e desci na frente sem problemas nenhum.

Havia bastante lixo na parte mais profunda da descida. É bem verdade que a caverna havia sido toda limpa para nossa chegada. Esta preparação foi feita pelo nosso guia assim que soube de nossa visita. Apesar dele ter feito um excelente trabalho no salão principal da gruta seria impossível de limpar também o lixo caido abismo abaixo. Vale lembrar também que quando estava limpando a caverna nosso guia foi surpreendido por alguns homens com foices e facões que, de forma não muito amigável, o convidaram a parar o trabalho e sair da caverna. Eles consideravam o ato de retirar o lixo da caverna um desrespeito aos fiéis.
Uma vez lá embaixo fui dar uma olhada na continuação da caverna enquanto o restante da equipa aguardava lá encima. Caminhei um pouco e tive a impressão de chegar na parte inferior do maior abismo, aquele no fundo da gruta que desceríamos depois. Seria ótimo pois evitaríamos este trabalho posteriormente. A Leda tbém desceu e juntos topografamos a parte inferior colocando uma base fixa bem visível para tentar uma ligação com o setor superior sem a necessidade de descer o maior abismo. E assim foi feito!
Foram 1 dia e meio trabalho na caverna para terminarmois a topografia e verificar todas as possibilidades de novas continuações. Um belo trabalho com direito também a belas fotografias e recomendações de preservação da caverna para o prefeito. Não é possível segurar de uma só vez toda a população religiosa, mas é sim possível minimizar os impactos desta visitação em massa adotando algumas simples ações como a colocação de latões de lixo no salão religioso e algumas placas de retenção do caminhamento interno na caverna.

Fora da caverna, alguns metros acima existe uma outra entrada que da acesso a uma caverninha vizinha. Também topografamos a gruta buscando possíveis conexões, mas confirmamos que se trata de uma cavidade independente encerrando nossas atividades nesta gruta em 2 dias de atividade.

Este foi mais um trabalho na Bahia. Faltando ainda 2 dias para o final do feriado aproveitamos um dia inteiro para topografamos mais 2 grutas na região. Ambas muito diferentes uma da outra, a primeira delas um enorme salão escondido no meio de uma plantação de cizal e uma segunda a qual acessamos através de um pequeno abismo, mas estas são histórias para outras postagens.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Passagem submersa, abelhas, falta de oxigênio...

Texto Daniel Menin - Mapa Leda Zogbi

No final de semana de 07 e 08/03 realizamos como combinado mais uma viagem ao RN para continuar os trabalhos de mapeamento em parceria com o CECAV.

Estávamos muito entusiasmados com as descobertas da última viagem e com a suposta ampla continuidade ainda inexplorada. Já fui me preparando psicologicamente durante toda a semana. Arrumei minha mochila com equipamentos, alimentos e iluminação extra pensando em uma incursão mais longa dentro da caverna.

No Sábado acordamos cedo e rumamos diretamente para entrada da caverna. Tudo indicava que seria uma grande exploração. Devido à umas abelhas na entrada do abismo decidimos usar os mesmos pontos de ancoragem como das outras vezes ao invés de batermos spits em outro ponto conforme planejado. A entrada da caverna é daquelas bem chatinhas. Literalmente um buraco no chão, passagem estreita sem nenhum apoio aos pés. O ponto de fixação da corda baixo faz com que o espeleólogo fique em posições difíceis ao entrar na cavidade. Se entrar já é chato muito mais irritante é sair. Pendurado a uma altura de cerca de 20m o espeleólogo tem que se espremer enquanto eleva-se na corda e projeta seu corpo para fora da caverna.

Tivemos que descer em silêncio pois o barulho das abelhas indicava forte atividade bem pertinho da entrada. A surpresa maior foi quando nos penduramos na corda, já na parte de dentro da caverna e demos de cara com elas construindo uma colméia, logo nos primeiros metros da descida. Neste momento, suspenso a 20m do fundo e após ter passado a sofrível entrada o caminho para baixo, apesar de mais longo, é claramente o mais rápido e seguro em caso de qualquer urgência…

Descemos rapidamente seguimos direto para o sifão da caverna. A esperança era de que ele, apesar das chuvas de alguns dias anteriores, estivesse seco o suficiente para possibilitar nossa passagem. Doce ilusão, o sifão estava cheio e a passagem submersa.

Forçamos um pouco, entrei na água algumas vezes. Mergulhei apalpando o fundo e o teto e…. nada!. Mergulhei de novo e fui sifão adentro agora de ré e… nada. Nem sinal de encontrar o outro lado. A água, já bastante turva não facilitava o trabalho. Era apenas uma pequena passagem, com teto baixo e dentro da água, mas arriscado demais para forcar uma passagem novamente mergulhando. Tentamos baixar o nível de água com as mochilas estanques, mas sem nenhum sucesso perceptível. Após cerca de 40 minutos “secando” a passagem observamos que nosso esforço era em vão. Resolvemos desistir e voltar no dia seguinte.

