Bem vindo!

Este espaço foi criado para armazenar e divulgar relatos de atividades espeleológicas assim como matérias e artigos envolvendo a documentação e preservação de cavernas no Brasil e exterior.

As atividades aqui descritas foram realizadas através de grupos organizados e entidades voltadas à espeleologia. Os textos são parte dos relatórios de viagem enviados com freqüência aos grupos e arquivados como documentação histórica.

Além do objetivo documental, buscamos também entreter o leitor e através de uma linguagem simples, transmitir um pouco das sensações existentes no mundo subterrâneo. Muitos mapas estão postados, mas apenas para fins ilustrativos. Para ter acesso aos mapas em alta resolução ou informações mais detalhadas entre em contato com os autores ou com a mapoteca da Redespeleo Brasil. Deixamos claro que nosso objetivo não é promover o turismo ou visita descabida às cavernas e sim apenas relatar nossas atividades preservando muitas vezes, a localização das cavidades.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

O "Lado B" da espeleologia...

Texto: Daniel Menin
Fotos: Augusto Auler, Daniel Menin, Leda Zogbi
Mapas: Leda Zogbi

Alta concentração de Guano (fezes de morcego), superpopulação de insetos (baratas, aranhas, amblipígeos entre outros bixos das profundezas), poluição (lixo e esgoto), ossos, animais em decomposição, fungos e gases fedorentos ou tudo isso junto disputando espaço em uma área confinada...  Estes lugares existem, estão embaixo da terra e, se você é um espeleólogo fuçador, com certeza vai se deparar com uma caverna desse tipo mais cedo ou mais tarde.
Algumas cavernas apresentam áreas simplesmente inimagináveis para pessoas comuns. Transpor estas áreas, explorá-las e estudá-las acaba se transformando em uma tarefa extremamente árdua. Isto pois condutos estreitos, abatimento de blocos, escalada ou qualquer outro obstáculo que exiga nosso contato com a superfície ou permanência contínua em seu interior torna-se bem mais difícil que de costume.



Geralmente estas cavernas acabam ficando marginalizadas, muitas vezes faltam mapas e registros e esta desconsideração acaba facilitando à supressão definitiva ou degradação completa das grutas.
Mas nem tudo nestas cavernas é tão infernal como pareçe. Em alguns casos, a riquesa biológica pode gerar ótimos trabalhos científicos, um verdadeiro prato cheio para os biólogos. Em outros, podemos ter relevantes descobertas naturais sobre comportamento animal ou de nossos antepassados. É possível encontrarmos cemiterios de animais ou de pessoas de outras épocas alocados dentro de cavernas. Existem casos ainda onde temos a oportunidade de recuperar grutas em fase de degradação por lixo ou poluição. Por estes e tantos outros motivos, documentar esse tipo de caverna, levantando sua existência e alarmando os interessados pelo tema torna-se extremamente importante.
O objetivo deste texto é, não somente descrever algumas das grutas mais “nojentas” em que estivemos, mas principalmente levantar este ponto, alarmando, difundindo e principalmente colocando em pauta de discussão esse “lado B” da espeleologia. Em alguns casos, trata-se de denuncias sobre cavernas em plena fase de destruição. Em outros, apenas por carater de divulgação.


Toca do Inferno – Maranhão (Fatores orgânicos)


http://www.youtube.com/watch?v=Gwk_4616f1g




Localizada no interior do Maranhão, a Toca do inferno possui um amplo salão na entrada e alguns condutos mais estreitos até se fechar completamente sem possibilidades de continuação. Não se trata de calcário, mas sim uma gruta em quartzito. No seu interior, centenas de milhares de baratas cobrem o chão, disputando espaço sobre uma camada de fezes de morcegos, repleta de materia orgânica. Quando chegamos à caverna, logo fomos surpreendidos por um cavalo em seu interior. Uma enorme população de morcegos habita o interior da gruta o que também proporciona belos espetáculos de revoada. A caverna é um prato cheio para biólogos e está longe de intervenções humana. Para acessá-la deve-se buscar um guia local e caminhar por algumas horas um uma área bastante selvagem. Vale muito a visita e mais ainda a pesquisa. Na imagem abaixo o nosso guia, um mateiro local que havíamos conhecido minutos antes em um bar, faz pose de foto para mostrar sua coragem frente às baratas e "perigos da gruta".




Furna do Pau-Ferro, Paripiranga, BA (Fatores orgânicos)
Eis um verdadeiro inferno subterrâneo. Imagine um chão repleto de ossos recentes de animais de todos os tamanhos. Imagine fezes de morcego por todos os lados, imagine enormes populações de insetos. Acrescente a isso uma elevadíssima temperatura e um forte odor de materia orgânica em decomposição. Essa é a Furna Pau-Ferro que se encontra no município de Paripiranga no estado da Bahia, em pleo sertão escaldante. Vale muito a visita pela riqueza da experiência, mas prepare seu estômago. Por algum motivo, dezenas de ossadas acumulam-se dentro da caverna. Provavelmente por animais que entram e não conseguem mais sair, por algum ritual de cemitério, ou mesmo por terem sido levados por predadores. Sua entrada é pequena, o espaço confinado e a temperatura nem merece comentários. Mais uma pérola a ser preservada e estudada por biólogos.






Poço sopro de Ubajara, Ceará. (Fatores orgânicos)
Estávamos em busca de um buraco, descrito de passagem em um livro antigo de historias da região. Segundo o relato, em certa época fazendeiros estavam cavando um poço para encontrar água quando encontraram um vão-livre subterrâneo. Desistiram do poço, mas deixaram o buraco aberto, de onde soprava um vento que viria da gruta de Ubajara, gruta grande em calcário a mais de 30km de distância. Procuramos pela fazenda e encontramos um senhor, agricultor local, que conhecia esse poço e nos levou até o local. Sim, o poço não muito fundo dava acesso a pequena sala de teto-baixo. Na verdade uma canga no próprio filito, sem nenhum calcareo exposto. De uma das laterais da salinha saía um conduto, de teto mais baixo ainda que parecia acessar outra sala, de onde vinha um barulho ensurdecedor de morcegos.  Teríamos explorado melhor alguma suposta continuação se esta não fosse completamente entupida de baratas e um odor simplemente insuportável. Não havia espaço para mais de uma pessoa na sala então nos alternávamos um a um.  Estávamos em 5 pessoas e todos desceram para testar a resistência e se certificar que deixaríamos para o futuro qualquer tentativa de exploração. Para descer usamos uma escadinha de aço e é claro que na vez da Leda, retiramos a escadinha a deixando por alguns segundos pagando penitência junto às baratas e morcegos e implorando pela escada.




Absimo Toca dos Porcos, Itaoca, Petar, SP (Poluição)
Descrevemos os trabalhos de mapeamento deste abismo neste mesmo Blog (Abismo TDP). Este é um típico caso onde moradores locais, por desconhecimento, poluem a caverna nas suas próprias atividades de dia-a-dia. Um pequeno córrego passa próximo à casa e entra para a caverna. Neste corrego são dispensados diversos materiais inutilizados da casa. Agrava-se a isso a criação de porcos bem próximo à entrada da gruta além do acumulo de lixo. Toda chuva carrega o lixo e a sugeira dos porcos para dentro da caverna. A gruta é gande e belíssima, mas o cheiro e a água poluída causam bastante desconforto em algumas partes da caverna. Durante os trabalhos de mapeamento  retiramos vários sacos de lixo da caverna e orientamos os moradores locais, mas um trabalho mais profundo de conscientização faz-se necessário e em carater de urgência.

Caverna A, Paripiranga, Bahia (Poluição)
Uma fenda em calcário que até apresentaria possibilidades de continuação se não estivesse completamente obstruída por lixo. Um verdadeiro depósito da população e (segundo moradores) da própria prefeitura. Tentamos entrar e explorar a caverna, mas foi impossível transpor os obstáculos. Na ocasião, fizemos uma denúncia aos órgaos competentes, mas não obtivemos mais respostas. Faz-se hoje necessário um acompanhamento de como evoluiu nossa denúncia assim como um trabalho de remoção do lixo e conscientização da população.



Caverna B, Paripiranga, Bahia (Poluição)
Uma estreita entrada nos leva até um pequeno lago subterrâneo. Mais um inferno, com animais mortos, muito lixo e uma água completamente poluída. Vários moradores acompanharam nosso trabalho confirmando que, com frequencia, jogam ali “tudo o que não presta mais”. Tentamos conscientizar a população da importância das águas subterrâneas para a saúde de todos. Que o lixo jogado alí poluiria também os poços de onde a população retira a água para beber. Paripiranga trata-se de uma região cárstica com muitas dolinas e pequenas entradas misturadas à ocupação humana em áreas semi-urbanas. É de extrema importância um trabalho imediato para proteger e preservar essas cavernas a curto, médio e longo prazo.


Toca da Raínha, Felipe Guerra, RN (Falta de oxigênio)

Com uma pequena entrada a Toca da Raínha seria uma caverna bastante parecida com as outras cavidades localizadas nos lagedos da região, não fosse seu calor insuportável e falta de oxigênio. Por estes 2 motivos é que seu trabalho de mapeamento e exploração continuam pendentes. Da última vez em que estivemos na caverna, o plano era averiguar a possível continuação em um abismo no fundo da mesma. Fui até a beira da descida, fiz uma segurança extra e desescalei parte da descida, mas tive que voltar pois não conseguia mais respirar. Estavamos em 3 pessoas (eu, Renata e Jocy) e todos resolveram abortar a missão e sair da caverna o mais rápido possível. Parecia estarmos disputando oxigênio com respirações cada vez mais ofegantes e difíceis.



Toca da Boa Vista (destaque biológico)

A Toca da Boa Vista, apenas pelo seu tamanho e morfologia já dispensa qualquer argumento de importância. Sua temperatura interior, no início muito quente, torna-se perfeitamente tolerável com o costume. O que me chamou a atenção foi que durante os trabalhos em um setor específico da caverna nos deparamos com condutos repletos de escorpiões. Estávamos a centenas de metros das entradas conhecidas, nosso objetivo era averiguar continuações e mapeas áreas em aberto no mapa em uma região ao norte da gruta. Ao chegarmos nessas áreas, descemos um desmoronamento e já entre os blocos encontramos muitos escorpiões amarelos. Na medida em que descíamos a quantidade de escorpiões aumentava. No fundo do desmoronamento acessava-se condutos de teto-baixo ainda mais cheios de escorpiões. Diante da instabilidade do local e da quantidade de escorpiões, resolvemos desistir do mapeamento, voltando sem terminar a empreitada.


Caverna do Urubu, Vale do Apodi, Felipe Guerra, RN (aspecto orgânico)

Um largo conduto nos leva até uma grande sala onde está abrigada uma gigantesca população de morcegos. Vale a visita e a experiência de sentir revoada dos milhares de morcegos passando entre as pessoas. No interior do salão, todo um bioma está organizado utilizando os morcegos como fonte de alimentação. Cuidado com os carrapatos de morcego!



Caverna Paraíso, Pará (aspecto biológico)

A Caverna Paraíso desde sua entrada já demonstra todo seu potencial biológico. Muitos insetos cavernícolas e em grandes populações habitam seu interior. Algumas áreas, em especial um setor após um quebra-corpo no extremo norte são repletos de morcegos e concentração de guano, além de abrigar enormes amblipígeos.


As cavernas acima foram listadas e descritas sem muito esforço de lembrança. Com certeza foram as experiências deste tipo que mais me marcaram nas jornadas dos últimos anos. Com um pouco mais de esforço e pesquisa certamente podemos levantar muitos outros exemplos. Um levantamento mais detalhado seguido de pesquisas científicas mais profundas poderia ser útil a toda comunidade espeleologica.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Bahia Express - relato.2, mais duas belas cavernas

Texto Daniel Menin
Fotos: Daniel Menin e Leda Zogbi
Mapa: Leda Zogbi

Na mesma viagem express à Bahia já descrita aqui no site, mapeamos mais 2 cavernas relevantes além da descrita no relatório anterior. Ambas estas cavernas consideravelmente importantes e bastante diferentes entre si.
Como tínhamos 4 dias de viagem e terminamos os trabalhos na primeira caverna já no segundo dia, ainda nos sobravam 2 dias inteiros para averiguar outras áreas ali próximo e, se possível, já irmos tomando o rumo de Salvador. Sendo assim, no terceiro dia fomos acompanhados de nosso guia até uma fazenda não muito distante onde tínhamos pistas da existência de cavernas.
Pergunta daqui, entra em estradas de terra ali, pergunta novamente, mais alguns kms de terra e não foi difícil encontrar a fazenda. Logo próximo à entrada, moradores locais trabalhavam em uma roça. Com um pouco de conversa conseguimos que alguns deles nos levassem até uma suposta entrada de gruta, na encosta de um morro não muito longe. O problema foi que para acessar a entrada da caverna, tínhamos que atravessar uma densa floresta de cizal. Para quem não conhece, o cizal compreende a arbustos de compridas folhas com afiadíssimos espinhos na ponta de cada folha. Isso sim foi bem mais difícil do que esperávamos.


