"E impelido pela minha ávida vontade, imaginando poder contemplar a grande abundância de formas várias e estranhas criadas pela artificiosa natureza, enredado pelos sombrios rochedos cheguei à entrada de uma grande caverna, diante da qual permaneci tão estupefato quanto ignorante dessas coisas. Com as costas curvadas em arco, a mão cansada e firme sobre o joelho, procurei, com a mão direita, fazer sombra aos olhos comprimidos, curvando-me cá e lá, para ver se conseguia discernir alguma coisa lá dentro, o que me era impedido pela grande escuridão ali reinante. Assim permanecendo, subitamente brotaram em mim duas coisas: medo e desejo; medo da ameaçadora e escura caverna, desejo de poder contemplar lá dentro algo que me fosse miraculoso"

Leonardo Da Vinci
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segunda-feira, 27 de maio de 2019

É lançado o atlas das grandes cavernas do Brasil


O Grupo Bambuí e o CECAV estão lançando este mês uma nova publicação para a espeleologia brasileira: CAVERNAS - ATLAS DO BRASIL SUBTERRÂNEO.


A obra é resultado não somente da atualização da Edição "As Grandes Cavernas do Brasil", de 2001, mas de um largo trabalho de novas pesquisas, coleta de dados e topografias realizadas desde a última coleção, há quase vinte anos. 

Este novo livro também expande a lista das maiores cavernas do país destacando as mais relevantes em outras litologias e uma descrição detalhada das regiões espeleológicas do Brasil. O resultado está organizado em 340 páginas coloridas com fotos, mapas, dados e históricos de cada uma das maiores cavernas do Brasil.

O trabalho também não se restringe somente aos autores ou ao grupo, mas representa a atuação de toda uma comunidade espeleológica brasileira atuante e comprometida na documentação e preservação do seu patrimônio espeleológico. É resultado, portanto, da colaboração de inúmeros espeleólogos de diferentes especialidades, grupos e estados do Brasil.



Lançamento em Belo Horizonte: dia 8 de junho de 2019.
Horário: a partir das 18:00 hs

Local: Auditório da CEMIG
Endereço: Av. Barbacena,1200, térreo, Sto Agostinho


Realização:

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Abismo Los Três Amigos: continuações, chuvas, condutos enormes e... uma nova entrada?


Textos e fotos: Daniel Menin e Fabio Von Tein

No último final de semana, 1 e 2 de Dezembro, estivemos novamente em Bulha D'Água, PETAR, SP para dar andamento aos trabalhos sistemáticos de exploração e mapeamento das cavernas da região.

Na Sexta-feira, como já é de costume, dormimos na casa do Zé Guapiara, último trecho possível de estrada de terra a se fazer com carro comum. A viagem foi mais cansativa do que de costume devido às fortes chuvas que parece terem insistido em seguir por cima de nosso carro desde a saída de São Paulo.


Não posso dizer que consegui efetivamente dormir de Sexta para Sábado. Além da ansiedade para o dia seguinte, não foi o barulho dos trovões, mas uma sinfonia em último volume de roncos que atrapalhou. O sono veio mesmo naquele cochilo de manhã cedinho, pouco antes de levantar.


Malas arrumadas e subimos no trator. Aquela felicidade com a trilha menor da última viagem logo foi literalmente por água abaixo quando soubemos que a estrada aberta não poderia ser feita nem por trator desta vez, o que nos obrigou a ir até a casa de pesquisa e percorrer o tradicional caminho de quase 2h no sobe e desce de trilhas até a caverna.

Desta vez, foram organizadas duas equipes sendo a primeira para descer o Abismo Los Três Amigos e a segunda para prospecção externa em busca de novas entradas.