Deixamos o abismo equipado para o dia seguinte, mas desta vez não foi o sifão que impediu nossa entrada, mas sim as abelhas que estavam bem mais ativas. Fiquei alguns minutos próximo ao ponto de descida, na entrada da caverna para ver como elas reagiam na nossa presença e elas começaram a ficar mais agitadas, como se avisassem que desta vez seriam menos tolerantes… resolvemos não arriscar.

Ainda no Domingo tentamos iniciar o mapa de outra caverna na mesma região. A gruta da Raínha é conhecida pela sua beleza, mas também pelo sufocante calor em seu interior. Nosso plano era tentar descer um abismo no final da caverna e topografar do abismo para a entrada.

Mais uma vez nosso trabalho foi bloqueado e desta vez o oxigênio foi a barreira encontrada. Além de extremamente quente, quanto mais se avança caverna adentro mais difícil fica a respiração. Próximo ao abismo fica bastante perigoso arriscar uma descida em corda sem algum equipamento para auxiliar a respiração. Independente dos esforços físicos, estávamos sem ar, disputando oxigênio como se acabássemos de correr 100m rasos!

Mais uma vez resolvemos não arriscar. Passagem submersa, abelhas, falta de oxigênio... muitos eventos para um só final de semana. Melhor dividir estas barreiras em várias outras viagens futuras.

Este trabalho só está sendo possível devido à parceria entre o CECAV/RN e espeleólogos de diversos grupos do Brasil unidos através da lista Meandros.

Até as próximas!


sexta-feira, 6 de março de 2009

Descobertas e surpresas no RN

Por Leda Zogbi
Fotos Daniel Menin e Leda Zogbi

Para chegar na caverna, só mesmo com trilha no GPS, porque a estradinha tem diversas bifurcações, e seria difícil se localizar. O carro fica a uns 30 m do buraco, então nos equipamos no carro mesmo e rumamos para a entrada do abismo, que fica numa dolina, mato por todo lado. Não é um lagedo aberto como boa parte das cavernas que fomos anteriormente no RN.
O Daniel resolveu usar uma árvore que tinha perto da entrada do abismo para ancorar, e mais um pedaço da rocha bem na boca. Desceu primeiro. Aos poucos fomos descendo todos menos o Iatagan e o Darcy que iam ficar prospectando outras cavernas na região e cuidando da corda também (eles estavam com medo de alguém levar a corda, ia ser mesmo dureza...). O abismo tem 18 m de altura e é bem ornamentado: você desce no meio dos escorrimentos, bem bonito.

Esse abismo de entrada chega bem no meio do conduto principal da caverna, que segue para os dois lados. Resolvemos fazer duas equipes, cada uma avançando para um lado diferente da caverna. Deixamos água e comida na entrada, pois havíamos a impressão de que o nosso lado da caverna seria curto, o plano era mapear esta parte e voltar para ajudar a outra equipe no conduto "principal" da caverna.

Fomos evoluindo em um conduto único, com uns 4/5m de largura, e chão de areia. Um bom trecho era teto baixo, tipo com 1/1,20m de altura. O conduto ia meandrando em curvas suaves, e havia diversas cúpulas com escorrimentos no teto, um alívio, porque dava para ficar em pé por alguns instantes antes de continuar a topo. Atingimos depois de uns 150m um salão, onde encontramos uma enorme caranguejeira e alguns escorrimentos bem bonitos (sala da caranguejeira).
Mapeamos uns 350m, e chegamos num escorrimento alto que praticamente entupia a continuidade do conduto, restando apenas uma fresta de uns 30cm de altura por cima do escorrimento (na parte mais alta) , uns 2,20m acima do nível do chão. Escalamos pela parede oposta e colocamos a cara e a lanterna pelo buraco, e deu para ver que continuava bastante... Logo depois desse escorrimento à direita, achamos uma passagenzinha que dava acesso para uma sala meio ovalada, altíssima: medimos 27m de altura até o teto, também cheio de escorrimentos. Desligamos as lanternas para ver se tinha alguma luz externa, mas não deu para ver luz nenhuma entrando pelo teto. Nessa sala, havia muitos bichos: um amblipígeo gigantesco, uma rãzinha... Chamamos a sala de "cúpula dos Bichos" .
Como a hora já estava adiantada e não tinhamos bebido e nem comido nada, amarramos uma base fixa na entrada do escorrimento e voltamos até o abismo de entrada. Foi gozado, porque a outra equipe estava chegando exatamente na mesma hora. E o mais incrível: achamos amarrado em uma corda uma geladeirinha de isopor com duas cocas litro!!!! Parecia miragem, mas eram os colegas Iatagan e Darcy que tinham feito essa boa ação para nós... A equipe do Daniel contou que tinha mapeado um salão muito ornamentado, e depois havia uma bifurcação. Pegaram à direita e foram até um ponto muito apertado, onde após algumas dezenas de metros rastejando, o conduto parecia ter pouco oxigênio. Deixaram parte do mapa em aberto e voltaram.
Da bifurcação ficou faltando verificar o lado esquerdo.