As folhas saem de um núcleo da planta, próximo ao chão e se prolongam até a altura da cintura. Os espinhos apontam para todos os lados fechando qualquer possibilidade de caminhamento. Com facão e foice na mão fizemos várias tentativas de trilhas sem muito conseguir avançar. Em cada tentativa acumulávamos doloridos furos nos braços e pernas. Simplesmente desesperador ver o morrote tão perto (uns 50m adiante) e com acesso tão complicado.

Estávamos quase desistindo quando um dos moradores que nos acompanhava nos informou ter encontrado um caminho mais próximo em uma lateral da floresta de cizal. Seguimos por este caminho até conseguirmos chegar a poucos metros do morro. Bastou mais alguns minutos abrindo a trilha em meio aos espinhos e conseguimos chegar a uma grande entrada de caverna. Uma íngreme descida acessa um enorme salão, morro adentro. Descemos em silêncio, para não irritar uma imensa colméia no teto da caverna, próximo à entrada. O barulho das abelhas era assustador. Dentro da gruta, nenhuma pegada nos dava a sugestão de pouca visitação até o momento.

No fundo do salão uma enorme montanha de travertino, em forma de bolo de noiva, estava cortada ao meio pelo afundamento da metade da formação. Um corte transversal expondo centenas de camadas em uma excelente representação didatica da geologia e idade do espeleotema.


Um estreito caminho entre blocos, por baixo da formação sugeriria continuação, porém encontra-se totalmente fechada sedimentos.


Trata-se esta caverna um belo exemplo de gruta de fácil acesso, mas com pouquíssima intervenção humana. Faz-se extremamente necessário aplicar medidas de proteção em seu interior e entorno para evitar depredação e poluição da caverna por desconhecimento e desinformação por parte da população, em especial, fiéis religiosos.


No mesmo dia, ainda fomos a uma outra caverna alí próximo. Segundo os moradores, tratava-se de um buracão no chão, onde até então ninguém havia descido por medo e insegurança.

Logo ao chegar fiz uma rápida ancoragem natural em umas grandes raízes infiltradas na rocha e fui sozinho até o fundo da gruta.


Caminhei por alguns metros até acessar um salão maior de onde saiam 2 condutos paralelos. Caminhei mais um pouco, o suficiente para avaliar a necessidade do mapeamento e estimar o tempo de uma topografia.

Nem foi preciso andar por toda a caverna. Voltei com a notícia de que a mesma prometia um belo mapa e resolvemos iniciar os trabalhos naquele mesmo dia. Puxamos um pouco as atividades ficando até mais tarde dentro da caverna, mas valeu muito a pena. Saimos com o mapa pronto e belas fotografias.

Em um dos condutos encontramos estranhos objetos depositados acumuladamente no solo. Espécies de escamas, brancas, grandes, compactas. Não conseguimos identificar de que animal se tratava, ou se tinha realmente alguma origem biológica.

Na dúvida, cansados e com pouco tempo, deixamos exatamente da maneira em que encontramos e seguimos rumo para fora da caverna.

No momento da saída, ao desescalar a ancoragem de fora da gruta fui surpreendido, a poucos centímetros de meu rosto uma enorme aranha caranguejeira. A maior que eu já havia encontrado. Um verdadeiro presente após 3 dias de muito mapeamento. Pedimos licensa e desculpas pela invasão e ela respondeu com certo ar de desconfiança, mas não fugiu. Então todos saíram da caverna a deixando em paz para prosseguir sua jornada, ou melhor, noitada!


E as surpresas continuam no RN... continuam... continuam..

Texto: Daniel Menin
Fotos: Daniel Menin, Leda Zogbi Walter Cortez

A expectativa para esta viagem era enorme. O amplo conduto deixado em aberto em uma das viagens anteriores e o insucesso da última investida faziam deste final de semana especial. A época de chuvas havia passado e o nível da água no sifão já estava baixo, o que foi confirmado pelo próprio CECAV em uma averiguação prévia. As abelhas que nos atrapalharam nas outras viagens também já não eram um problema pois haviam sido retiradas por moradores locais. Sem estas barreiras, certamente desvendaríamos a tão esperada continuação da caverna.

Os preparativos ocorreram milimetricamente como planejávamos. Ou quase. A Leda chegou cedo em Fortaleza na Sexta-feira, e cedo também tomamos nosso rumo à Mossoró. Apesar da péssima condição da estrada chegamos cedo em em nosso destino (antes das 22hs) e resolvemos seguir direto para Felipe Guerra onde dormiríamos na pousada de sempre. Dormiríamos...

Acontece que a pousada estava lotada por conta de festividades locais. Paradoxalmente por sorte, havíamos errado o caminho e por conta disso realizado uma grande volta por uma estrada mais longa, mas passando em frente a uma pousada bacana. A pousada ficava cerca de 20km de Felipe Guerra, no sentido contrário do caminho correto... Voltamos e nos instalamos nesta segunda opção.

Dia seguinte encontramos com nossos companheiros do CECAV e seguirmos direto para a caverna. Mais uma vez, bem intensionados, tentamos encontrar pontos para spits e mais uma vez resolvemos descer com ancoragens naturais. Os cuidados para posicionar o nó da descida mais alto que das outras vezes e uma barriga na corda na ancoragem ajudaram a entrada e saida do abismo serem menos penosos.

A descida foi rápida. É verdade que todos estavam mais treinados do que das outras vezes. Uma vez no conduto principal, nos desequipamos e seguimos entusiasmados para as continuações. Em menos de 1 hora chegamos no ponto final da topo anterior. Tinhamos a nossa frente realmente um belo file em se tratando de caverna. Visadas de 20, 30, 35m. Nenhuma pegada. Melhor que isso somente se a temperatura da caverna fosse mais amena. Acontece que o calor interno é fortíssimo (em média 32graus) além de muito humido e sem nenhum sinal de circulação de ar. Tinhamos que nos mover com calma e beber muita água para repor o que perdíamos.


Em poucos minutos já estávamos enxarcados e exaustos. As gotas de suor misturadas com terra pingavam na folha de croquis gerando uma irritante lama em cima do desenho.

E assim topografamos o dia todo cerca de 450m de belos condutos. Algumas tiradas retas, algumas leves curvas e áreas bem ornamentadas. Destaque para alguns setores repletos de ossos bem calcificados e alguns bem grandes, possivelmente de megafauna.


Mas não foi neste dia que chegaríamos no final da caverna. Resolvemos parar a alguns metros de uma curva. Caminhei até a curva apenas para confirmar a continuidade da caverna naquele mesmo padrão e deixamos para prosseguir a topo no dia seguinte. Nos acompanhou à essa empretada o Walter, companheiro de Vôo livre e muiti-atleta, com boas noções de vertical e iniciando-se na espeleologia.

No dia seguinte nossa equipe estava mais reduzida. O próprio Walter, com a empolgação de sua primeira caverna, acabou sobrecarregando seus joelhos em passagens apertadas no dia anterior o que os fez amanhecer inchados... melhor não arriscar.

Como haviamos deixado a caverna equipada, nossa descida no Domingo foi ainda mais rápida. Em pouco tempo estávamos nos limites do dia anterior e dando prosseguimento à topografia. A caverna continuava sem nenhuma dificuldade ou obstáculo. Mais visadas enormes intercalando partes ornamentadas e verdadeiros condutos de metrô.


Após cerca de 300m a caverna começa a mudar sua morfologia. Os condutos ficam mais volumosos, com grandes blocos no solo e teto bem mais alto. Em um determinado ponto encontramos uma piscina, ou melhor, uma pequena poça d’agua, o suficiente para molharmos nossas mãos e levar um pouco de água ao rosto e à cabeça. Um grande alivio diante daquele calor insuportável. E continua…


Topografamos até um ponto onde seria preciso escalar grandes blocos para prosseguir. Resolvemos fixar uma base e pararmos a topo neste ponto. Além dos blocos, não se via uma continuação óbvia, parecia estarmos próximos ao fim. Resolvi atravessar o desmoronamento e averiguar se a gruta terminaria ali ou se haveria novamente alguma continuação. Após os blocos a caverna fazia mais uma curva à esqueda. Ao chegar na curva iluminei o conduto com a força máxima da lanterna e o que vi à frente foi novamente o vazio inexplorado. Amplos condutos ainda nos aguardam à frente. Neste segundo dia havíamos topografado 490m somando quase 1000m em todo final de semana. Praticamente dobramos o tamanho da caverna o que estava muito além de nossas expectativas.

Georeferenciando o mapa em imagem de satélite observamos que não estamos muito longe do rio Apodi.

O que nos aguarda da próxima vez? Uma saída próxima ao rio Apodi? Acho improvavel visto o calor e a falta de circulação de ar... Uma passagem subersa (sifão) uindo a caverna ao rio poderia ser uma boa especulação. Para saber ao certo teremos que aguardar e nos preparar para a próxima investida.

A única certeza que temos hoje é de que inicia-se aqui uma nova fase de trabalhos nesta caverna: o vertical de sua entrada, o calor intenso em seu interior, o tempo de deslocamento até o ponto de trabalho entre outros importantes fatores representam riscos a mais e exigem toda uma logística de equipemantos e planejamento da expedição. Além desse planejamento, os espeleologos envolvidos deverão ter uma preparação física e principalmete psicológica para encarar a encrenca. Nada mais natural quando se trata da mais pura espeleologia!

Até as próximas!

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Bahia Express - relato.1

Abril de 2009
Texto Daniel Menin / Fotos: Daniel Menin e Leda Zogbi / Mapa: Leda Zogbi

Tinhamos apenas 4 dias de viagem. Uma passagem de ida e volta à Salvador e 1 carro alugado. Nosso objetivo principal era sair de Salvador e ir até esta pequena cidade mapear a caverna visitada pela Leda há alguns meses anteriores. Não foi difícil nos convencer da viagem, bastou a Leda enviar a fotografia de um abismo no final de um conduto acompanhado de alguns comentários: “não pude ver direito mas parece que continua bastante... segundo os moradores locais ninguém ainda desceu...” pronto. Logo depois deste e-mail já estávamos marcando a data da viagem.
Tratava-se de um feriado na Quinta-feria, com ponte na Sexta. Chegamos em Salvador Quarta de noite. Nossa agenda estava corrida e com horários bem apertados, mas tivemos agilidade e na quinta mesmo já conseguimos ir até a caverna. Como muitas outras cavernas no Brasil, a gruta tem um apelo regional à religiosidade e sofre bastante as consequências da desinformação somada à fé humana. Uma bela entrada dá acesso a um grande salão onde foi construido um altar que estava repleto de oferendas. Velas, pedaços de roupa, retratos, dezenas de crucifixos, pernas postiças e muitos outros apetrechos se misturam à garrafas pet, latas, sacos plasticos e muito lixo. Difícil de separar o que ainda tem valor religioso do que foi efetivamente deixado como lixo dentro da pobre gruta.




Quanto mais adentramos à caverna menores são as consequências da visitação humana. Ainda bem! Mais adiante e após uma passagem lateral encontramos uma terceira sala, esta paralela à segunda e morfologicamente bastante similar. Teríamos que atravessá-la por um caminho lateral, margeando a sala pela parede a meia altura até chegar em um outro conduto que nos levaria até o abismo fotografado pela Leda na viagem anterior.
Estávamos acompanhados de um guia local e do prefeito da cidade. Além de nos acolher, o prefeito fez questão de nos acompanhar pessoalmente até o fundo da caverna para desvendar os misterios da gruta e daquele abismo.
Mas não seria neste dia que desceríamos o abismo. A ideia era somente avaliar a descida e voltar com a quantidade certa de equipamentos no dia seguinte. Aproveitamos então para iniciar a topografia voltando do abismo para a entrada da caverna.
No dia seguinte resolvemos iniciar a atividade descendo o menor abismo (próximo à entrada) antes de seguir para o abismo final. Corda ancorada naturalmente em uma grante estalagmitie e desci na frente sem problemas nenhum.