Abaixo seguem os relatos de cada equipe, bem como imagens e resultados da viagem:


Equipe 1: fundo

O objetivo nesta viagem era de retomar a exploração e topografia no setor Leste da caverna, à jusante do rio. Há quase dez anos, apenas uma equipe esteve daquele lado, quando Ezio, Lilia e Cesar mapearam um enorme conduto fóssil até um trecho vertical de onde ouvia-se o barulho do rio metros abaixo, mas sem a possibilidade de descer devido a um lance vertical de aproximadamente 17m (indicado no croquis). A equipe também deixou algumas laterais em aberto no conduto principal o que deveria ser revisto nesta viagem.

Entramos na caverna as 12h do Sábado, nos separando da equipe externa. Em apenas 3 espeleólogos (Daniel, Ives e Eduardo), descemos rápido até o salão do vôo-livre, onde fizemos um rápido lanche. Obviamente nos perdemos um pouco para encontrar o caminho que desce do salão para acessar o grande conduto à Leste. Acontece que os desníveis e blocos enormes dificultam muito o caminhamento naquele ponto da caverna existindo poucos acessos para qualquer lado que seja.

Seguimos pelo conduto ora descendo para o rio, ora por cima de blocos até encontrarmos uma passagem bastante exposta ao lado de um escorrimento. Pude então observar um corrimão instalado há dez anos pelo Ezio. Corda, mosquetão, nó... tudo estava calcificado incorporando-se à formação. Incrível a velocidade de calcificação nestas condições de escorrimento ativo. Conseguimos transpor o corrimão sem grandes problemas e nos deparamos com a supercortina, formação conhecida por mim apenas por um croquis há dez anos. Realmente trata-se de uma formação impressionante, sem dúvida a maior cortina que eu já vi em minha vida, com mais de 2 metros de largura, cerca de 50cm de diâmetro e 30 de altura. Prometi que faria uma fotografia na volta.

Seguimos por um conduto de rio com bastante água e corredeiras. Em alguns lugares imaginei a força da água em um caso de enchente, mas ao mesmo tempo o conduto oferecia muitos pontos de fuga.


Chegamos a um desmoronamento cujo caminho por baixo parecia impossível. Apenas uma escalada muito exposta e em negativo nos levaria até uma visível grande área superior. Tentamos entre os blocos e já estávamos quase desistindo quando conseguimos passar por um estreito local e acessar a parte alta do conduto. Mais alguns metros e constatamos ter chegado ao final da área mapeada. De cima de um terraço podíamos ouvir o rio lá embaixo e a continuação do conduto, mas não podíamos vê-lo. Tentei descer entre blocos e cheguei a uma lada com boas condições de iniciar um rappel. Como levamos conosco 20m de corda, fiz uma ancoragem natural em 2 estalagmites bem confiáveis e iniciei a descida. Cheguei até uma borda não muito segura. Daí em diante eu ficaria totalmente pendurado e portanto deveria dispor de proteção de corda ou instalar um fracionamento. Sem chances de novas ancoragens naturais ou de bater um spit (não levamos batedor), deixei a descida para outro dia. Pelo que puder ver da borda do terraço, a corda seria insuficiente para descer o que me desanimou de forçar e me pendurar.

Subimos recolhendo toda a corda e a deixei enrolada em um lugar bem visível para a próxima viagem.

Fiz um croquis para completar o mapa e iniciamos nossa volta.

Durante o caminho da volta, mapeamos um longo trecho de rio deixado em aberto na primeira topografia. Tratava-se nada menos do que um conduto com cerca de 8m de diâmetro e mais de 30 de altura. Realmente, as proporções na caverna Los Três Amigos deixam qualquer outra gruta inexplorada para trás...

Chegamos na base do vôo-livre as 23h da noite. O último espeleólogo (no caso, eu) chegiu no patamar da soneca, a -40m da entrada a 1h da manhã encontrando os demais já esquentando água para um delicioso Cup Noodles...

Também fiz meu jantar, tirei o macacão molhado e os equipamentos e tratei de preparar um ponto quente para descansar. Enrolado em uma manta térmica e me espremendo em um pequeno pedaço de isolante térmico dormi profundamente por umas 3h e depois alternei entre descanso e chá quente até as 5h40 quando resolvemos seguir caminho.