Já eram umas 3h30, e ficamos na dúvida entre voltar para continuar a topo ou sair. A maioria acabou resolvendo sair e deixar a continuação para o dia seguinte. O apelo da cerveja estava "alto", vocês não imaginam o calor dentro da caverna... Voltamos para a pousada, e depois do banho ainda tive forças de lançar os dados no Compass para ver como estava ficando a caverna... Já tinhamos somado 638m de trena!
Dia seguinte, café da manhã na pousada e lá fomos nós para o buraco. Já estava todo mundo mais "safo" depois da experiência do dia anterior. Montamos de novo duas equipes: a primeira iriam checar o buraco que deixamos em cima do escorrimento, e a segunda (a minha) iria continuar o mapa do ramo esquerdo da bifurcação.
Chegamos logo no salão que eles haviam mapeado no dia anterior, e fui dar uma olhada. Tem realmente algumas flores de gipsita. Segundo os amigos do RN, isso é raríssimo por aqui. No dia anterior a equipe do Daniel havia encontrado também um dente, possivelmente de onça. Para chegar na dita cuja da bifurcação, é preciso passar por um sifãozinho, um teto baixo que enche de água.
Quando os meninos tinham passado na véspera, parece que o nível da água estava bem mais alto, mas meu santo é forte e o nível baixou bem. Passamos o sifão e entramos na bifurcação à esquerda, e daí começou a felicidade plena: um conduto, de areia e seixos, meandrando continuamente. Chegamos então numa sala redonda bem ornamentada, com um nível superior e logo depois mais condutos altos. Em umas 3h mapeamos 400m... Nossa água acabou (tínhamos levado uma garrafa de 1,5 l, mas foi pouco, pelo calor que faz lá dentro). Depois que toda equipe resolveu parar mesmo, ainda andei (na verdade corri) mais uns 100m, e a coisa continuava no mesmo padrão... Na volta, a passagem pelo sifãozinho cheio de água foi uma maravilha... O calor era tanto, que acho que até saiu fumaça quando entramos na água. Voltamos lá pelas 14h, e encontramos a Renata já na corda: eles também tinham acabado de chegar... Tinham mapeado mais 200m depois do escorrimento que havíamos deixado no dia anterior. Quase tudo no teto-baixo, mas condutos largos e bem formados.
No total, a topo chegou em 1225m de linha de trena.
A época das chuvas está começando, e a caverna deve ficar logo com boa parte inundada. Antes disto, uma nova expedição está sendo organizada onde uma equipe de topografia continuará o trabalho neste conduto que, até agora, não apresenta nenhum sinal de estar próximo ao fim…
Na saída, paramos de novo no boteco (lógico), que ninguém é de ferro. Depois de um último brinde, fomos tomar um banho rápido na pousada e tomamos o rumo de Mossoró…
Valeu mesmo pessoal!
Não sei se poderei estar presente já nesta próxima empreitada mas espero poder ir de novo mapear com a galera do RN!!.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Novamente no Rio Grande do Norte

Por Daniel Menin

Recentemente estivemos de vota ao estado do Rio Grande do Norte, buscando as cavernas do Oeste do estado. Existem algumas areas cársticas na região, na sua maioria exposta através de lagedos. Sem grandes desníveis, boa parte das cavidades presentes nestas áreas tem morfologia similar. Predominantemente razas e próximas da superfície, não apresentam grandes volumes ou desníveis.
Em algumas cavidades encontramos pequenos abismos sendo necessário sempre levar consigo alguns metros de corda e um devido material de segurança (não leia improviso!). Algumas cavernas são bastante labirínticas e podem se estender por centenas de metros em areas afóticas ou semi-afóticas devido à alta quantidade de clarabóias. Sempre encontramos rica fauna espeleológica entre diversas espécies aranhas, ambiplígeos (alguns bem grandes), grilos e outros animais de caverna.
Uma das cavernas a serem mapeadas nesta viagem se tratava de um pequeno abismo. Com 28m de desnível o Abismo da Água não havia nenhum resquício de vizita humana apesar de sabermos que espeleólogos do SEPARN (…) já haviam descido na cavidade. Trata-se de uma entrada apertada no lagedo que leva a um lance direto para um poço d’água, no fundo da caverna.

Pendulando no meio da descida, pode-se acessar paratames dos 2 lados encontrando pequenas areas horizontais, porem sem continuação. Descendo até o fundo do abismo, chega-se diretamente na parte inundada onde o nivel da água claramente varia de acordo com a época do ano.
Vale a descida, para aqueles que querem treinar seu vertical, porem, sempre com muito cuidado pois qualquer resgate pode se tornar bastante complicado, mesmo em uma caverna simples como esta. A caverna pode ainda apresentar algum potencial paleontológico visto sua morfologia de lance direto (pitfall), porem a busca de fósseis deverá ser feita através de mergulho pois os ossos certamente estarão submersos. Outra barreira é a espessura da entrada, clara barreira à queda de animais grandes da mega-fauna.
Durante toda a atividade tivemos a companhia e apoio de técnicos do CECAV.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Abismo Toca Do Porco - Relatorios de atividades (mapeamento e enchente)