Havia bastante lixo na parte mais profunda da descida. É bem verdade que a caverna havia sido toda limpa para nossa chegada. Esta preparação foi feita pelo nosso guia assim que soube de nossa visita. Apesar dele ter feito um excelente trabalho no salão principal da gruta seria impossível de limpar também o lixo caido abismo abaixo. Vale lembrar também que quando estava limpando a caverna nosso guia foi surpreendido por alguns homens com foices e facões que, de forma não muito amigável, o convidaram a parar o trabalho e sair da caverna. Eles consideravam o ato de retirar o lixo da caverna um desrespeito aos fiéis.
Uma vez lá embaixo fui dar uma olhada na continuação da caverna enquanto o restante da equipa aguardava lá encima. Caminhei um pouco e tive a impressão de chegar na parte inferior do maior abismo, aquele no fundo da gruta que desceríamos depois. Seria ótimo pois evitaríamos este trabalho posteriormente. A Leda tbém desceu e juntos topografamos a parte inferior colocando uma base fixa bem visível para tentar uma ligação com o setor superior sem a necessidade de descer o maior abismo. E assim foi feito!
Foram 1 dia e meio trabalho na caverna para terminarmois a topografia e verificar todas as possibilidades de novas continuações. Um belo trabalho com direito também a belas fotografias e recomendações de preservação da caverna para o prefeito. Não é possível segurar de uma só vez toda a população religiosa, mas é sim possível minimizar os impactos desta visitação em massa adotando algumas simples ações como a colocação de latões de lixo no salão religioso e algumas placas de retenção do caminhamento interno na caverna.

Fora da caverna, alguns metros acima existe uma outra entrada que da acesso a uma caverninha vizinha. Também topografamos a gruta buscando possíveis conexões, mas confirmamos que se trata de uma cavidade independente encerrando nossas atividades nesta gruta em 2 dias de atividade.

Este foi mais um trabalho na Bahia. Faltando ainda 2 dias para o final do feriado aproveitamos um dia inteiro para topografamos mais 2 grutas na região. Ambas muito diferentes uma da outra, a primeira delas um enorme salão escondido no meio de uma plantação de cizal e uma segunda a qual acessamos através de um pequeno abismo, mas estas são histórias para outras postagens.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Passagem submersa, abelhas, falta de oxigênio...

Texto Daniel Menin - Mapa Leda Zogbi

No final de semana de 07 e 08/03 realizamos como combinado mais uma viagem ao RN para continuar os trabalhos de mapeamento em parceria com o CECAV.

Estávamos muito entusiasmados com as descobertas da última viagem e com a suposta ampla continuidade ainda inexplorada. Já fui me preparando psicologicamente durante toda a semana. Arrumei minha mochila com equipamentos, alimentos e iluminação extra pensando em uma incursão mais longa dentro da caverna.

No Sábado acordamos cedo e rumamos diretamente para entrada da caverna. Tudo indicava que seria uma grande exploração. Devido à umas abelhas na entrada do abismo decidimos usar os mesmos pontos de ancoragem como das outras vezes ao invés de batermos spits em outro ponto conforme planejado. A entrada da caverna é daquelas bem chatinhas. Literalmente um buraco no chão, passagem estreita sem nenhum apoio aos pés. O ponto de fixação da corda baixo faz com que o espeleólogo fique em posições difíceis ao entrar na cavidade. Se entrar já é chato muito mais irritante é sair. Pendurado a uma altura de cerca de 20m o espeleólogo tem que se espremer enquanto eleva-se na corda e projeta seu corpo para fora da caverna.

Tivemos que descer em silêncio pois o barulho das abelhas indicava forte atividade bem pertinho da entrada. A surpresa maior foi quando nos penduramos na corda, já na parte de dentro da caverna e demos de cara com elas construindo uma colméia, logo nos primeiros metros da descida. Neste momento, suspenso a 20m do fundo e após ter passado a sofrível entrada o caminho para baixo, apesar de mais longo, é claramente o mais rápido e seguro em caso de qualquer urgência…

Descemos rapidamente seguimos direto para o sifão da caverna. A esperança era de que ele, apesar das chuvas de alguns dias anteriores, estivesse seco o suficiente para possibilitar nossa passagem. Doce ilusão, o sifão estava cheio e a passagem submersa.

Forçamos um pouco, entrei na água algumas vezes. Mergulhei apalpando o fundo e o teto e…. nada!. Mergulhei de novo e fui sifão adentro agora de ré e… nada. Nem sinal de encontrar o outro lado. A água, já bastante turva não facilitava o trabalho. Era apenas uma pequena passagem, com teto baixo e dentro da água, mas arriscado demais para forcar uma passagem novamente mergulhando. Tentamos baixar o nível de água com as mochilas estanques, mas sem nenhum sucesso perceptível. Após cerca de 40 minutos “secando” a passagem observamos que nosso esforço era em vão. Resolvemos desistir e voltar no dia seguinte.

Deixamos o abismo equipado para o dia seguinte, mas desta vez não foi o sifão que impediu nossa entrada, mas sim as abelhas que estavam bem mais ativas. Fiquei alguns minutos próximo ao ponto de descida, na entrada da caverna para ver como elas reagiam na nossa presença e elas começaram a ficar mais agitadas, como se avisassem que desta vez seriam menos tolerantes… resolvemos não arriscar.

Ainda no Domingo tentamos iniciar o mapa de outra caverna na mesma região. A gruta da Raínha é conhecida pela sua beleza, mas também pelo sufocante calor em seu interior. Nosso plano era tentar descer um abismo no final da caverna e topografar do abismo para a entrada.

Mais uma vez nosso trabalho foi bloqueado e desta vez o oxigênio foi a barreira encontrada. Além de extremamente quente, quanto mais se avança caverna adentro mais difícil fica a respiração. Próximo ao abismo fica bastante perigoso arriscar uma descida em corda sem algum equipamento para auxiliar a respiração. Independente dos esforços físicos, estávamos sem ar, disputando oxigênio como se acabássemos de correr 100m rasos!

Mais uma vez resolvemos não arriscar. Passagem submersa, abelhas, falta de oxigênio... muitos eventos para um só final de semana. Melhor dividir estas barreiras em várias outras viagens futuras.

Este trabalho só está sendo possível devido à parceria entre o CECAV/RN e espeleólogos de diversos grupos do Brasil unidos através da lista Meandros.

Até as próximas!


sexta-feira, 6 de março de 2009

Descobertas e surpresas no RN

Por Leda Zogbi
Fotos Daniel Menin e Leda Zogbi

Para chegar na caverna, só mesmo com trilha no GPS, porque a estradinha tem diversas bifurcações, e seria difícil se localizar. O carro fica a uns 30 m do buraco, então nos equipamos no carro mesmo e rumamos para a entrada do abismo, que fica numa dolina, mato por todo lado. Não é um lagedo aberto como boa parte das cavernas que fomos anteriormente no RN.
O Daniel resolveu usar uma árvore que tinha perto da entrada do abismo para ancorar, e mais um pedaço da rocha bem na boca. Desceu primeiro. Aos poucos fomos descendo todos menos o Iatagan e o Darcy que iam ficar prospectando outras cavernas na região e cuidando da corda também (eles estavam com medo de alguém levar a corda, ia ser mesmo dureza...). O abismo tem 18 m de altura e é bem ornamentado: você desce no meio dos escorrimentos, bem bonito.

Esse abismo de entrada chega bem no meio do conduto principal da caverna, que segue para os dois lados. Resolvemos fazer duas equipes, cada uma avançando para um lado diferente da caverna. Deixamos água e comida na entrada, pois havíamos a impressão de que o nosso lado da caverna seria curto, o plano era mapear esta parte e voltar para ajudar a outra equipe no conduto "principal" da caverna.

Fomos evoluindo em um conduto único, com uns 4/5m de largura, e chão de areia. Um bom trecho era teto baixo, tipo com 1/1,20m de altura. O conduto ia meandrando em curvas suaves, e havia diversas cúpulas com escorrimentos no teto, um alívio, porque dava para ficar em pé por alguns instantes antes de continuar a topo. Atingimos depois de uns 150m um salão, onde encontramos uma enorme caranguejeira e alguns escorrimentos bem bonitos (sala da caranguejeira).
Mapeamos uns 350m, e chegamos num escorrimento alto que praticamente entupia a continuidade do conduto, restando apenas uma fresta de uns 30cm de altura por cima do escorrimento (na parte mais alta) , uns 2,20m acima do nível do chão. Escalamos pela parede oposta e colocamos a cara e a lanterna pelo buraco, e deu para ver que continuava bastante... Logo depois desse escorrimento à direita, achamos uma passagenzinha que dava acesso para uma sala meio ovalada, altíssima: medimos 27m de altura até o teto, também cheio de escorrimentos. Desligamos as lanternas para ver se tinha alguma luz externa, mas não deu para ver luz nenhuma entrando pelo teto. Nessa sala, havia muitos bichos: um amblipígeo gigantesco, uma rãzinha... Chamamos a sala de "cúpula dos Bichos" .
Como a hora já estava adiantada e não tinhamos bebido e nem comido nada, amarramos uma base fixa na entrada do escorrimento e voltamos até o abismo de entrada. Foi gozado, porque a outra equipe estava chegando exatamente na mesma hora. E o mais incrível: achamos amarrado em uma corda uma geladeirinha de isopor com duas cocas litro!!!! Parecia miragem, mas eram os colegas Iatagan e Darcy que tinham feito essa boa ação para nós... A equipe do Daniel contou que tinha mapeado um salão muito ornamentado, e depois havia uma bifurcação. Pegaram à direita e foram até um ponto muito apertado, onde após algumas dezenas de metros rastejando, o conduto parecia ter pouco oxigênio. Deixaram parte do mapa em aberto e voltaram.
Da bifurcação ficou faltando verificar o lado esquerdo.

Já eram umas 3h30, e ficamos na dúvida entre voltar para continuar a topo ou sair. A maioria acabou resolvendo sair e deixar a continuação para o dia seguinte. O apelo da cerveja estava "alto", vocês não imaginam o calor dentro da caverna... Voltamos para a pousada, e depois do banho ainda tive forças de lançar os dados no Compass para ver como estava ficando a caverna... Já tinhamos somado 638m de trena!
Dia seguinte, café da manhã na pousada e lá fomos nós para o buraco. Já estava todo mundo mais "safo" depois da experiência do dia anterior. Montamos de novo duas equipes: a primeira iriam checar o buraco que deixamos em cima do escorrimento, e a segunda (a minha) iria continuar o mapa do ramo esquerdo da bifurcação.
Chegamos logo no salão que eles haviam mapeado no dia anterior, e fui dar uma olhada. Tem realmente algumas flores de gipsita. Segundo os amigos do RN, isso é raríssimo por aqui. No dia anterior a equipe do Daniel havia encontrado também um dente, possivelmente de onça. Para chegar na dita cuja da bifurcação, é preciso passar por um sifãozinho, um teto baixo que enche de água.
Quando os meninos tinham passado na véspera, parece que o nível da água estava bem mais alto, mas meu santo é forte e o nível baixou bem. Passamos o sifão e entramos na bifurcação à esquerda, e daí começou a felicidade plena: um conduto, de areia e seixos, meandrando continuamente. Chegamos então numa sala redonda bem ornamentada, com um nível superior e logo depois mais condutos altos. Em umas 3h mapeamos 400m... Nossa água acabou (tínhamos levado uma garrafa de 1,5 l, mas foi pouco, pelo calor que faz lá dentro). Depois que toda equipe resolveu parar mesmo, ainda andei (na verdade corri) mais uns 100m, e a coisa continuava no mesmo padrão... Na volta, a passagem pelo sifãozinho cheio de água foi uma maravilha... O calor era tanto, que acho que até saiu fumaça quando entramos na água. Voltamos lá pelas 14h, e encontramos a Renata já na corda: eles também tinham acabado de chegar... Tinham mapeado mais 200m depois do escorrimento que havíamos deixado no dia anterior. Quase tudo no teto-baixo, mas condutos largos e bem formados.
No total, a topo chegou em 1225m de linha de trena.
A época das chuvas está começando, e a caverna deve ficar logo com boa parte inundada. Antes disto, uma nova expedição está sendo organizada onde uma equipe de topografia continuará o trabalho neste conduto que, até agora, não apresenta nenhum sinal de estar próximo ao fim…
Na saída, paramos de novo no boteco (lógico), que ninguém é de ferro. Depois de um último brinde, fomos tomar um banho rápido na pousada e tomamos o rumo de Mossoró…
Valeu mesmo pessoal!
Não sei se poderei estar presente já nesta próxima empreitada mas espero poder ir de novo mapear com a galera do RN!!.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Novamente no Rio Grande do Norte

