“E impelido pela minha ávida vontade, imaginando poder contemplar a grande abundância de formas várias e estranhas criadas pela artificiosa natureza, enredado pelos sombrios rochedos cheguei à entrada de uma grande caverna, diante da qual permaneci tão estupefato quanto ignorante dessas coisas. Com as costas curvadas em arco, a mão cansada e firme sobre o joelho, procurei, com a mão direita, fazer sombra aos olhos comprimidos, curvando-me cá e lá, para ver se conseguia discernir alguma coisa lá dentro, o que me era impedido pela grande escuridão ali reinante. Assim permanecendo, subitamente brotaram em mim duas coisas: medo e desejo; medo da ameaçadora e escura caverna, desejo de poder contemplar lá dentro algo que fosse miraculoso"

Leonardo Da Vinci

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Bahia Express - relato.2, mais duas belas cavernas

Texto Daniel Menin
Fotos: Daniel Menin e Leda Zogbi
Mapa: Leda Zogbi

Na mesma viagem express à Bahia já descrita aqui no site, mapeamos mais 2 cavernas relevantes além da descrita no relatório anterior. Ambas estas cavernas consideravelmente importantes e bastante diferentes entre si.
Como tínhamos 4 dias de viagem e terminamos os trabalhos na primeira caverna já no segundo dia, ainda nos sobravam 2 dias inteiros para averiguar outras áreas ali próximo e, se possível, já irmos tomando o rumo de Salvador. Sendo assim, no terceiro dia fomos acompanhados de nosso guia até uma fazenda não muito distante onde tínhamos pistas da existência de cavernas.
Pergunta daqui, entra em estradas de terra ali, pergunta novamente, mais alguns kms de terra e não foi difícil encontrar a fazenda. Logo próximo à entrada, moradores locais trabalhavam em uma roça. Com um pouco de conversa conseguimos que alguns deles nos levassem até uma suposta entrada de gruta, na encosta de um morro não muito longe. O problema foi que para acessar a entrada da caverna, tínhamos que atravessar uma densa floresta de cizal. Para quem não conhece, o cizal compreende a arbustos de compridas folhas com afiadíssimos espinhos na ponta de cada folha. Isso sim foi bem mais difícil do que esperávamos.


As folhas saem de um núcleo da planta, próximo ao chão e se prolongam até a altura da cintura. Os espinhos apontam para todos os lados fechando qualquer possibilidade de caminhamento. Com facão e foice na mão fizemos várias tentativas de trilhas sem muito conseguir avançar. Em cada tentativa acumulávamos doloridos furos nos braços e pernas. Simplesmente desesperador ver o morrote tão perto (uns 50m adiante) e com acesso tão complicado.

Estávamos quase desistindo quando um dos moradores que nos acompanhava nos informou ter encontrado um caminho mais próximo em uma lateral da floresta de cizal. Seguimos por este caminho até conseguirmos chegar a poucos metros do morro. Bastou mais alguns minutos abrindo a trilha em meio aos espinhos e conseguimos chegar a uma grande entrada de caverna. Uma íngreme descida acessa um enorme salão, morro adentro. Descemos em silêncio, para não irritar uma imensa colméia no teto da caverna, próximo à entrada. O barulho das abelhas era assustador. Dentro da gruta, nenhuma pegada nos dava a sugestão de pouca visitação até o momento.

No fundo do salão uma enorme montanha de travertino, em forma de bolo de noiva, estava cortada ao meio pelo afundamento da metade da formação. Um corte transversal expondo centenas de camadas em uma excelente representação didatica da geologia e idade do espeleotema.


Um estreito caminho entre blocos, por baixo da formação sugeriria continuação, porém encontra-se totalmente fechada sedimentos.


Trata-se esta caverna um belo exemplo de gruta de fácil acesso, mas com pouquíssima intervenção humana. Faz-se extremamente necessário aplicar medidas de proteção em seu interior e entorno para evitar depredação e poluição da caverna por desconhecimento e desinformação por parte da população, em especial, fiéis religiosos.