Por Marcos Silverio:

Na última saída paramos a exploração no início de um lance vertical. Havíamos levado
pouca corda pois, além de ser domingo, a caverna não prometia muito. Mas começamos a nos animar com o potencial da caverninha.
Desta vez voltamos com mais corda e disposição. Até o ponto em que paramos desc- emos sem qualquer dificuldade dois pequenos lances após uma caminhada rápida. O único problema é a água do rio que passa por uma casa e onde animados porcos passam seu tempo. O cheiro não é dos mais agradáveis.
Arrumamos um bom lugar para a ancoragem, longe do chuveiro e a Karen se candidatou a descer. Primeiro achamos que ela estava ama- relando :), mas a corda já estava no fim e não entendíamos nada do que ela gritava lá de baixo. Qualquer coisa que precisava de mais corda, que não via o fundo etc. O Luis desceu em seguida e se juntou a ela num pequeno patamar. O César foi o próximo e logo depois eu.
Todos empoleirados no minúsculo patamar na fenda, vertical nos primeiros 10m e depois uma rampa escorregadia até o patamar a 12m do fundo. Com mais 15m de corda para o último lance até o fundo. O Luis e a Karen desceram e confirmaram o que temíamos. Continua! Uma fenda no contato prometia não terminar tão cedo.
Eu e o Cesar voltamos até o carro para buscar mais corda, trocamos as duas cordas na fenda pela maior, para deixar um lance direto e logo estávamos juntos no fundo.
Havia mais uns 60m de corda em 3 pedaços, uma delas semi rompida na descida, provavelmente devido a um atrito por conta da rampa. Cortei a corda e equipamos até o início do lance seguinte.
O César fez as ancoragens e desceu, uma rampa inclinada até a beirada de um grande garrafão. A imagem era linda, mais de 20m abaixo, um salão largo e muito alto. Já era 16h e resolvemos iniciar a topografia deste ponto já que o abismo continuava além desse salão e novamente estávamos sem corda.
A subida foi lenta e aborrecida, a longa corda na rampa nos fazia parecer um io-io e o frio começava a pegar. Mas logo encontra- mos o pessoal da outra equipe do lado de fora, com 2 sacos cheios de lixo tirado da caverna e animados após visitar um outro abismo próximo.
Quem sabe o que a caverna vai aprontar conosco na próxima...
Equipe: César, Karen, Leandro, Leda, Luis, Marcos e Regiane.



Por Daniel Menin – 1 mês depois…

A primeira coisa que fiz após ler o relato do Marcos e ver o croquis do abismo foi marcar minha ida à São Paulo. A ansiedade era grande e a oportunidade apareceu cerca de um mês depois quando eu, o Marcos e a Renata conseguimos conciliar nossas agendas e nos reunir para em um final de semana em Itaóca. Como o tempo era escasso, pretendíamos explorar o restante do abismo e sair da caverna com ao menos toda a parte vertical  topografada. Tudo isso em um só dia de atividade subterrânea.
Chegamos em Apiaí no Sábado a noite e separamos o Domingo para nossa incursão na caverna. Viajamos com as mochilas de caverna já prontas e fizemos apenas uma revisão pela manhã, o que agilizou o processo. Cerca de 230m de corda, muitas fitas, batedor, proteções de corda, spits, mosquetões, chapeletas e alguns equipamentos de técnicas leves. Água, comida, primeiro socorros e outros materiais menores. Tudo isto dividido em 4 mochilas (imagine o peso que elas ficaram...).
O tempo estava ameno. Fresquinho, com uma garoa fina, mas nada que prejudicaria os trabalhos na caverna.