Por Daniel Menin

Recentemente estivemos de vota ao estado do Rio Grande do Norte, buscando as cavernas do Oeste do estado. Existem algumas areas cársticas na região, na sua maioria exposta através de lagedos. Sem grandes desníveis, boa parte das cavidades presentes nestas áreas tem morfologia similar. Predominantemente razas e próximas da superfície, não apresentam grandes volumes ou desníveis.
Em algumas cavidades encontramos pequenos abismos sendo necessário sempre levar consigo alguns metros de corda e um devido material de segurança (não leia improviso!). Algumas cavernas são bastante labirínticas e podem se estender por centenas de metros em areas afóticas ou semi-afóticas devido à alta quantidade de clarabóias. Sempre encontramos rica fauna espeleológica entre diversas espécies aranhas, ambiplígeos (alguns bem grandes), grilos e outros animais de caverna.
Uma das cavernas a serem mapeadas nesta viagem se tratava de um pequeno abismo. Com 28m de desnível o Abismo da Água não havia nenhum resquício de vizita humana apesar de sabermos que espeleólogos do SEPARN (…) já haviam descido na cavidade. Trata-se de uma entrada apertada no lagedo que leva a um lance direto para um poço d’água, no fundo da caverna.

Pendulando no meio da descida, pode-se acessar paratames dos 2 lados encontrando pequenas areas horizontais, porem sem continuação. Descendo até o fundo do abismo, chega-se diretamente na parte inundada onde o nivel da água claramente varia de acordo com a época do ano.
Vale a descida, para aqueles que querem treinar seu vertical, porem, sempre com muito cuidado pois qualquer resgate pode se tornar bastante complicado, mesmo em uma caverna simples como esta. A caverna pode ainda apresentar algum potencial paleontológico visto sua morfologia de lance direto (pitfall), porem a busca de fósseis deverá ser feita através de mergulho pois os ossos certamente estarão submersos. Outra barreira é a espessura da entrada, clara barreira à queda de animais grandes da mega-fauna.
Durante toda a atividade tivemos a companhia e apoio de técnicos do CECAV.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Abismo TDP - Histórico do recente mapeamento

Por Marcos Silverio:

Na última saída paramos a exploração no início de um lance vertical. Havíamos levado
pouca corda pois, além de ser domingo, a caverna não prometia muito. Mas começamos a nos animar com o potencial da caverninha.
Desta vez voltamos com mais corda e disposição. Até o ponto em que paramos desc- emos sem qualquer dificuldade dois pequenos lances após uma caminhada rápida. O único problema é a água do rio que passa por uma casa e onde animados porcos passam seu tempo. O cheiro não é dos mais agradáveis.
Arrumamos um bom lugar para a ancoragem, longe do chuveiro e a Karen se candidatou a descer. Primeiro achamos que ela estava ama- relando :), mas a corda já estava no fim e não entendíamos nada do que ela gritava lá de baixo. Qualquer coisa que precisava de mais corda, que não via o fundo etc. O Luis desceu em seguida e se juntou a ela num pequeno patamar. O César foi o próximo e logo depois eu.
Todos empoleirados no minúsculo patamar na fenda, vertical nos primeiros 10m e depois uma rampa escorregadia até o patamar a 12m do fundo. Com mais 15m de corda para o último lance até o fundo. O Luis e a Karen desceram e confirmaram o que temíamos. Continua! Uma fenda no contato prometia não terminar tão cedo.
Eu e o Cesar voltamos até o carro para buscar mais corda, trocamos as duas cordas na fenda pela maior, para deixar um lance direto e logo estávamos juntos no fundo.
Havia mais uns 60m de corda em 3 pedaços, uma delas semi rompida na descida, provavelmente devido a um atrito por conta da rampa. Cortei a corda e equipamos até o início do lance seguinte.
O César fez as ancoragens e desceu, uma rampa inclinada até a beirada de um grande garrafão. A imagem era linda, mais de 20m abaixo, um salão largo e muito alto. Já era 16h e resolvemos iniciar a topografia deste ponto já que o abismo continuava além desse salão e novamente estávamos sem corda.
A subida foi lenta e aborrecida, a longa corda na rampa nos fazia parecer um io-io e o frio começava a pegar. Mas logo encontra- mos o pessoal da outra equipe do lado de fora, com 2 sacos cheios de lixo tirado da caverna e animados após visitar um outro abismo próximo.
Quem sabe o que a caverna vai aprontar conosco na próxima...
Equipe: César, Karen, Leandro, Leda, Luis, Marcos e Regiane.



Por Daniel Menin – 1 mês depois…

Ao ler os relatos e ver o croquis do Marcos (acima) eu, que já estava sofrendo graves efeitos colaterais por falta das cavernas do Ribeira (estou morando em Fortaleza!), resolvi de uma vez por todas gastar um pouco de milhagem e ir até SP, obviamente contribuir para os trabalhos nesta caverna.
A viagem foi bastante corrida. Chegamos na região no Sábado a noite e, com uma equipe pequena (Eu, o Marcos e a Renata) pretendíamos fazer uma incursão rápida no Domingo. A idéia era chegar ao fundo do abismo e voltar com o mapa completo. Partiríamos de uma base fixa deixada pela equipe anterior no final do percurso deles durante a última viagem (relato acima).
Já viajamos com as mochilas prontas e fizemos apenas uma revisão pela manhã, o que agilizou o processo. Cerca de 230m de corda, muitas fitas, batedor, proteções de corda, spits, mosquetões, chapeletas e alguns equipamentos de Tecnicas Leves. Água, comida, primeiro socorros e outros materiais menores. Tudo isto dividido em 4 mochilas, cheias até o talo!
O tempo estava ameno. Fresquinho, com uma garoa fina, mas nada que prejudicaria os trabalhos na caverna.

Entramos na gruta lá pelas 10hs da manhã. O Marcos foi na frente, encarregado pela equipagem. Fui logo atrás dando o apoio necessário e a Re por último. Queríamos fazer tudo relativamente rápido e voltar até umas 4hs da tarde para não ficar muito cansativa a volta à São Paulo.

Cerca de 2 hs depois chegamos à um salão à -82m de profundidade, distância máxima atingida na viagem anterior, por falta de corda. A partir deste ponto eu e o Marcos alteramos as posições. Passei a descer primeiro, equipando a caverna ao mesmo tempo em que fazia o trabalho de ponta de trena na topografia. O Marcos fazia as anotações e o croquis e a Renata a leitura dos equipamentos. A trena a laser facilita muito o trabalho de topografia vertical viabilizando a equipagem e mapeamento ao mesmo tempo, apesar da equipe reduzida. Após uma bela descida acessamos um amplo salão desmoronado. Um calmo e contínuo filete de água acompanhava o lance na lateral do salão, infiltrava-se nos blocos e seguia abismo abaixo por outra lateral.
Assim que cheguei no fundo do salão, encontrei uma base deixada pelo Cesar na topografia anterior. Uma estaca fixada na argila sobre um bloco bem no centro da sala. Mais adiante, uma desescalada entre blocos acessava mais uma descida livre. Fiz a segurança em um grande bloco e me debrucei para iluminar lá embaixo. Mesmo a luz forte da lanterna não foi o suficiente para ver o fundo do abismo. Enxergava-se cerca de 20m abaixo e, entre às laterais de rocha, blocos e umidade do ar, um negro vazio indicava uma promissora continuidade da caverna.
Batemos um spit para duplicar a ancoragem, fizemos um desvio para evitar contatos indesejados da corda com a rocha e seguimos descendo e topografando. A descida era tranquila, apenas escutávamos o barulho calmo da água descendo nas ranhuras da rocha na lateral esquerda do conduto. Descíamos com os pés na parede, levemente inclinada. Eu tinha ainda 2 cordas e esperava que as mesmas fossem suficientes para chegarmos a algum conduto ativo ou area horizontal da gruta. Como de costume, entrou em cena nosso anjo da guarda e os 2 lances verticais que se seguiram foram exatamente do mesmo comprimento das cordas que eu levava. Mesmo com alguns fracionamentos ao longo do caminho. No final das 2 descidas, as sobras de corda não foram nem de 1m a mais que a descida. Pura sorte que nos evitou ter de transpor emendas de corda em pleno ar o que costumamos xingar bastante.
No final da segunda corda, cheguei na base daquela que seria a última descida. Mais um amplo salão se abria a nossa frente, porém, agora as possibilidades de continuação já não eram tão claras. Enquanto a Renata e o Marcos topografavam dei uma rápida olhada buscando pontos de continuidade. Foi neste momento que escutei o Marcos, há cerca de 20m acima perguntar se o nível de água estava aumentando. Me virei olhando para o filete de água transparente que corria na lateral da parede e repondi: impressão sua! Mais alguns segundos e o barulho da água evidentemente começou a aumentar. Senti também uma corrente de ar mais forte, indício que algo se movimentava diferentemente de antes. Olhei para corda e na descida eu não via mais um filete de água como antes, mas uma respeitosa cachoeira com água barrenta e espumosa. Questão de segundos mesmo. A este ponto a topografia já havia sido interrompida e a Renata, assim como o Marcos, ambos molhados, desciam direto para o salão. Ali havia espaçosas áreas secas e lugares para nos abrigar caso a água aumentasse ainda mais. Para adiantar os trabalhos, resolvemos topografar o salão e as supostas continuações seguras. Até forçamos uma passagem seca, conduto lateral com alguns moradores morcegos, mas sem nenhuma continuação evidente. Toda a água que descia na caverna se infiltrava na rocha em 2 pontos, ambos desmoronamentos apertados. Diante da situação demos por encerradas as possibilidades de continuar a exploração e buscar continuidades.
Almoçamos e esperamos mais um tempo para analisar um pouco o comportamento da água. O nível parecia estável, bastante volumoso, mas sem aumentar. Tínhamos 2 opções: iniciar a subida enfrentando a água, o que tornaria a volta à superfície claramente mais penosa ou aguardar o nível baixar para então começar a subir. Cabe lembrar que não estávamos no verão, época de constantes e fortes chuvas. Nestes casos as inundações são frequentes e sempre estamos preparados. Já nesta época do ano fomos pegos de surpresa. Uma chuva constante e prolongada ou uma garoa continua por todo o dia poderia fazer o nível da água se manter alto por horas ou mesmo dias. Aguardamos mais um pouco e, como não observamos o mínimo sinal de diminuição do volume de água, optamos por enfrentar a aguaceira toda e iniciar a subida. Antes disso, fizemos a ligação da topografia interrompida, com a continuidade seca que havíamos feito momento atrás.
Logo nos primeiros metros de subida já estávamos encharcados. Qualquer esforço a se manter seco era completamente em vão.
A Re foi subindo na frente enquanto que eu e o Marco nos alternávamos na desequipagem da caverna. Difícil enxergar o caminho com tanta água caindo na cabeça. A cada lance eu escutava ela gritar “Liiiiivre!” indicando que a corda estava disponível para a subida do próximo. Quando seu grito tardava a vir ou quando era de alguma maneira desproporcional eu já sabia que a subida tinha sido “casca grossa”.
Os maiores lances eram posicionados nas laterais de salões largos e altos e podíamos contemplar a espetacular visão do espeleólogo subindo ao lado de volumosas cachoeiras. Difícil de descrever e mais difícil ainda de fotografar.
Alguns lances, antes secos e simples, se tornaram difíceis subidas com água caindo fortemente no meio do caminho. Muitas vezes a água ocupava quase toda a área em torno da corda e não havia opções de sair debaixo dos chuveiros gelados. Enquanto nos movimentávamos a temperatura era bastante suportável, mas se parávamos para esperar por alguém aí o frio tomava conta. As mochilas, já carregadas de equipamentos, ficaram ainda mais pesadas encharcadas e muitas vezes cheias d’água.
Foi preciso bastante energia para subir os constantes garrafões diante destas condições.
Apesar de toda dificuldade nos mantivemos bastante tranquilos, a caverna, por suas formações já muito belas se tornara ainda mais contemplativa diante do poder da água varrendo seu caminho nas entranhas da terra e mergulhando nas profundezas. Esta beleza, somada à esportividade da situação e domínio da técnica nos dava certo conforto possibilitando controle da situação e calma apesar das mudanças no ambiente e momentos delicados.
Entre todo o percurso, sem dúvida umas das passagens mais difíceis foi a subida do rampão, pois a água vinha com bastante violência dificultando fixarmos nossos pés na parede e nos manter bem posicionados. O penúltimo lance da caverna, apesar de curto também foi penoso. Além da subida estar contra a força da cachoeira, já estávamos cansados. Ambos os pontos poderiam ter sido mais fáceis caso tivéssemos nos atentado a fazer uma equipagem evitando o caminho da água. Fica como aprendizado para futuras idas à essa caverna.
Chegamos ao exterior às 19hs e a chuva tinha parado. Segundo o morador local, choveu bastante forte e durante boa parte do dia. Atípico para a época. Logo ao chegar na pousada soubemos que nossos amigos já haviam ligado e demonstrado preocupação.
Fica este relato, como aprendizado de cautela e antecipação. A Caverna, apesar de aparentemente fácil pode se tornar um pesadelo em épocas de chuva e com uma equipe mais numerosa ou lenta. Pequenos problemas podem se tornar relevantes agravantes em cadeia.
Nos dias que se seguiram convivi com uma incômoda dor de cabeça, típica de dias de ressaca. Lembrando dos detalhes da atividade acho que posso identificar a causa deste incômodo: desidratação!