As 8h30 da manhã de Domingo chegávamos cansados na casa de pesquisa sendo recebidos pela equipe externa com a notícia de terem encontrado uma possível nova entrada.


Equipe 2: prospecção externa


Iniciamos uma trilha contornando o abismo dos ossos pelo lado norte. Logo no início encontramos uma bela jararaca de 1,5m a poucos centímetros de nosso caminho, que se assustou e sumiu mato adentro. Seguimos o caminho recém-aberto e em seguida viramos a sul, seguindo o que seria o mapa da gruta muitos metros abaixo.

O caminho segue por uma sequência de grandes dolinas, indicando que a gruta possui uma enorme quantidade de galerias fósseis a poucos metros da superfície. Entretanto não achamos nenhuma passagem.

Neste rumo chegamos à beira do que seria o topo do vale do sumidouro da gruta Ribeirãozinho, uma região repleta de grandes blocos calcários.

Zé Guapiara havia comentado que já conhecia o lado oeste, indo de encontro a gruta João Dias, e decidimos, portanto, seguir a leste, onde avistávamos grandes paredões calcários brancos.

A descida foi árdua, sempre entre muitos blocos, mas eventualmente chegamos na base do paredão branco, que se mostrou um grande abrigo de rocha desmoronado e com forte declive. A lateral esquerda segue por diversos metros, formando salões. Uma nova caverna, mas sem, entretanto, apresentar seguimento. Já o lado direito também apresenta continuidade, mas aqui podemos sentir uma clara corrente de ar. Foi identificada uma passagem estreita, ligeiramente obstruída, que pode oferecer seguimento se melhor explorado. Acreditamos que pode haver aqui uma passagem aos salões superiores da gruta L3A, no extremo oeste da mesma.

Ao sairmos, continuamos a descer o vale, seguindo o som do rio muitos metros abaixo, no sentido do sumidouro e pouco mais abaixo achamos outra boca com vento, mais estreita, mas claramente com forte corrente de ar. Este é mais um lugar que precisa ser melhor explorado.

Continuamos a descida e eventualmente chegamos ao rio, iniciando a árdua subida pela antiga trilha, chegando de volta ao abrigo depois de duas horas de caminhada.

A região promete. Novas possibilidades de acesso ao L3A precisam ser detalhadamente exploradas, e quem sabe, oferecer um acesso mais fácil à maior e mais fantástica caverna da região.


Equipagem da entrada da caverna, Sábado de manhã


Equipagem da entrada da caverna, Sábado de manhã

Grandes condutos na jusante da caverna. Os desníveis e grandes blocos dificultam o caminhamento na caverna.


Conduto de rio mapeado na viagem

Conduto de rio mapeado na viagem
Enquanto isso a equipe 2 bebe água fresca na sombra de um paredão. Será que encontraram uma nova entrada? Tem vento! 


Super cortina (iluminando para trás) 


Super cortina (iluminando para frente)

Nosso estado, saindo da caverna.

Ao chegar na casa de pesquisa, após mais 2h de trilha.

Partes do croquis da viagem. Ponto final da topografia com abismo e continuação.

Mapa atual com condutos e correções realizadas na viagem.

Conduto inferior de rio topografado na viagem

Conduto superior que não estava indicado (possível acessar através de escalada artificial) e croquis da continuação da caverna.


Volta para SP: Fabio dirigindo e eu no co-piloto
Agora sim, todos os presentes, sem muita pose...

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Abismo Los Três Amigos revela novas peças de um grande quebra-cabeça


27 de Agosto de 2018. 


Escrevo este relato ainda me recuperando da última incursão ao Abismo Los 3 Amigos.