Entramos na gruta às 10hs da manhã. O Marcos foi na frente, encarregado pela equipagem. Fui logo atrás dando o apoio necessário e a Renata seguiu descendo por último. Queríamos fazer tudo relativamente rápido e voltar até umas 4hs da tarde para não ficar muito cansativa à estrada de volta para São Paulo.
Cerca de duas horas depois chegamos ao amplo salão onde a equipe anterior havia parado por falta de corda, à -81m de profundidade. A partir deste ponto eu e o Marcos alteramos as posições. Passei a descer primeiro, equipando a caverna ao mesmo tempo em que fazia o trabalho de ponta de trena na topografia. O Marcos fazia as anotações e o croquis e a Renata a leitura dos equipamentos. A trena a laser facilitou muito o trabalho de topografia vertical viabilizando a equipagem e mapeamento ao mesmo tempo, apesar da equipe reduzida.
Assim que cheguei no fundo deste salão, encontrei uma base deixada pelo Cesar na topografia anterior. Uma estaca fixada na argila sobre um bloco bem no centro da sala. Mais adiante, uma desescalada entre blocos acessava mais uma descida livre. Fiz a segurança em um grande bloco e me debrucei para iluminar lá embaixo. Mesmo a forte luz da lanterna não foi o suficiente para ver o fundo do abismo. Enxergava-se cerca de 20m abaixo e, entre às laterais de rocha e blocos, um vazio negro indicava a  promissora continuidade da caverna. Um calmo e contínuo filete de água vinha de cima e acompanhava a parede em umas das laterais do salão, a água infiltrava-se entre os blocos e aparecia mais abaixo seguindo por outra lateral.
Batemos um spit para duplicar a ancoragem, fizemos um desvio para evitar contatos indesejados da corda com a rocha e seguimos descendo e topografando com tranquilidade. Apenas escutávamos o barulho calmo da água descendo nas ranhuras da rocha na lateral esquerda do conduto. Descíamos com os pés na parede inclinada. Uma espécie de "rampão"vertical.
Além da corda em que estávamos pendurados, eu ainda carregava na mochila mais duas cordas não muito longas e esperava que as mesmas fossem suficientes para chegarmos a algum conduto ou area horizontal da gruta. Sorte ou acaso, os próximos dois lances verticais compreenderam exatamente ao mesmo comprimento das cordas. Mesmo com alguns fracionamentos e desvios ao longo do caminho, no final destas duas descidas, não sobrou nem faltou sequer um metro de corda.
Ao descer o último lance vertical à vista me deparei com mais um amplo salão. Não tão grande como as salas anteriores, mas o suficiente para se caminhar confortavelmente de pé. Apesar do volume, agora as possibilidades de continuação já não eram tão claras. Enquanto a Renata e o Marcos topografavam esta última descida eu resolvi dar uma rápida olhada buscando por alguma continuação. Eu estava tentando passar por entre os blocos de um desmoronamento quando escutei o Marcos, ainda pendurado na corda alguns metros acima, perguntar se o nível de água estaria aumentando. Me virei até ele e sem muita analise apurada respondi: "Impressão sua!". Mais alguns segundos e o barulho da água evidentemente começou a aumentar. Saí do desmoronamento e fiquei em pé no meio do salão. Foi quando pude sentir uma corrente de ar mais forte, indício de que algo se movimentava dentro da caverna diferentemente de antes.  Olhei para a lateral do salão e na parede junto à corda eu não via mais apenas o filete de água escorrendo como antes. No lugar havia muito mais água descendo a parede violentamente junto à muita espuma.  Foi questão de segundos mesmo. A este ponto a topografia já havia sido interrompida e a Renata, assim como o Marcos, ambos completamente molhados, desciam direto para o salão. Nas laterais da sala  haviam várias áreas secas e lugares para nos abrigar caso a água aumentasse ainda mais. Contando com essas áreas de escape decidimos seguir um pouco adiante com a topografia e terminar logo o trabalho. Monitorando a variação fluvial da caverna mapeamos todo salão e também o restante dos condutos. Chegamos até a forçar alguma passagem seca, conduto lateral com alguns moradores morcegos, mas sem nenhuma continuação evidente. Toda a água que descia na caverna se infiltrava entre os blocos de rocha em dois diferentes pontos apertados no fundo do abismo. Diante da situação, demos por encerradas as possibilidades de exploração e mapeamento assim como a busca por continuidades.
Almoçamos e esperamos mais um tempo para analisar novamente o comportamento da água. O nível parecia estável, bastante volumoso, mas havia parado de aumentar. Tínhamos duas opções: iniciar a subida enfrentando a água, o que tornaria a volta à superfície claramente mais penosa ou aguardar o nível baixar para então começar a subir. Cabe lembrar que não estávamos no verão, época de constantes e fortes chuvas. Portanto, fora da época das inundações frequentes não estávamos muito preparados para passar dias aguardando a caverna "secar" ou ficar horas à fio molhados. Nesta época do ano, claramente havíamos sido pegos de surpresa. Aguardamos mais um pouco. Não observamos nenhum sinal de diminuição do volume de água, mas também nenhum sinal de aumento, então optamos por enfrentar a aguaceira toda e iniciar a subida.
Logo nos primeiros metros de corda já estávamos encharcados. Qualquer esforço a se manter seco era em vão.