Mapa: Leda Zogbi
Fotos do Mapa: Regiane Velozo, Luiz Rocha e Leda Zogbi.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Ducano - Construção de equipamento para vencer lances verticais (1999)

Por: Dennys Corbo e Marcos Otavio Silverio
Escrito em junho de 1999.

Há anos pensávamos numa maneira de subir por aquele buraco no teto. Havia um grande escorrimento à margem do rio por onde podíamos subir e diminuir em mais de 2 metros os quase 6 metros totais a serem vencidos, mas a nova posição apenas servia para que percebessemos a continuação do conduto, localizado sobre o rio. Laçar alguma coisa ou escalar era impossível. Na ansiedade pensamos então em arrastar um tronco desde a parte externa da caverna para subir por ele. A idéia até que era boa mas evidentemente ela precisava ser melhorada.

Então nós e o Chico, que nos ajudou com idéias, solda e marreta, resolvemos fabricar um equipamento, com um cano mesmo, para subir. Ele precisava ser resistente e leve o bastante para podermos carregar e subir por ele. Depois de analisarmos as possibilidades em alguns depósitos de ferro-velho, compramos 2 canos galvanizados, do tipo utilizado em sustentação de placas de sinalização de ruas, com 3 metros cada e com roscas nas extremidades para uní-los.

Entretanto tínhamos de descobrir uma forma melhor para unir os canos pois uma batida na superfície de uma pedra danificaria a rosca irreversivelmente. Além disto a rosca fragiliza o tubo interno, que fica com parede menos espessa. A fragilidade fica quase que completamente corrigida quando se rosqueia a luva para emendar os tubos, mas os ˙últimos fios de rosca ficariam à mostra.

Foi então que decidimos utilizar um tubo com cerca de 40 cm, cujo diâmetro interno fosse ligeiramente maior que o diâmetro externo dos tubos a serem juntados. A junção seria feita com o auxílio de dois furos ortogonais (figura 1) e dois parafusos de aço 8,8 comuns na indústria automobilística. Este é o mesmo aço utilizado para a fixação de plaquetas em ancoragens.

Agora sim tínhamos a ”emenda perfeita”. Cortamos os tubos de 3 metros ao meio para que ficassem mais fáceis de serem carregados tanto na trilha (um por mochila) quanto nos condutos estreitos da parte interna da caverna. Furamos os tubos no arranjo desejado (um tubo dentro do outro) para garantirmos que os furos coincidissem e “voilá”. Tínhamos nas mãos 4 pedaços de 1,5 metros de cano que poderiam ser emendados fornecendo uma estrutura rígida com 6 metros de comprimento.

Para segurar cada pedaço do cano fizemos 2 furos próximos e passamos um pedaço de aço dobrado em "U", que foi soldado como alças conforme ilustra a figura 2. Estas alças seriam úteis para amarração na mochila e também dentro da caverna, evitando que a montagem escorregasse para os lados.

Para amarrar a corda ou escadinha na ponta do cano para a subida nós fizemos dois furos passando pelas duas paredes do cano e colocamos um pedaço de aço em forma de arco (fig 3). Apesar de estarem soldadas nós achamos melhor não confiar muito nestas alças. Assim nós passamos a corda por dentro da alça e por trás do cano (figura 4), assim a alça serviria mais para não deixar a corda correr e a solda seria menos tracionada.

No transporte do cano É interessante manter os parafusos nos furos do tubo mais largo e com as respectivas porcas, para não correr o risco de perdê-los, e levar sempre 2 chaves de boca.

Finalmente conseguimos atingir o tal buraco no teto (foto), aumentando o desenvolvimento da caverna em mais de 200 metros. Quanto à rigidez, nosso cano tem 6m e já entorta um pouco. Para grandes alturas seria necessária alguma modificação. Um agradecimento especial ao pessoal que apoiou a idéia e ajudou a carregar e a testar o equipamento. A propósito o salão se chama Ducano, em homenagem ao equipamento utilizado.

sábado, 8 de novembro de 2008

DESCOBERTA DO SIFÃO DO RALO - PROCAD II (Caverna do Diabo – 01.05.98)

Já eram mais de 20h quando nos separamos do grupo do Roberto / Beroaldo no Salão “Gigantes Caídos”. O Beroaldo ficou nos passando as informações necessárias para começarmos a topografia.

O objetivo inicial de topografar o Salão Philippe foi alterado devido ao avançado horário, precisaríamos de pelo menos 6h de topografia e contávamos com menos de 3h.

O Beroaldo nos deu as indicações de um salão superior, mas que também ficaria para uma próxima investida e do “Y” no nível do rio, que faríamos naquela noite.

Segundo ele uma das pernas do “Y” terminava num pequeno lago, pouco adiante. Decidimos começar a topo do final da galeria para o “Delta”.
Fomos caminhando até o final da galeria e nos arrastamos por um quebra-corpo, tendo o grande desmoronamento dos Gigantes Caídos a nossa direita. Chegamos a uma galeria pequena e com mais um lago. O lago continuava e tendia à esquerda saindo do eixo da galeria dos Gigantes Caídos.

A medida que avançávamos aumentavam as dimensões do lago. Passando por um teto baixo (40cm + ou -) chegamos ao maior salão de aproximadamente 20m de comprimento uns 7m de largura e 3 de altura (a partir da água) e uma profundidade maior que 2 metros (não fui até o fundo do salão pois nos parecia um sifão).

Não havia circulação de ar e a água nos pareceu parada também. Até uns 7 metros antes da parede final do salão há bastante areia no chão, mas a medida que vai se avançando ao final dele, o chão vai se inclinando de todos os lados para o centro (parecendo um ralo), o que nos causa a impressão de que ele quer nos puxar para si, e sem depósitos sedimentares (só pedra), ficando difícil de se manter em pé.

Tivemos a impressão de que o lago tem uma comunicação com outra galeria e que quando há uma inundação neste a água circula para o outro lado. Talvez valesse a pena uma exploração através de mergulho.

Percebemos a marca de inundações nas paredes, a água atinge facilmente o teto da galeria. Explorei uma pequena chaminé na entrada do lago mas não subi mais que 2 metros. O Chico deu uma olhada no lado do desmoronamento junto com o Renato, mas não avançou por entre os blocos. Ao todo a nova galeria deve acrescentar uns 50m à Caverna.
Começamos a topo do fundo do lago para o delta, como combinado anteriormente. Na 4ª visada demos uma olhada no relógio e já eram 22:30, estávamos em cima da hora para sairmos.
Por esse motivo abortamos a topografia, usamos o pouco tempo que tínhamos com a exploração da descoberta. Arrumamos nossas coisas e saímos correndo, já eram 23h. Havíamos combinado de voltar no dia seguinte, mas não conseguimos prosseguir com os trabalhos.

Equipe:

Francisco José Sarpa Lima - equipamentos
Renato Moreira Cavalcante – ponta de trena
Rosângela Rodrigues de Oliveira - anotações
Marcos Otavio Silverio - croquis

O SALÃO DEDITOS - PROCAD99 (01.05.99)

Estávamos voltando da topografia do salão das Pérolas Coloridas quando resolvemos dar uma olhada num escorrimento que o Beroaldo havia nos mostrado. Ele disse que ali poderia haver uma continuação.

O Roberto foi na frente, seguido pelo Dennys e por mim, subindo pelo escorregadio escorrimento. Ele subiu na lateral esquerda da galeria do rio próximo à parte turística. Uma pequena subida fácil num trecho inclinado e escorregadio, passando por um lance mais apertado e por baixo de um escorrimento. No fim da subida a uns 10m de altura há uma passagem estreita e alta que sai num patamar bem protegido, atrás de uma grande coluna. No sentido das Ostras podemos ver a galeria do rio, bem lá embaixo, do outro lado mais alguns escorrimentos e um indício de uma possível continuação.

Depois de uma rápida analisada resolvemos tentar. O pessoal da travessia encontrara conosco e o Roberto foi acompanhar a saída do pessoal junto com o Beroaldo. Eu sai em disparada atrás do Beroaldo que estava com a corda e se animou a voltar também. Lá em cima no patamar pudemos ver que havia um degrau bem acima de nós, subindo nas colunas atrás pudemos ver que havia uma continuação bem para o alto. Não perdemos tempo, ficamos revezando as tentativas de laçar umas estalagmites e uma laca lá em cima.

O Dennys finalmente conseguiu laçar, ajeitamos a corda e ancoramos uma ponta numa grande pedra, pela outra eu já subia animado com as possibilidades de uma descoberta.
Eu resolvi dar uma olhada antes de equipar melhor a subida, o salão começa logo na lateral da galeria onde está o patamar, bem inclinado ele sobe muito e se apresenta bem ornamentado. Canudos pretos contrastam com outros brancos, e no chão vários repousam quebrados.

Logo no início da subida há uma outra passagem mais alta que aparentemente passa por cima da galeria do rio, mas que necessita de uma segurança maior para ser escalada. No outro lado lá em cima outra galeria de difícil acesso, pensamos em laçar uma mite mas seria muito difícil conseguirmos lançar uma corda há mais de 10m de altura. A esquerda existe uma páleo galeria bem horizontal que, quase na altura da parte turística, segue em direção a galeria do rio, encontrando-a numa cota bem elevada.

Voltando a subida eu coloquei outra corda amarrada a uma pedra para que o Dennys e o Beroaldo pudessem subir.
Estimamos em mais de 150m o desenvolvimento desta galeria, e ainda falta explorar as duas subidas para as galerias mais altas. Ele apresenta vários espeleotemas se destacando os canudos pretos e os muito brancos. O chão é todo forrado deles. Há também algumas pequenas flores de calcita e escorrimentos.

É uma grande descoberta, não só pelas dimensões mas também por estar a apenas 15min da entrada turística. Em homenagem aos canudos pretos demos o nome de Deditos ao salão, deixamos lá uma corda para prosseguir com as explorações e com a topografia. Saímos cansados e já bem tarde, mas com sorrisos enormes nos rostos, valeu.