No mesmo dia, ainda fomos a uma outra caverna alí próximo. Segundo os moradores, tratava-se de um buracão no chão, onde até então ninguém havia descido por medo e insegurança.

Logo ao chegar fiz uma rápida ancoragem natural em umas grandes raízes infiltradas na rocha e fui sozinho até o fundo da gruta.


Caminhei por alguns metros até acessar um salão maior de onde saiam 2 condutos paralelos. Caminhei mais um pouco, o suficiente para avaliar a necessidade do mapeamento e estimar o tempo de uma topografia.

Nem foi preciso andar por toda a caverna. Voltei com a notícia de que a mesma prometia um belo mapa e resolvemos iniciar os trabalhos naquele mesmo dia. Puxamos um pouco as atividades ficando até mais tarde dentro da caverna, mas valeu muito a pena. Saimos com o mapa pronto e belas fotografias.

Em um dos condutos encontramos estranhos objetos depositados acumuladamente no solo. Espécies de escamas, brancas, grandes, compactas. Não conseguimos identificar de que animal se tratava, ou se tinha realmente alguma origem biológica.

Na dúvida, cansados e com pouco tempo, deixamos exatamente da maneira em que encontramos e seguimos rumo para fora da caverna.

No momento da saída, ao desescalar a ancoragem de fora da gruta fui surpreendido, a poucos centímetros de meu rosto uma enorme aranha caranguejeira. A maior que eu já havia encontrado. Um verdadeiro presente após 3 dias de muito mapeamento. Pedimos licensa e desculpas pela invasão e ela respondeu com certo ar de desconfiança, mas não fugiu. Então todos saíram da caverna a deixando em paz para prosseguir sua jornada, ou melhor, noitada!


E as surpresas continuam no RN... continuam... continuam..

Texto: Daniel Menin
Fotos: Daniel Menin, Leda Zogbi Walter Cortez

A expectativa para esta viagem era enorme. O amplo conduto deixado em aberto em uma das viagens anteriores e o insucesso da última investida faziam deste final de semana especial. A época de chuvas havia passado e o nível da água no sifão já estava baixo, o que foi confirmado pelo próprio CECAV em uma averiguação prévia. As abelhas que nos atrapalharam nas outras viagens também já não eram um problema pois haviam sido retiradas por moradores locais. Sem estas barreiras, certamente desvendaríamos a tão esperada continuação da caverna.

Os preparativos ocorreram milimetricamente como planejávamos. Ou quase. A Leda chegou cedo em Fortaleza na Sexta-feira, e cedo também tomamos nosso rumo à Mossoró. Apesar da péssima condição da estrada chegamos cedo em em nosso destino (antes das 22hs) e resolvemos seguir direto para Felipe Guerra onde dormiríamos na pousada de sempre. Dormiríamos...

Acontece que a pousada estava lotada por conta de festividades locais. Paradoxalmente por sorte, havíamos errado o caminho e por conta disso realizado uma grande volta por uma estrada mais longa, mas passando em frente a uma pousada bacana. A pousada ficava cerca de 20km de Felipe Guerra, no sentido contrário do caminho correto... Voltamos e nos instalamos nesta segunda opção.

Dia seguinte encontramos com nossos companheiros do CECAV e seguirmos direto para a caverna. Mais uma vez, bem intensionados, tentamos encontrar pontos para spits e mais uma vez resolvemos descer com ancoragens naturais. Os cuidados para posicionar o nó da descida mais alto que das outras vezes e uma barriga na corda na ancoragem ajudaram a entrada e saida do abismo serem menos penosos.