A Renata foi subindo na frente enquanto que eu e o Marco nos alternávamos na desequipagem da caverna. Em alguns pontos, tentar enxergar o caminho afrente ou acima era impossível então nos guiávamos pela própria corda, presos por nossos equipamentos. Os movimentos, mesmos nas áreas mais horizontais ou amplas, deveriam ser realizados com calma e lentamente para evitar choques com saliências pontudas e afiados lapiás ao longo do caminho. Entre nós, tentávamos manter algum contato auditivo ou visual para saber se o companheiro estava bem e seguindo seu caminho. A cada lance de corda que eu escutava o companheiro de cima gritar "Liiiiivre!” me vinha um alívio duplo: era a indicação de que a corda estava livre para minha subida e de que a situação lá encima estava sob controle. Quando seu grito tardava a vir ou quando era de alguma maneira desproporcional eu já sabia que a subida tinha sido mais difícil que o usual.
Alguns lances verticais acima e chegamos ao maior salão da caverna. Como eu era o último da equipe a subir, rapidamente desamarrei a corda da ancoragem, guardei os equipamentos na mochila e em um raro momento de descanso pude contemplar a Renata subindo pela corda por uma parede à minha frente. Apaguei minha luz para economizar energias e confesso que vê-la subir por uma lisa parede de cerca de 20m verticais à frente de uma imponente cachoeira era uma visão espetacular. Pensei em fazer algumas fotos, mas tentar alguma comunicação com a Renata com o infernal barulho da água ou parar a subida  para fazer fotos seria algo totalmente fora de cogitação. Cena difícil de descrever e mais difícil ainda de fotografar.
Naquele momento eu lembrava de algumas histórias de enchentes em grutas verticais e algumas técnicas para nos proteger delas. Passando pela experiência na própria pele eu podia me certificar de uma coisa: a caverna que havíamos descido, ora seca e com boa visibilidade estava agora completamente desconfigurada. A condição de novos cursos d'água, de dificuldades na respiração devido à alta humidade e de falta de visibilidade nos expunha à um ambiente novo e bem mais desafiador. A situação se agravava bastante psicologicamente, sobre a incerteza de quanto tempo a vazão da água lá embaixo seria suficiente para evitar que a gruta ficasse completamente submersa.
Levantei com um determinado grito vindo da Renata informando que a corda estava livre para minha subida. Vi sua luz desaparecer em um conduto de onde saía muita água, há mais de 20m acima.
Graças à técnica "hors crue" onde equipamos uma descida com a corda fora de um possível novo curso em caso de enchente, esta maior subida não estava tão difícil pois mesmo sob a forte cachoeira a corda ainda se mantinha longe da água. Por outro lado, alguns outros lances, antes secos e simples, se tornaram difíceis subidas com água caindo fortemente no meio do caminho. Muitas vezes a água ocupava quase toda a área em torno da corda e não havia opções de sair debaixo dos violentos chuveiros gelados. Enquanto nos movimentávamos a temperatura era bastante suportável, mas a medida em que o tempo em que estávamos molhados se prolongava e que permanecíamos parados mesmo que por poucos segundos o frio tomava conta de nossos corpos. As mochilas, já carregadas de equipamentos, ficaram ainda mais pesadas encharcadas e muitas vezes cheias d’água. Na medida em que a atividade foi se prolongando, nossos organismos iam ficando mais cansados e a subida foi ficando mais penosa. Era como se existisse um cronômetro e estivéssemos correndo contra o tempo. Foi preciso bastante energia para subir os constantes garrafões diante destas condições.
Apesar de todas as dificuldades nos mantivemos o tempo todo tranquilos. A caverna, por suas formações já muito belas se tornara ainda mais contemplativa diante do poder da água varrendo seu caminho nas entranhas da terra e mergulhando nas profundezas. Esta beleza, somada à esportividade da situação e domínio da técnica nos dava certo conforto possibilitando controle da situação e calma apesar das mudanças no ambiente e dos momentos delicados.
Entre todo o percurso, sem dúvida umas das passagens mais difíceis foi a subida do rampão, pois a água vinha com bastante violência dificultando fixarmos nossos pés na parede e nos manter bem posicionados. O penúltimo lance da caverna, apesar de curto também foi penoso. Um fracionamento suspenso exigia muito esforço bem debaixo de uma forte cachoeira. Obstáculo muito difícil uma vez cansados e com frio. Subida que poderia ter sido bem mais fácil caso tivéssemos nos atentado a fazer uma equipagem evitando o caminho da água. Fica como aprendizado... mesmo para tempos fora da época das chuvas esta é uma boa prática a ser seguida.
Saímos da caverna às 19hs e a chuva havia parado. Segundo o morador local, logo após nossa entrada iniciou-se uma forte chuva que permaneceu incessante por quase todo o dia. Condição climática bastante atípica para esta época do ano. Logo ao chegar na pousada soubemos que nossos amigos já haviam ligado e demonstrado preocupação.
Fica este relato, como aprendizado de cautela e antecipação. Uma caverna, mesmo que aparentemente fácil ou simples pode se tornar um pesadelo em épocas de chuva e com uma equipe mais numerosa ou lenta. Pequenos problemas podem se tornar relevantes agravantes e causar graves acidentes por reação em cadeia.
Nos dias que se seguiram convivi com uma incômoda dor de cabeça, daquelas típicas de dias de ressaca. Fiz e refiz várias vezes o levantamento mental dos detalhes da atividade, buscando no fundo da memória cada minuto dentro da cavenra e anotando nossos erros e acertos. Após esta criteriosa análise acho que encontrei o principal causador desta dor de cabeça: desidratação!