O objetivo desta viagem era trabalhar no extremo Oeste da caverna, região mais próxima às cavernas João Dias e Ribeirãozinho II. Existiam pendências nas duas direções do conduto de rio encontrado na viagem anterior (montante e jusante). Uma delas voltava em direção a um grande salão fóssil, a sala do chuveirão. A outra consistia em uma escalada no sentido principal do desenvolvimento da caverna, em direção à Ribeirãozinho II. Entre estes dois extremos, alguns condutos superiores de fácil acesso haviam sido deixados para trás na viagem anterior e queríamos desta vez explorar.

Havíamos ainda como incumbência trocar as cordas entre as cotas -40 e -80m da entrada, pois estavam duras e enlameadas. Outra corda a ser trocada era a de descida entre o grande salão do voo livre e o conduto de rio, instalada em 2006 na ocasião da primeira descida.

Por conta destas trocas e de mais equipamentos de topografia, estávamos um pouco mais carregados do que de costume.
Prevíamos que a atividade seria longa. Por isto combinamos com o Zé de nos buscar de trator na trilha as 7h da manhã do domingo.

Sexta-feira dormimos em sua casa, depois de uma noite de muita chuva e fortes trovoadas. A logística de saída no Sábado de manhã foi rápida. Como a estrada de Buenos estava em boas condições, boa parte dela foi feita de trator e as 10h45 já estávamos descendo os primeiros lances de corda.

As trocas de corda na descida ocorreram sem problemas. A maior dificuldade foi abrir os mosquetões que com o tempo dentro da gruta apresentavam rosca muito dura. A boa desenvoltura de todos no vertical ajudou e logo estávamos fazendo um primeiro lanche na base do salão do voo livre. A corda do rio foi trocada sem problemas e um fracionamento instalado onde antes havia apenas um desvio.

As 14h da tarde nos encontrávamos todos reunidos no extremo Oeste da caverna, já separando as equipes de topografia. Uma parte, composta por Thomas (Vagalume), Ives e Adelino, seguiram à jusante do rio por um conduto amplo em direção à sala do chuveirão. A outra, composta por mim (Daniel), Rejeito, Bia e Diego seguimos em direção à montante onde, na viagem anterior, havíamos interrompido a topografia.

Após uma pequena escalada, acessamos um conduto fóssil contornando por cima o desmoronamento de onde o rio ressurgia. Nossa felicidade não durou muito tempo e logo acessamos uma área muito instável, com blocos e lama.
Após uma descida de corda entre blocos nos vimos de novo no desmoronamento. Com passagens estreitas entre blocos tanto na água quanto por cima, forçamos por cerca de duas horas alguma passagem. Uma leve corrente de ar, insetos e sedimentos (galhos) indicava que poderíamos estar perto de alguma saída, mas tivemos que desistir após muitas tentativas frustradas.
No retorno fizemos a topografia por um caminho superior conectando esta nova parte com o conduto fóssil do chuveiro. Resolvemos descansar em uma sala bastante confortável, próximo da descida para o rio e logo que paramos escutamos as vozes da outra voltando de sua topografia.
Após o almoço, a primeira equipe decidiu iniciar o longo caminho de volta enquanto nós faríamos algumas fotos do grande salão ali ao lado e verificaríamos alguma outra pendência no caminho de volta. E foi na sala do chuveiro que decidimos concluir uma escalada realizada em 2006 por mim e pelo Brandi no final da topografia daquela ocasião. Se tratava de uma íngreme subida próximo à parede direita da sala, se desenvolvendo bem em direção à caverna João Dias. Lembro na ocasião de termos subido e verificado uma continuidade, mas como estávamos cansados acabamos deixando a exploração para outra ocasião.