No Procad 2000 nós topografamos o salão Deditos e exploramos uma das paredes laterais, após uma escalada de 15m cheguei a um patamar e de lá eu consegui ver um grande salão se desenvolvendo sobre a galeria do rio no sentido da parte turística. Como estava sozinho lá em cima e depois de topografar o Deditos eu não arrisquei o último lance até o salão, o cansaço falou mais alto, ficou para a próxima.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Avaliação sobre diferentes movimentos de conversão em corda e auto-resgate

Eis mais um conteúdo interessante que eu tinha em meu micro e resolvi publicar aqui.
Trata-se de uma série de avaliações de Técnicas que fizemos enquanto escrevia o livro de Tecnicas Verticais. Serve para nos embasar. Obrigado a todos que participaram!

Técnicas de conversão e movimento de passagem de emenda de corda

Data: 23/10/2007
Local: Torre de bombeiros, GB Aeroporto;















Participantes:
Adilson
Caê
César
Cláudio
Daniel Menin
Jânio (espectador palpiteiro)
Ovo (espectador palpiteiro)
Sylvio Junior (espectador palpiteiro)
Renata Andrade
Renato Kbelo

Objetivo:
Avaliar algumas técnicas diferentes de conversão em subida e de movimento de passagem de emenda de corda em descida com a finalidade de validar vantagens e desvantagens de cada técnica além de identificar novos pontos ainda não percebidos.

Metodologia:
Cada participante foi convidado antes de qualquer avaliação a realizar os movimentos livremente da forma em que estava acostumado. Passado esta etapa os participantes realizaram novamente estes movimentos, porém agora seguindo o passo a passo das técnicas propostas.

Técnicas avaliadas e resultados obtidos:

1. Conversão em subida: Técnica A:

1. Interromper a subida e instalar o descensor na corda, abaixo do blocante ventral;
2. Verificar se o descensor está corretamente conectado à corda e bem fixado na Malha Rápida de cintura. Realizar a trava de segurança no descensor;
3. Se for necessário, baixar um pouco o blocante de punho na corda para que ele fique cerca de 10 a 20cm acima do blocante ventral;
4. Apoiando-se no estribo do blocante de punho, desconectar o blocante ventral da corda;
5. Descer o corpo lentamente, até que o seu peso esteja 100% no descensor;
6. Verificar novamente se o descensor está conectado corretamente à corda;
7. Remover o blocante de punho da corda, desfazer a trava de segurança e iniciar a descida.


Técnica B:

1. Interromper a subida;
2. Conectar o longe curto no blocante de punho e suspendê-lo até o longe ficar esticado;
Se apoiando no estribo, soltar o blocante ventral da corda e sentar novamente (ficando preso no longe curto);
3. Instalar o descensor na corda e realizar a trava de segurança;
4. Verificar se o descensor está corretamente conectado à corda e bem fixado na Malha Rápida de cintura;
5. Apoiando-se novamente no estribo do blocante de punho, levantar-se e retirar o longe curto, descendo para apoiar o peso no descensor travado;
6. Remover o blocante de punho da corda, desfazer a trava de segurança e iniciar a descida.

Observações Gerais:
Das 7 pessoas que participaram do treino 5 pessoas realizaram automaticamente a Técnica A como técnica já utilizada. As outras 2 pessoas não lembravam como realizar esta manobra e foram direto ao passo-a-passo proposto. Apenas uma pessoa teve problemas em uma das técnicas (B) no momento de recuperar o blocante de punho (ficou muito alto na corda).

Uma vez realizadas as 2 técnicas (A e B) a maioria das pessoas atribuiu nos quesitos rapidez e facilidade a técnica B porém também a colocaram como mais perigosa pois o indivíduo fica suspenso apenas por um blocante.
Sugestões:
Na Técnica B, o resultado foi melhor realizando a conexão do longe curto na parte superior do blocante de punho. Isto facilitou sua retirada da corda no momento em que o peso do espeleólogo estava no descensor.
Outra sugestão é verificar bem a altura do descensor na corda (deve este bem para cima) antes de soltar o longe curto do blocante.

Conclusão:
Concluímos que a Técnica B é mais fácil e rápida do que a Técnica A. Isto pois disponibiliza mais corda livre para a conexão do descensor o que facilita o trabalho além de evitar o mal colocamento deste na corda pela posição da mesma. Por outro lado, esta técnica apresenta um certo risco adicional uma vez que o espeleólogo fica por alguns segundos preso apenas por um blocante. Esta situação pode se agravar em atividades práticas em caverna e com lama, pois o blocante pode não funcionar direito ocasionando em queda.


2. Passagem de emenda de corda na descida: Técnica A:

1. Descer com o descensor até pouco antes nó;
2. Para segurança de backup, conectar o longe curto na alça do nó feito antecipadamente para este fim;
3. Conectar o blocante de punho acima do descensor;
4. Apoiando-se no estribo do blocante de punho, conectar o blocante ventral na corda (acima do descensor). Seu peso passou para o blocante.
5. Desconectar o descensor e o reconectá-lo na corda abaixo do nó, fazendo em seguida uma chave de segurança;
6. Posicionar o blocante de punho o mais para baixo possível, o suficiente para poder levantar-se utilizando o estribo;
7. Utilizando este apoio desconectar o blocante ventral da corda. Com este movimento, descer até que seu peso fique no descensor.

Técnica B:

1. Descer com o descensor até pouco antes nó;
2. Conectar o longe curto no blocante de punho e conectar este blocante na corda (acima do descensor);
3. Posicionar o blocante o mais acima possível (até esticar o longe curto);
4. Desconectar o longe longo do blocante e para segurança de backup conectá-lo na alça do nó feito antecipadamente para este fim;
5. Desconectar o descensor e o reconectá-lo na corda abaixo do nó, fazendo em seguida uma chave de segurança;
6. Utilizando o apoio do estribo desconectar o longe curto do blocante blocante e descer até que seu peso fique no descensor;
7. Recuperar o blocante de punho da corda, tirar o longe de segurança da alça do nó e reconectá-lo ao blocante;
8. Continuar a descida.


Técnica C:

1. Descer com o descensor até pouco antes nó;
2. Conectar blocante de punho na corda, um pouco acima do descensor;
3. Apoiando-se no estribo, conectar no blocante o longe curto de forma que seu peso fique neste blocante (pode-se conectar o longe no mosquetão do blocante ou na corda, acima do blocante – testar os 2 modos);
4. Desconectar o longe longo do blocante e para segurança de backup conectá-lo na alça do nó feito antecipadamente para este fim;
5. Desconectar o descensor e o reconectá-lo na corda abaixo do nó, fazendo em seguida uma chave de segurança;
6. Utilizando o apoio do estribo desconectar o longe curto do blocante blocante e descer até que seu peso fique no descensor;
7. Recuperar o blocante de punho da corda, tirar o longe de segurança da alça do nó e reconectá-lo ao blocante;
8. Continuar a descida.


Observações Gerais:
Das 7 pessoas em treinamento 3 pessoas realizaram automaticamente a técnica A (2 blocantes) e as outras 4 resolveram seguir diretamente para o passo a passo.
A diferença básica entre a Técnica A com a B e C é o fato de a primeira ser realizada através dos 2 blocantes enquanto que a B e a C são realizadas através do principio da conexão do longe curto no blocante de punho.
Na técnica A, apenas uma pessoa teve efetivamente problemas com a altura do blocante no momento de recuperá-lo enquanto que nas técnicas B e C este problema foi bastante freqüente. Cabe lembrar que em alguns casos teve-se que utilizar parte da técnica A (blocantes) para corrigir a técnica B ou C saindo de situações difíceis. No final desta etapa concluiu-se que apesar das técnica B ou C serem mais rápidas estas exigem mais treino e gera maiores riscos. 100% dos avaliadores preferiram a técnica A.
Segue uma lista de avaliação levantada nos treinamentos:

Técnica A: Vantagens:

- Mais fácil de regular a altura do blocante de punho para recuperá-lo depois;
- Não há risco de perder o blocante de punho, pois este está sempre conectado ao longe longo;
- Não há risco de continuar a descida com os longes trocados (longo solto e curto no blocante de punho) devido às trocas durante o movimento;
- Pode-se descer tranquilamente até bater com o descensor no nó (o que não pode acontecer na técnica B);

Desvantagens:
- A utilização de 2 blocantes pode ser um pouco fatigante no momento de bem posicioná-los na corda.
- O reposicionamento dos blocantes (abaixando-os sem abrir) pode causar pequenos machucados na corda devido aos dentes dos blocantes.

Técnica B ou C: Vantagem:

São mais rápidas e podem despender menos energia. A técnica C possui a vantagem de poder “bater” com o descensor no nó enquanto que a técnica B deve-se tomar mais este cuidado para isto não acontecer. O fato de parar com o descensor acima do nó dificulta ainda mais o processo de retirada do blocante em passos futuros, pois este vai ficar ainda mais acima na corda.

Desvantagens:
- Exige maior treino;
- Difícil de acertar a altura do blocante de punho;
- Pode possibilitar uma queda de maior fator durante a soltura do longe curto do blocante caso o espeleologo esteja muito cansado;
- Mantém o blocante de punho separado do longe longo podendo ocasionar na perda deste por esquecimento na corda ou deixando cair;

Sugestões:
Para a técnica B e C sugerimos conectar o longe curto na parte superior do blocante de punho (buraco para este fim ou na própria corda). Caso o longe curto esteja mais curto que o normal (por falta de regulagem) isto pode se tornar mais difícil. Neste caso é melhor conectá-lo na parte de baixo do blocante de punho.
Conclusão:
Ao final do treinamento todos os participantes optaram pela técnica A, pois é mais simples e as possibilidades de se enroscar são menores.

Techniques Légeres - Técnicas Leves em Espeleologia Vertical

Salve Salve caro leitor dos subterrâneos!

Segue aí um artigo que escrevi há algum tempo sobre Tecnicas Leves em Espeleologia Vertical. A mesma matéria foi publicada recentemente na revista O Carste (edição de Outubro/2008), mas aqui vai comalgumas imagens suplementares.

Espero que vcs gostem!

Um abs,
Daniel Menin


Técnicas Leves em Espeleologia Vertical

Os obstáculos verticais, de certa forma, sempre estiveram presentes na história da espeleologia. De um lado as fendas, abismos e complexas redes verticais se apresentavam como grandes desafios para os primeiros espeleólogos exploradores. Do outro, cabos de aço, escadas de ferro, canos, cordas de vários tipos e espessuras, homens e mais homens na segurança. Diversos eram os meios de projeção vertical utilizados para que a curiosidade humana não ficasse apenas na imaginação.
E muitos destes obstáculos subterrâneos ficaram décadas esperando que as técnicas e os equipamentos evoluíssem a ponto de possibilitarem ao homem a se aventurar nesses novos mundos.

Os espeleólogos sempre buscaram aprimorar suas técnicas e equipamentos, mas foi por volta da década de 50 que as explorações verticais mais se aperfeiçoaram e conseqüentemente geraram suas maiores descobertas. Em 12 anos de explorações a medida da caverna mais profunda do mundo praticamente dobrou de tamanho e esse resultado é, principalmente, conseqüência do surgimento de equipamentos mais adaptados à esse tipo de atividade e de técnicas mais precisas. Cordas melhores e mais resistentes, cadeirinhas de espeleologia, surgiram os freios e blocantes.
Na década de 70 padronizou-se o uso de corda simples como principal meio de transposição vertical e com ela difundiram-se as técnicas de progressão em corda que, de certa forma, utilizamos como base até hoje.

Observamos, nos últimos tempos, uma boa evolução tecnológica na produção de equipamentos (principalmente cordas), porém as técnicas de base tanto em progressão, quanto em amarragem continuaram bastante próximas às anteriores.

Explorações cada vez mais longas e profundas obrigam os espeleólogos a uma constante busca por materiais mais leves e que ofereçam ainda o mesmo grau de segurança e confiabilidade dos tradicionais equipamentos. No início da década de 90 alguns grupos já utilizavam materiais em seus kits que hoje se encaixam na lista de equipamentos ditos “leves”. Essa crescente utilização acompanhada por uma evolução industrial neste sentido fez com que a Federação Francesa de Espeleologia reconhecesse essas técnicas e, junto à Escola Francesa de Espeleologia, estudasse e estabelecesse padrões na utilização da mesma. Foi criado o título Thecniques Legéres que, de certa forma, trouxe um novo fôlego à espeleologia vertical. Surgiram algumas publicações sobre o tema (Arnaud et al, 2005) e hoje essas técnicas fazem parte da formação e especialização de espeleólogos nos estágios oferecidos pela EFS (Escola Francesa de Espeleologia).