A descida foi rápida. É verdade que todos estavam mais treinados do que das outras vezes. Uma vez no conduto principal, nos desequipamos e seguimos entusiasmados para as continuações. Em menos de 1 hora chegamos no ponto final da topo anterior. Tinhamos a nossa frente realmente um belo file em se tratando de caverna. Visadas de 20, 30, 35m. Nenhuma pegada. Melhor que isso somente se a temperatura da caverna fosse mais amena. Acontece que o calor interno é fortíssimo (em média 32graus) além de muito humido e sem nenhum sinal de circulação de ar. Tinhamos que nos mover com calma e beber muita água para repor o que perdíamos.


Em poucos minutos já estávamos enxarcados e exaustos. As gotas de suor misturadas com terra pingavam na folha de croquis gerando uma irritante lama em cima do desenho.

E assim topografamos o dia todo cerca de 450m de belos condutos. Algumas tiradas retas, algumas leves curvas e áreas bem ornamentadas. Destaque para alguns setores repletos de ossos bem calcificados e alguns bem grandes, possivelmente de megafauna.


Mas não foi neste dia que chegaríamos no final da caverna. Resolvemos parar a alguns metros de uma curva. Caminhei até a curva apenas para confirmar a continuidade da caverna naquele mesmo padrão e deixamos para prosseguir a topo no dia seguinte. Nos acompanhou à essa empretada o Walter, companheiro de Vôo livre e muiti-atleta, com boas noções de vertical e iniciando-se na espeleologia.

No dia seguinte nossa equipe estava mais reduzida. O próprio Walter, com a empolgação de sua primeira caverna, acabou sobrecarregando seus joelhos em passagens apertadas no dia anterior o que os fez amanhecer inchados... melhor não arriscar.

Como haviamos deixado a caverna equipada, nossa descida no Domingo foi ainda mais rápida. Em pouco tempo estávamos nos limites do dia anterior e dando prosseguimento à topografia. A caverna continuava sem nenhuma dificuldade ou obstáculo. Mais visadas enormes intercalando partes ornamentadas e verdadeiros condutos de metrô.


Após cerca de 300m a caverna começa a mudar sua morfologia. Os condutos ficam mais volumosos, com grandes blocos no solo e teto bem mais alto. Em um determinado ponto encontramos uma piscina, ou melhor, uma pequena poça d’agua, o suficiente para molharmos nossas mãos e levar um pouco de água ao rosto e à cabeça. Um grande alivio diante daquele calor insuportável. E continua…


Topografamos até um ponto onde seria preciso escalar grandes blocos para prosseguir. Resolvemos fixar uma base e pararmos a topo neste ponto. Além dos blocos, não se via uma continuação óbvia, parecia estarmos próximos ao fim. Resolvi atravessar o desmoronamento e averiguar se a gruta terminaria ali ou se haveria novamente alguma continuação. Após os blocos a caverna fazia mais uma curva à esqueda. Ao chegar na curva iluminei o conduto com a força máxima da lanterna e o que vi à frente foi novamente o vazio inexplorado. Amplos condutos ainda nos aguardam à frente. Neste segundo dia havíamos topografado 490m somando quase 1000m em todo final de semana. Praticamente dobramos o tamanho da caverna o que estava muito além de nossas expectativas.

Georeferenciando o mapa em imagem de satélite observamos que não estamos muito longe do rio Apodi.

O que nos aguarda da próxima vez? Uma saída próxima ao rio Apodi? Acho improvavel visto o calor e a falta de circulação de ar... Uma passagem subersa (sifão) uindo a caverna ao rio poderia ser uma boa especulação. Para saber ao certo teremos que aguardar e nos preparar para a próxima investida.

A única certeza que temos hoje é de que inicia-se aqui uma nova fase de trabalhos nesta caverna: o vertical de sua entrada, o calor intenso em seu interior, o tempo de deslocamento até o ponto de trabalho entre outros importantes fatores representam riscos a mais e exigem toda uma logística de equipemantos e planejamento da expedição. Além desse planejamento, os espeleologos envolvidos deverão ter uma preparação física e principalmete psicológica para encarar a encrenca. Nada mais natural quando se trata da mais pura espeleologia!

Até as próximas!