Desta vez tínhamos mais tempo e energia para continuar e eu havia separado esta pendência caso o conduto de rio não evoluísse. Enquanto a Bia descansava no meio da sala, eu, Rejeito e Diego rumamos por uma inclinada subida seguindo o rastro de 2006. Apesar da inclinação e impressionante desnível até a parte mais baixa da sala, o piso não estava escorregadio e conseguimos rapidamente vencer as partes mais difíceis. Chegamos a condutos horizontais e extremamente ornamentados. Uma ampla sala com mites grandes e várias possibilidades de continuação. Deixamos algumas partes difíceis ou perigosas e seguimos pelos caminhos mais evidentes. Acessamos uma região muito frágil e belíssima. Canudos de 3 a 4m e helictites ornamentavam uma ampla área. Foi o auge do dia em termos de descobertas e explorações. Mapeamos por cerca de duas horas acessando no final mais uma grande sala de onde pudemos nos comunicar com a Bia mais de 50m abaixo, por um terraço. Foi um alívio uma vez que não havíamos levado mochila e nossas baterias principais estavam acabando.Uma vez terminada a topografia tomamos o caminho de volta ao salão do voo livre.

No retorno, verifiquei ainda pelo menos um ponto de acesso à grandes galerias fósseis pelo caminho. Escaladas que exigirão o auxílio de equipagem móvel ou artificial e uma logística exclusiva para esta exploração...

A volta foi lenta e cansativa e por volta das 2h da manhã nos juntamos à primeira equipe na "sala de jantar". Estava muito frio e mesmo com mantas térmicas, isolantes e velas para a criação de "pontos quentes", tivemos dificuldade de dormir ou descansar como prevíamos.

As 5h da manhã desistimos de dormir e iniciamos a difícil tarefa de nos recompor para a saída da caverna. Os últimos 40m verticais foram em meio a uma espécie de lamentação coletiva de cansaço e frio. Mesmo fora da caverna estava difícil de esperar. Enquanto o dia começava a clarear um vento soprava forte de dentro da caverna e uma névoa da manhã permeava as árvores na trilha.

Encontramos o Zè na última subida da trilha, um pouco antes de cruzar o Rio Pilões.
Depois de um banho quente, lá pelas 9h da manhã, desmaiei dentro do saco de dormir para alguns momentos de descanso antes de pegar a estrada de volta a SP.

Foram 20 horas de atividade dentro da caverna e cerca de 400m mapeados de novas galerias. Em breve deveremos ter o mapa contemplando estas partes e datas programadas para continuar a desvendar este gigante quebra-cabeça.

Separação de alguns equipamentos antes da incursão: 100m de cordas (20 para entrada e 80 para trocas), fitas, mosquetões, batedor, kits de topografia, cozinha, etc
Equipe limpinha Sábado de manhã - Agosto 2018
Faltou o Ives que nos encontrou na trilha


Reencontro das duas equipes após primeiro turno de topografias

Reencontro das duas equipes após primeiro turno de topografias

Salão do encontro, último grande salão no extremo Oeste da caverna.

Chegada da equipe no trator, Domingo de manhã. Sujos, com frio, exaustos e felizes.
(Adelino levantou só pra foto)
À direita da imagem as linhas de trena da topografia desta viagem. Detalhe para o salão superior e condutos próximo à superfície. A topografia indica cerca de 30m apenas.


terça-feira, 3 de julho de 2018

Los 3 Amigos, a saga continua

Aproveitando o embalo da viagem anterior, voltamos ao abismo Los Três Amigos no primeiro final de semana de Julho.

A viagem contou com os espeleólogos Thomaz Rocha e Silva (Vagalume), Bia Hadler, Ivo Paris, Eduardo e este que vos escreve, Daniel Menin. Como sempre, também nos ajudaram o Zé Guapiara e seu filho Silas.

Resolvidos todos os preparativos, conseguimos sair da casa do Zé, de trator, as 7h30 do Sábado, meia hora antes do previsto.

Após a costumeira parada na casa de pesquisa para deixar as coisas e fazer os lanches, pegamos a trilha as 10h30 da manhã e por volta das 11h45 estávamos na caverna já instalando a corda da entrada. 