Thecniques Legéres, como é chamada na França, se traduziria tendencialmente em Técnicas Ligeiras. Porém, talvez a tradução mais precisa e apropriada pode ser Técnicas de Utilização de Materiais Leves na Espeleologia Vertical. Isto porque Thecniques Legéres não se refere necessariamente a algo voltado à velocidade, mas principalmente ao peso.

O objetivo deste texto não é ensinar Thecniques Legéres, mas sim oferecer informações suficientes para que o leitor saiba de sua existência, reconheça seu material e identifique a necessidade ou não de sua aprendizagem. A Revista O Carste e o autor não se responsabilizam pelo uso indevido destas técnicas ou do equipamento aqui descrito.


Conceito:

Thecniques Legéres tem como conceito e objetivo básico oferecer ao espeleólogo a possibilidade de atingir uma maior PROFUNDIDADE em caverna utilizando MENOS PESO e MESMA SEGURANÇA em relação às técnicas tradicionais. Para tal adota-se a utilização de equipamentos específicos e técnicas adaptadas a esses tipos de equipamento.
O ganho de peso não é necessariamente um fator concreto e estático. Um espeleólogo pode carregar o mesmo peso que antes, porém a quantidade de material transportado em um mesmo kit lhe permitirá ir mais longe ou mais profundo em uma gruta.


O Equipamento:

Cordas de 8mm:
Por norma de fabricação, as cordas tradicionais (9mm, 10mm) são classificadas pela indústria como cordas tipo A ou B de acordo com sua elasticidade, durabilidade, resistência à fator de choque, resistência à abrasão, etc. Cordas de 8mm são classificadas (na França) como cordas de tipo “L“ (“Ligeiras”) e não se encaixam nas normas e padrões de fabricação como é o caso das cordas de tipo A ou B. A Federação Francesa acompanha e impõe, no seu país de origem, uma série de requisições de segurança na fabricação de cordas de 8mm e utiliza atualmente a marca Beal como referência para este tipo de corda.

Considerações:
O motivo da utilização da corda de 8mm é obvio. Sendo mais fina, é também mais leve e ocupa menos espaço. Porém exige alguns cuidados extras no seu uso. Deve-se prezar pela ausência absoluta de atrito com a rocha, seguir um pensamento constante de antecipação de rupturas e possíveis atritos e também ter uma boa prática na progressão evitando trancos ou velocidade descontrolada.

Micro conector ou Malha Rápida de abertura fácil (MR de Overture Vitte ):
Trata-se de um tipo de malha rápida de abertura mais fácil para ser usada em ancoragens ou derivações. Em formato assimétrico, tem uma rosca com menos voltas o que possibilita a abertura mais rapidamente e substitui o tradicional mosquetão.


Considerações:
É menor e mais leve que qualquer tipo de mosquetão tradicional. Exige cuidados extras principalmente no seu posicionamento. A rosca deve sempre estar posicionada para baixo, caso contrário, a lei da gravidade junto à movimentação natural da ancoragem pode fazer com que o MR se abra sozinho diminuindo consideravelmente sua resistência ou até fazendo com que ele se solte da ancoragem.
Pode ser utilizado na conexão entre chapeleta e corda ou na montagem de derivações junto à utilização de um cordelete de Dyneema;

Cordelete de Dyneema:


Sem dúvida nenhuma, dos equipamentos utilizados em Técnicas Leves, o cordelete de Dyneema com 5mm de diâmetro e alta resistência (através do sistema de amarragem com AS - Amarage Souple = "Amarragem flexível") é aquele que mais chama a atenção. Seu uso foi iniciado no início da década de 90. Espeleólogos o utilizavam na produção de estribos para o blocante de mão. Devido à sua alta resistência ao atrito, o cordelete de Dyneema passou também a ser usado em ancoragens naturais substituindo a tradicional fita. Na mesma década de 90 a Federação Francesa entrou em contato com a Beal e juntos desenvolveram um cordelete específico para o uso na espelologia (100% Dyneema, capa e alma).
Nasceu o codelete usado hoje para ancoragens e derivações na espeleologia moderna. Com resistência de cerca de 800 Kg e alta resistência ao atrito, o cordelete pode ser usado com o auxílio do AS (uma espécie de chapeleta desenvolvida especialmente para o cordelete), com as tradicionais plaquetas ou através de ancoragens naturais.


Considerações:
O cordelete de Dyneema substitui o mosquetão e oferece uma grande possibilidade de ancoragens diferentes, facilitando bastante o trabalho de equipagem. Pode ser conectado ao MR de abertura rápida ou diretamente na corda. Porém alguns cuidados especiais devem ser tomados:

O cordelete é 100% estático transferindo todo impacto da corda diretamente para a ancoragem. Por esse motivo o cuidado com os famosos “trancos” deve ser redobrado. As amaragens com o cordelete devem também estar totalmente tensionadas. Amarragens que não seguirem esse princípio correm o risco de gerar impacto sobrecarregando diretamente a ancoragem;

O cordelete de Dyneema é inflamável. Muito cuidado com a chama do carbureto quando estiver trabalhando com esse tipo de material;

Como acontece em qualquer tipo de corda, a resistência do cordelete cai bastante quando este é colocado em torção. Cuidado na confecção das ancoragens (e dos nós) para que o cordelete não fique “todo torcido”.

Usar em forma de anel e em ancoragens duplas. A grande maioria das aplicações do cordelete de Dyneema em ancoragens é através de confecção de um anel (unindo suas 2 pontas e o utilizando duplamente) e usando 2 pontos de fixação, ou seja, ancoragens duplas em “Y”. Um cordelete de cerca de 800kg de resistência produz um anel de cerca de 1600kg. Já uma ancoragem dupla com 2 anéis de Dyneema oferece uma boa margem de resistência.

Para fechar os anéis utilize nó de pescador duplo deixando ainda uma boa margem (mínimo uns 2,5cm) de sobra. Para uni-lo à corda, vários nós podem ser usados. O melhor nó depende da configuração da ancoragem;


Chapeletas:

A política de chapeletas não muda em relação às técnicas tradicionais. Utiliza-se com eficiência tanto as chapeletas tipo Coudées como as de tipo Vrillées. Sua escolha vai depender principalmente da superfície da rocha e configuração da ancoragem. Evita-se chapeletas de aço devido ao peso;





Considerações:

É importante ressaltar que 90% das chapeletas serão utilizadas com o MR (Malha Rapida Speedy) ou com um anel de cordelete de Dyneema. Bom senso na arrumação dos kits é o fator determinante na validação das técnicas e na economia de peso e espaço. Se estiver levando muitos AS, não serão necessárias muitas chapeletas;



Alguns princípios importantes no uso de materiais leves em espeleologia vertical:

É necessário que tenhamos claros alguns conceitos básicos antes de tentarmos nos aventurar na utilização desse tipo de material ou técnica. Devemos partir do princípio que todo material pode estar sujeito à ruptura, menos a corda. Esta deve estar protegida e precavida de todo tipo de causa que pode lhe gerar danos estando ainda conectada do início ao fim do abismo (salvo algumas exceções).
A melhor postura para essa atividade é a antecipação de rupturas das amaragens e derivações. Devemos constantemente nos colocar a questão: “o que acontecerá com a corda e com o espeleólogo caso esta amarragem se romper?”;
Praticamente todas as amarragens devem ser duplas e estar tensionadas. No caso de ruptura de uma das amarragens o trajeto da corda deve estar protegido.

É imprescindível que tenhamos uma iluminação eficiente e elétrica. Isto nos possibilita uma boa observação dos detalhes da caverna, a configuração do caminho de corda a seguir e a análise das possibilidades de ancoragens. Uma iluminação elétrica também evita o risco de incêndios subterrâneos.

Bom senso. Nunca force os limites sejam eles de qualquer natureza. Limites físicos, psicológicos, de equipamento ou de membros da equipe. Saber analisar a situação e identificar a necessidade de intervenção ou desistência é pré-requisito para um líder em uma atividade vertical envolvendo principalmente equipamentos e técnicas específicas;

Quando falamos em qualquer tipo de técnica avançada em espeleologia falamos também em equipes homogêneas no conhecimento destas técnicas. Não é acompanhando um grupo heterogêneo (contendo iniciantes) de espeleólogos que você treinará seus conhecimentos em técnicas específicas e o uso de material leve.

Boa organização na montagem das mochilas e kits. Um planejamento prévio e o hábito na utilização desses materiais fazem com que o espeleólogo organize seu kit de forma clara e eficiente transmitindo maior segurança e bons resultados na equipagem da caverna. Se já conhecer a caverna, criar uma ficha técnica com os equipamentos a utilizar pode economizar surpreendentemente o peso e volume de seus kits.

O uso de material leve na espeleologia vertical é aplicado no conjunto de equipamentos coletivos como conectores, cordas e sistemas de ancoragens. Os equipamentos individuais, salvo alguns detalhes não apontados neste texto, continuam os mesmos utilizados nas técnicas tradicionais.

Principais aplicações para as Técnicas Leves:
(Quando / Onde / Porque / Por quem)

Quando:
- Em todas as ocasiões onde os fatores equipamento e peso forem determinantes para o bom andamento da expedição;
- Em todas as atividades onde não há possibilidade de carregar grandes kits de equipamentos;
- Em viagens de prospecção e exploração a lugares distantes (outros estados ou países);

Onde:
- Em abismos profundos e difíceis no carregamento de material;
- Em cavernas ou abismos onde a caminhada de aproximação é longa e cansativa.
- Em investidas de prospecção e avaliação de continuidade vertical em áreas dentro de uma caverna;

Por que:
Para ganhar agilidade e praticidade;
Para ir mais longe carregando menos material e peso;

Por quem:
Por uma equipe homogênea e pequena;


Referências bibliográficas:
Judicaël ARNAUD, Sylvain BORIE, Nicolas CLEMENT, José MULOT. Groupe d'Etudes Techniques EFS. 2005. La cordelette Dyneema® et son utilisation en spéléologie. Spelunca n°97

Sergio Garcia – Dils De La Vega. 2004. Los Cordinos de alta resistencia y su aplicación en espeleología. Subterránea, 22: 40 – 41.

Nome, Nome. Groupe d'Etudes Techniques EFS. 2007. Les Thecniques « Legeres ». Em preparação.

(Um agradecimento especial à Remy Limagne e Delphine Molas (EFS))

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Gouffre du Brizon - França

Cidade: Montrond le Château;
Departamento: Doubs;

Saída eme stágio junto a EFS de aprendizagem em técnicas ligeiras.