Mapa: Leda Zogbi
Fotos do Mapa: Regiane Velozo, Luiz Rocha e Leda Zogbi.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Ducano - Construção de equipamento para vencer lances verticais (1999)

Por: Dennys Corbo e Marcos Otavio Silverio
Escrito em junho de 1999.

Há anos pensávamos numa maneira de subir por aquele buraco no teto. Havia um grande escorrimento à margem do rio por onde podíamos subir e diminuir em mais de 2 metros os quase 6 metros totais a serem vencidos, mas a nova posição apenas servia para que percebessemos a continuação do conduto, localizado sobre o rio. Laçar alguma coisa ou escalar era impossível. Na ansiedade pensamos então em arrastar um tronco desde a parte externa da caverna para subir por ele. A idéia até que era boa mas evidentemente ela precisava ser melhorada.

Então nós e o Chico, que nos ajudou com idéias, solda e marreta, resolvemos fabricar um equipamento, com um cano mesmo, para subir. Ele precisava ser resistente e leve o bastante para podermos carregar e subir por ele. Depois de analisarmos as possibilidades em alguns depósitos de ferro-velho, compramos 2 canos galvanizados, do tipo utilizado em sustentação de placas de sinalização de ruas, com 3 metros cada e com roscas nas extremidades para uní-los.

Entretanto tínhamos de descobrir uma forma melhor para unir os canos pois uma batida na superfície de uma pedra danificaria a rosca irreversivelmente. Além disto a rosca fragiliza o tubo interno, que fica com parede menos espessa. A fragilidade fica quase que completamente corrigida quando se rosqueia a luva para emendar os tubos, mas os ˙últimos fios de rosca ficariam à mostra.

Foi então que decidimos utilizar um tubo com cerca de 40 cm, cujo diâmetro interno fosse ligeiramente maior que o diâmetro externo dos tubos a serem juntados. A junção seria feita com o auxílio de dois furos ortogonais (figura 1) e dois parafusos de aço 8,8 comuns na indústria automobilística. Este é o mesmo aço utilizado para a fixação de plaquetas em ancoragens.

Agora sim tínhamos a ”emenda perfeita”. Cortamos os tubos de 3 metros ao meio para que ficassem mais fáceis de serem carregados tanto na trilha (um por mochila) quanto nos condutos estreitos da parte interna da caverna. Furamos os tubos no arranjo desejado (um tubo dentro do outro) para garantirmos que os furos coincidissem e “voilá”. Tínhamos nas mãos 4 pedaços de 1,5 metros de cano que poderiam ser emendados fornecendo uma estrutura rígida com 6 metros de comprimento.

Para segurar cada pedaço do cano fizemos 2 furos próximos e passamos um pedaço de aço dobrado em "U", que foi soldado como alças conforme ilustra a figura 2. Estas alças seriam úteis para amarração na mochila e também dentro da caverna, evitando que a montagem escorregasse para os lados.

Para amarrar a corda ou escadinha na ponta do cano para a subida nós fizemos dois furos passando pelas duas paredes do cano e colocamos um pedaço de aço em forma de arco (fig 3). Apesar de estarem soldadas nós achamos melhor não confiar muito nestas alças. Assim nós passamos a corda por dentro da alça e por trás do cano (figura 4), assim a alça serviria mais para não deixar a corda correr e a solda seria menos tracionada.

No transporte do cano É interessante manter os parafusos nos furos do tubo mais largo e com as respectivas porcas, para não correr o risco de perdê-los, e levar sempre 2 chaves de boca.

Finalmente conseguimos atingir o tal buraco no teto (foto), aumentando o desenvolvimento da caverna em mais de 200 metros. Quanto à rigidez, nosso cano tem 6m e já entorta um pouco. Para grandes alturas seria necessária alguma modificação. Um agradecimento especial ao pessoal que apoiou a idéia e ajudou a carregar e a testar o equipamento. A propósito o salão se chama Ducano, em homenagem ao equipamento utilizado.

sábado, 8 de novembro de 2008

DESCOBERTA DO SIFÃO DO RALO - PROCAD II (Caverna do Diabo – 01.05.98)

Já eram mais de 20h quando nos separamos do grupo do Roberto / Beroaldo no Salão “Gigantes Caídos”. O Beroaldo ficou nos passando as informações necessárias para começarmos a topografia.

O objetivo inicial de topografar o Salão Philippe foi alterado devido ao avançado horário, precisaríamos de pelo menos 6h de topografia e contávamos com menos de 3h.

O Beroaldo nos deu as indicações de um salão superior, mas que também ficaria para uma próxima investida e do “Y” no nível do rio, que faríamos naquela noite.

Segundo ele uma das pernas do “Y” terminava num pequeno lago, pouco adiante. Decidimos começar a topo do final da galeria para o “Delta”.
Fomos caminhando até o final da galeria e nos arrastamos por um quebra-corpo, tendo o grande desmoronamento dos Gigantes Caídos a nossa direita. Chegamos a uma galeria pequena e com mais um lago. O lago continuava e tendia à esquerda saindo do eixo da galeria dos Gigantes Caídos.

A medida que avançávamos aumentavam as dimensões do lago. Passando por um teto baixo (40cm + ou -) chegamos ao maior salão de aproximadamente 20m de comprimento uns 7m de largura e 3 de altura (a partir da água) e uma profundidade maior que 2 metros (não fui até o fundo do salão pois nos parecia um sifão).