O objetivo desta viagem era descer até o rio e caminhar para o extremo Oeste da caverna. Deveríamos continuar a topografia pelo conduto fóssil deixado em aberto e também buscar alguma conexão com a caverna João Dias. A plotagem da linha de trena da caverna indicava que estávamos a poucos metros de distância da João Dias e uma conexão seria histórica, além de evitar o penoso e longo caminho pelo abismo. Enquanto eu, Bia, Vagalume e Eduardo entrávamos na gruta, o Ivo e o Zé ficariam de apoio e prospecção externa.

Descemos até o salão em cerca de 3 horas. Após um lanche rápido na parte seca, seguimos em busca da corda que leva até o conduto de rio.

Eu me lembrava que a corda estava fixada em um grande bloco e descia no meio do desmoronamento até o rio, cerca de 20m abaixo. Caminhar nesta parte da caverna é difícil e demorado. Os blocos são enormes e os desníveis exigem várias passagens escorregadias. Após cerca de 1h procurando, encontramos o ponto de descida. Feita uma verificação na corda, desci primeiro por uma parede inclinada e escorregadia. Um desvio evita o desgaste da corda em uma superfície cortante e leva até o piso do conduto, a uns 3m abaixo. Ali ao lado, a água e um vasto conduto de rio segue para ambos os lados.

Caminhamos pelo conduto belíssimo, com represas mais profundas e água corrente transparente. O conduto na maior parte do tempo é largo. Ora o teto é mais baixo, ora está a mais de 40m de altura conectando com grandes condutos superiores. Algumas passagens são mais difíceis, com desmoronamentos a serem vencidos, mas nada que impeça a passagem.

Em um dado momento somos obrigados a subir entre os blocos e sair do rio. Após passar um enorme chuveiro, conseguimos acessar um gigante conduto superior. A sala é enorme e apresenta grandes desníveis. Uma área mais baixa na lateral, com piso plano, escorrimentos e formações. Do outro lado, uma parte desmoronada e muito alta, com blocos grandes. O teto está a mais de 45m e alguns condutos laterais superiores parecem dar continuidades, mas são inacessíveis. O rio segue por baixo e a este momento se desenvolve por um conduto independente.

Feita uma fotografia rápida, resolvemos seguir a exploração verificando o caminho mais evidente para então topografar na volta.

É preciso tempo, paciência e cuidado para encontrar os melhores caminhos. Seguimos pelo grande conduto acessando outras salas. A caverna parecia não ter nem sinal de terminar.

Em um momento parece ter uma subida muito íngreme e exposta, mas é possível descer pelos blocos até chegar a parte mais baixa do salão. De lá escutamos novamente o barulho do rio e seguimos um caminho acessando o nível inferior. Era um terraço com cerca de 8m de altura. Embaixo, corria o rio em um conduto amplo e bem delimitado. Como tínhamos uma corda de aproximadamente 10m, resolvemos descer. Instalamos ela em uma grande estalactite e rapelamos facilmente até o conduto. As possibilidades eram claras para os dois lados. Resolvemos seguir a direção mais promissora, seguindo à montante. Parecia termos chegado à caverna João Dias ou alguma outra gruta conhecida. Procurávamos constantemente pegadas ou algum sinal de visita humana, mas não encontramos nada evidente, apenas algumas pegadas de paca. Seguimos pela água do rio, deixando para trás várias possibilidades de escalada para grandes condutos superiores.

Resolvemos parar a exploração em um desmoronamento após testar algumas passagens mais apertadas. Por baixo, a agua segue entre blocos e é preciso se molhar completamente espremendo-se entre as pedras. Uma forte corrente de vento entre os blocos indica boas continuidades. Por cima é possível acessar um conduto amplo através de uma escalada não muito difícil. Por se tratar de um lance negativo de certa de 3m, resolvi não arriscar sem o apoio e equipamentos adequados. 

Paramos a exploração naquele ponto e começamos a retornar topografando todo o caminho.

Pelo rio, seguimos além do rapel por mais uns 150m. Já cansados e sem chances claras de terminar, deixamos uma base fixa em uma sala desmoronada e voltamos para a corda. Topografamos a subida para a sala fóssil e boa parte do grande conduto até conectar com a base da topografia anterior. Foram cerca de 440m topografados e várias continuidades deixadas em aberto. Acabamos a topografia por volta das 23h do Sábado.

O retorno foi penoso. Estávamos muito cansados e cientes de que nada poderia dar errado. Uma torção de pé naquele ponto já seria crítico e causar problemas enormes. Ao chegar no salão, resolvemos iniciar de imediato a subida visto que o grande lance leva cerca de 30min por pessoa. Fomos subindo lentamente cada lance de corda. O combinado era nos encontrarmos na cota de -40m, onde deixamos em uma sala seca e plana água e alguma comida para antes da saída.

A Bia foi na frente, eu no meio e o Eduardo por último. A cada lance fui parando e me certificando que estava tudo bem com todos. Quando eu me aproximava dos -40 escutei conversas da Bia com alguém. O Vagalume tinha decidido não descer para o grande salão, mas eu não imaginava que ele nos esperaria por toda a jornada até a madrugada do dia seguinte.

As 3h00 cheguei ao ponto combinado e encontrei o Vagalume e a Bia batendo papo e esquentando água para chá e comida no fogareiro. Que alívio estar somente a 40 metros da saída e em um conduto seco! O Vagalume me emprestou um isolante que utilizei para me manter aquecido enquanto comia um banquete de comida liofilizada.

As 5h30 estávamos os quatro fora da caverna. O dia ainda estava escuro e seguimos mata adentro com o restante de luz que ainda nos sobrava. Durante a trilha o dia foi amanhecendo. Chegamos na casa de pesquisa já claro momentos antes da chegada do Ivo e do Zé Guapiara.

Tentei dormir um pouco, mas o cansaço físico era tanto que não consegui relaxar na cama. Também sentia frio e depois de cerca de 1h30 resolvi levantar para arrumara as coisas. A Bia e o Vagalume não descansaram na casa. A Bia varou completamente enquanto que o Vagalume estava mais descansado pois havia dormido o dia todo no salão enquanto nos esperava.

As 10h estávamos lavando os equipamentos no Rio. Chegamos em São Paulo por volta das 20h do Domingo e estou até agora me recuperando, dia a dia do cansaço extremo da viagem.

Serão necessárias outras muitas viagens a caverna Los Três Amigos para continuar a desvendar este enorme quebra-cabeça subterrâneo. Continuidade pelo Rio, condutos superiores, laterais, desmoronamentos, muita coisa segue inexplorada em ambas as extremidades da gruta. 

Por enquanto a saga de ter que entrar pelo abismo, descer 200m de corda e seguir por condutos desmoronados gigantes continua. Quem sabe até quando desvendarmos o segredo de alguma entrada mais fácil ou conexão com cavernas próximas...

Saída da casa de pesquisa. Todos inteiros e felizes...
1h15 de trilha, fomos bem rápido desta vez.



Pegadas de onça, muito comum nas trilhas de Bulha

Primeiros lances verticais, logo na entrada da caverna

Descidas até o -40, sala quente.
Grande salão com o lance "Vôo-livre". Ao fundo é possível ver a luz do Eduardo ainda na corda.

Início da topografia, no extremo Oeste da caverna. Ao fundo escorrimento do grande chuveiro.

Momento de chegada na casa de pesquisa. 7h da manhã do Domingo (só o que sobrou de nós...)
Algumas partes do Croquis gerado na topografia das áreas novas.



Plotagem da caverna Los 3 Amigos e as grutas mais próximas. A área topografada nesta viagem é a mais próxima à caverna João Dias. As duas grutas estão a menos de 200m de distância, mas começaram a se desenvolver em sentidos diferentes. Já a caverna Ribeirãozinho II está em direção ao rio do Los 3 Amigos, mas a quase 1km de distância. No extremo sul a gruta segue inexplorada e sem cavernas próximas.