Não havia circulação de ar e a água nos pareceu parada também. Até uns 7 metros antes da parede final do salão há bastante areia no chão, mas a medida que vai se avançando ao final dele, o chão vai se inclinando de todos os lados para o centro (parecendo um ralo), o que nos causa a impressão de que ele quer nos puxar para si, e sem depósitos sedimentares (só pedra), ficando difícil de se manter em pé.

Tivemos a impressão de que o lago tem uma comunicação com outra galeria e que quando há uma inundação neste a água circula para o outro lado. Talvez valesse a pena uma exploração através de mergulho.

Percebemos a marca de inundações nas paredes, a água atinge facilmente o teto da galeria. Explorei uma pequena chaminé na entrada do lago mas não subi mais que 2 metros. O Chico deu uma olhada no lado do desmoronamento junto com o Renato, mas não avançou por entre os blocos. Ao todo a nova galeria deve acrescentar uns 50m à Caverna.
Começamos a topo do fundo do lago para o delta, como combinado anteriormente. Na 4ª visada demos uma olhada no relógio e já eram 22:30, estávamos em cima da hora para sairmos.
Por esse motivo abortamos a topografia, usamos o pouco tempo que tínhamos com a exploração da descoberta. Arrumamos nossas coisas e saímos correndo, já eram 23h. Havíamos combinado de voltar no dia seguinte, mas não conseguimos prosseguir com os trabalhos.

Equipe:

Francisco José Sarpa Lima - equipamentos
Renato Moreira Cavalcante – ponta de trena
Rosângela Rodrigues de Oliveira - anotações
Marcos Otavio Silverio - croquis

O SALÃO DEDITOS - PROCAD99 (01.05.99)

Estávamos voltando da topografia do salão das Pérolas Coloridas quando resolvemos dar uma olhada num escorrimento que o Beroaldo havia nos mostrado. Ele disse que ali poderia haver uma continuação.

O Roberto foi na frente, seguido pelo Dennys e por mim, subindo pelo escorregadio escorrimento. Ele subiu na lateral esquerda da galeria do rio próximo à parte turística. Uma pequena subida fácil num trecho inclinado e escorregadio, passando por um lance mais apertado e por baixo de um escorrimento. No fim da subida a uns 10m de altura há uma passagem estreita e alta que sai num patamar bem protegido, atrás de uma grande coluna. No sentido das Ostras podemos ver a galeria do rio, bem lá embaixo, do outro lado mais alguns escorrimentos e um indício de uma possível continuação.

Depois de uma rápida analisada resolvemos tentar. O pessoal da travessia encontrara conosco e o Roberto foi acompanhar a saída do pessoal junto com o Beroaldo. Eu sai em disparada atrás do Beroaldo que estava com a corda e se animou a voltar também. Lá em cima no patamar pudemos ver que havia um degrau bem acima de nós, subindo nas colunas atrás pudemos ver que havia uma continuação bem para o alto. Não perdemos tempo, ficamos revezando as tentativas de laçar umas estalagmites e uma laca lá em cima.

O Dennys finalmente conseguiu laçar, ajeitamos a corda e ancoramos uma ponta numa grande pedra, pela outra eu já subia animado com as possibilidades de uma descoberta.
Eu resolvi dar uma olhada antes de equipar melhor a subida, o salão começa logo na lateral da galeria onde está o patamar, bem inclinado ele sobe muito e se apresenta bem ornamentado. Canudos pretos contrastam com outros brancos, e no chão vários repousam quebrados.

Logo no início da subida há uma outra passagem mais alta que aparentemente passa por cima da galeria do rio, mas que necessita de uma segurança maior para ser escalada. No outro lado lá em cima outra galeria de difícil acesso, pensamos em laçar uma mite mas seria muito difícil conseguirmos lançar uma corda há mais de 10m de altura. A esquerda existe uma páleo galeria bem horizontal que, quase na altura da parte turística, segue em direção a galeria do rio, encontrando-a numa cota bem elevada.

Voltando a subida eu coloquei outra corda amarrada a uma pedra para que o Dennys e o Beroaldo pudessem subir.
Estimamos em mais de 150m o desenvolvimento desta galeria, e ainda falta explorar as duas subidas para as galerias mais altas. Ele apresenta vários espeleotemas se destacando os canudos pretos e os muito brancos. O chão é todo forrado deles. Há também algumas pequenas flores de calcita e escorrimentos.

É uma grande descoberta, não só pelas dimensões mas também por estar a apenas 15min da entrada turística. Em homenagem aos canudos pretos demos o nome de Deditos ao salão, deixamos lá uma corda para prosseguir com as explorações e com a topografia. Saímos cansados e já bem tarde, mas com sorrisos enormes nos rostos, valeu.

No Procad 2000 nós topografamos o salão Deditos e exploramos uma das paredes laterais, após uma escalada de 15m cheguei a um patamar e de lá eu consegui ver um grande salão se desenvolvendo sobre a galeria do rio no sentido da parte turística. Como estava sozinho lá em cima e depois de topografar o Deditos eu não arrisquei o último lance até o salão, o cansaço falou mais alto, ficou para a próxima.