Dia 13 de julho de 2005















Após os primeiros dias de avaliação em autonomia em técnicas verticais demos enfim início ao estágio de aperfeiçoamento propriamente dito. Na tradicional reunião noturna, durante o segundo dia, nos foi colocado uma lista de opções para serem escolhidas. De acordo com o interesse de cada pessoa foram formadas equipes para os próximos dias. Minha opção foi de aprender e aperfeiçoar as técnicas ligeiras de exploração em vertical.
Na manhã do dia 13 foi formada a equipe me técnicas ligeiras: Eu, Jackie e a instrutora Delphine. Nos foi passado um briefing do um abismo que iríamos vizitar durante a tarde e a instrutora nos ajudou a preparar o material. Tive o primeiro contato ativo com os dynemmas, AS, MR de abertura rápida e outros mateirais de pequeno porte e peso (escrevi sobre técnicas ligeiras em um outro artigo específico sobre o assunto, um dia posto aqui no Blog).
Chegando ao abismo a Jackie começou a equipagem. Logo na entrada mais um aviso sobre o perigo de enchentes e “crue”. A segurança exterior é feita em árvores próximas à entrada. Um lançe de aproximadamente 4m tem sua amarragem facilitada por um tronco de árvore e dá início à descida subterrânea. Chegamos a um pequeno salão de onde sai um conduto que acessa uma série de outros garrafões não muito largos, porém perfeitamente arredondados. Claramente essa série de garrafões funciona como a porta de entrada de uma vasta rede aquática subterrânea. Em épocas de chuva funcionam como verdadeiros “tubos” condutores. Talvez justamente por este motivo não encontramos concentração de formações como tities, mities e etc. Por outro lado, é um abismo perfeito para treinar e aperfeiçoar novas técnicas justamente deviso à sua morfologia.
Enquanto Jackie equipava eu descia junto a Delphine que fazia suas observações referente às amarragens e equipamentos. Após alguns lances trocamos de posição. Começei a equipar os outros lances enquanto Jackie e Delphine vinham atrás. Em um salão, enquanto equipava um próximo lance, deixei cair na escuridão abaixo um MR de abertura rápida (Speedy) com uma plaqueta. Ficamos todos escutando o barulho das peças se debatendo nas paredes enquanto descia caverna abaixo. “Já era” pensei comigo mesmo começando ainda a imaginar o valor do material a ser reposto.
Mais um lançe de uns 20m com um fracionamento a 10m do solo e chegamos ao fundo de um poço e fim das cordas. Enquanto comíamos e conversávamos encontramos, ao lado de onde Jackie estava sentada, o MR e a plaqueta perdida. Delphine a pegou, examinou e a colocou a parte em um saco de equipamentos de resgate que ela levava. Pensei mais uma vez no preço de um MR e de uma plaqueta. Após um almoço de macarrão gelado com abricot vert e de uma rápidíssima ciesta fui encarregado a subir até a última amarragem para bater um spit e duplicá-la “A primeira e a última amarragem devem sempre serem duplicadas!”.
Bati o spit, dupliquei a amarragem e subi até um salão intermediário onde esperei que as duas chegassem. A demora foi, logo em seguida, explicada pelo ativamento da rede hídrica subterrânea devido à grande quantidade de líquido que ingerimos (aliás, quando alguém que ler este texto me encontrar, me pergunte o que é uma Pissetta e explico melhor esta passagem do texto).
As duas me passaram e seguiram abismo acima enquanto fiquei por último e encarregado por toda desequipagem (trabalho pra macho!). Como não poderia ficar atrás também dei munha contribuição ao ativamento hidrico da rede.
Saindo do abismo, na grama ao lado do carro, Delphine pegou o material que deixei cair, deu uma olhada e o recolocou junto com o resto dos equipamentos. OK! Esse tipo de equipamento é muito resistente e se não apresentar fissuras visíveis não há grandes problemas. Economizei alguns Euros...


Material utilizado:
110m de corda de 8mm;
45m de corda de 9mm;
MRs de abertura rápida;
Chapeletas coudés e vrillés;
Cordonetes dynemma;
AS com cordonetes prontos;
Algumas fitas;
Alguns mosquetões.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Gouffre la Belle Louise - França


Cidade: Montrond le Château;
Departamento: Doubs;
Saída em estágio junto a EFS de aperfeiçoamento em técnicas ligeiras.
Dia 16 de julho de 2005

Segunda saída com objetivo de utilizar as técnicas leves (Thecnique Legeres) em equipagem vertical. Após termos aprendido em teorias e também termos posto em prática em um ambiente real agora o objetivo foi de equipar e desequipar um abismo inteiro utilizando apenas estas novas técnicas.
O Abismo de La Belle Louise é uma linda cavidade. A entrada é por uma fenda onde observamos várias possibilidades de descida por 2 principais lances separados por um platô. Póximo à entrada tinha uma placa informando sobre a possibilidade de “crue” (tromba d´água) em dias de chuva forte. Estávamos preparando os equipamentos quando um senhor chegou com um trator e disse ter visto na meteorologia a previsão de fortes chuvas durante a tarde. Resolvemos a partir desta informação não seguir até o fundo do abismo mas equipar somente os primeiros e principais lances até atingir um pequeno conduto de “teto baixo” onde em caso de “crue” poderíamos ficar presos. A equipe, como da primeira vez foi formada por mim, Jackie e a instrutora Delphine (sabe muito essa mulher!). Fizemos 2 equipagens descendo em paralelo até o fundo dos principais lances. Jackie equipou o lado principal enquanto eu fui procurar uma descida lateral pelo menor acesso. Com muitos blocos instáveis acabei não encontrando amarragens seguras ao longo do platô e acabei subindo para equipar uma via próximo à de Jackie porém pela lateral do abismo. Como eu havia preparado uma ficha de equipamentos a partir da topografia, desta vez o trabalho foi muito mais organizado e de bons resultados que na primeira saída de técnicas ligeiras. Utilizei bastante os cordeletes de alta resistência de dynemmas e os AS e atingimos nossos objetivos sem maiores problemas. Após vários lances chegamos a uma área onde 2 garrafões paralelos se encontram e pasamos por uma espécie de janela entre eles. Maravilhoso esse abismo!. Como estávamos preocupados com a possibilidade de chuvas então deixamos o almoço no carro, para voltarmos antes. Comemos uma pequena barra de cereais no fundo destes lances e iniciamos nossa subida. A instrutora Delphine desceu pela minha via fazendo algumas correções necessárias e subiu pela via da Jackie também corrigindo eventuais imperfeições. Saindo do abismo comemos na grama, próximo do carro, revimos nós e teorias de amarragens ligeiras e voltamos para o alojamento. E a chuva..... essa nem apareceu...

Gouffre de Vauvougier - França


Cidade: Montrond le Château;
Departamento: Doubs;
Saída durante estágio junto a EFS (Escola Francesa de Espeleologia).

Após um dia de avaliação técnica em uma falésia dedicamos o primeiro dia embaixo da terra para também sermos avaliados em equipagem e desequipagem porém agora em um ambiente real, sobre as condições reais de uma caverna.
O Gouffre de Vauvougier é um lindo abismo que dá acesso a uma labiríntica rede subterrânea. Estávamos em 2 equipes de 4 pessoas sendo 3 alunos e 1 instrutor que apenas acompanhava os alunos intervindo no trabalho de equipagem quando pertinente.
A primeira equipe, a qual eu fazia parte, tinha como objetivo acessar a rede subterrânea e nós a profundidade pelos lances a esquerda do Puits du Pendule (ver mapa). Nossa equipe estava formada por Julian, Jackie, eu e a instrutora Cécile. Julian começou a equipagem descendo pela lateral direita de um enorme e volumoso abismo de entrada. Uma equipagem considerávelmente técnica uma vez que foi necessário vários pêndulos para acessar os spits nas paredes do abismo. A vista da luz externa em raios de sol entrando no abismo era algo de espetacular. Descemos cerca de 45m com alguns fracionamentos e ao chegar lá embaixo percebemos que havíamos passado um conduto lateral que deveríamos ter seguido e direção ao Puits du Pendule, como fez a outra equipe. Então subimos, aproveitamos as amarragens da outra equipe e acessamos ou outros abismos em direção ao nosso objetivo. A partir desse ponto fui o responsável pela equipagem. Equipei cerca de 40 a 50m até uma sala de onde saía um dos últimos lances. Equipagem feita em spits batidos sobre um grande bloco e desci o lance até a metade, onde me deparei com o nó de fim de corda. Era o fim de nossa descida. Jackie quis também descer para observar o belo lance pela metade. Almoçamos todos nessa sala e começamos a subir para voltar. Jackie e Julian desequiparam a parte equipada por mim e eu fiquei encarregado de desequipar os primeiros lances equipados por Julian. Ainda não sei as exatas sensações que tive ao desequipar diversos fracionamentos em pêndulo. A cada última desparafuzada na plaqueta era como se fosse um gatilho me pendulando em um belo vôo para o centro de um largo garrafão de quase 50m de altura. “Ao escolher os lugares para bater spits e equipar, pense na hora da desequipagem” pensei comigo mesmo.
Por ser o primeiro dia de atividade subterrânea resolvi não levar a máquina fotográfica mas me arrependi amargamente pois o abismo é seco, com grandes garrafões e perfeito para fotografias. Fica então essa dica para uma outra vez, um dia, quem sabe...

Gouffre Gros Gadeau - França


Cidade: Pequena vila próximo de Besançon – Montrond le Château;
Departamento: Dobs – Ao Norte da região do Jura;

Saída de final de semana junto ao Speleoclub de Paris.

Mais uma vez paramos o carro bem próximo à entrada da gruta. Após alguns passos (isto mesmo, o carro estava a metros da caverna) na beira da estrada chegamos à uma dolina e à cavidade. Logo na entrada da caverna, como já é de costume na região, podemos observar um cartaz de advertência dizendo os riscos e perigos da mesma prevenindo assim entrada de turistas ou espeleólogos não preparados. Ao adentrar na caverna um bonito lance de cerca de 15m da acesso a uma sala de onde continua-se a descida por outro poço mais à direita. Apesar de parecer bastante ativa, a caverna de Gros Gadeau não era conhecida como uma caverna perigosa até que em Novembro de 1996 foi palco de uma dramática operação de resgate durante o alagamento de suas galerias em uma tromba d´agua, frequente em épocas de chuva. Nossa descida foi relativamente tranquila. Olivier foi na frente equipando a caverna enquanto que eu e o outros espeleólogo seguíamos atrás. Descíamos sucessivos poços em meio a cachoeiras de pouco volume mas o suficiente para nos deixar completamente molhados já no primeiro lance. Olivier tanto estava compenetrado com as amarragens que nem percebeu a presença de uma serpente, em um pequeno lago, entre seus 2 pés e logo abaixo de dois spits. Ao meio do barulho d´água das cachoeiras e com um francês bem meia boca tentei explicar para ele a presença da cobra e perguntar se ele a tinha visto. Sem dar muita bola ou por não ter entendido ele sorriu e continuou a equipagem, descendo logo em seguida.
Chegamos até o fundo dos maiores puits, a cerca de 85 metros de profundidade. Caminhamos um pouco por uma galeria, desescalamos alguns pequenos lances, descansamos alguns minutos e começamos a subida de volta a superfície. Como já estava virando costume, fui o último a subir e, portanto, o responsável pela desequipagem. A cada lance que subia eu pensava na serpente da descida. Eu não me lembrava mais em que poço ela estava. Será que a água a carregou abismo abaixo ou será que ela continua no mesmo lugar? Será que eles a viram ao subir? Será venenosa? A resposta de onde ela estava não demorou a tardar. Durante a subida ela me aguardava na beira do penúltimo lançe com a cabeça levantada como que olhasse quem vinha subindo pela corda. Para evitar uma trombada de cara com na cobra tive que fazer um certo malabarismo escalando pela parede da esquerda, em oposição e ainda me mantendo sob tração na corda para evitar algum choque em caso de queda. Passado o obstáculo descobri que a cobra estava era atrás de iluminação pois a mesma vinha sempre em minha direção. Não tinha muito espaço para fugir uma vez que estávamos em um pequeno platô que dividia 2 lances verticais e onde se encontrava um pequeno lago e um fracionamento a ser desequipado. Experiência memorável porém não muito agradável esta de desparafusar o spit e fugir da serpente apagando minha lanterna de quando em quando para que ela parasse de me seguir.
Chegando ao carro mais uma vez fui perguntar da serpente mas ninguém a viu. “Tranquilos demais esses caras...” pensei comigo mesmo. No Brasil estamos sempre preocupados com serpentes e olhamos o tempo todo principalmente sa saída das cavernas mas na França pouco se tem a temes visto que raríssimos são os casos de cobras venenosas.
Depois de um banquete de Arricot vert, queijos e é claro, vinho, seguimos estrada para Paris, como sempre, sem tomar banho.

Gouffre des Ordons - França


Cidade: Pequena vila próximo de Besançon – Montrond le Château
Departamento: Doubs
Saída de final de semana junto ao Speleoclub de Paris.
13 de Junho de 2005;

O acesso à gruta é por por um pequena fissura no calcáreo. A amarragem inicial pode ser feita nas árvores ao redor do gouffre e pelos spits plantados logo no incício da descida.
Cerca de 4 metros adentro, têm-se acesso a uma fenda onde instala-se um corrimão para assegurar até o melhor ponto para a descida final. Trata-se do maior lance vertical da caverna (cerca de 25m) que dá acesso a um enorme salão repleto de estalagmities, velas e cortinas. Gouffre des ordons é uma descoberta recente e perfeito para iniciantes. Seus lances de verticais não são grandes, a instalação é bastante simples e a recompensa bela beleza da caverna em formações é garantida. Foram colocadas fitas de proteção para traçar um caminho de uma extremidade do salão a outra de modo a proteger as formações. Destaque para duas grandes velas que se encontram no centro da parte mais ampla do salão, próximo á descida da corda.
Estive com o espeleo clube de paris e realizei lindíssimas fotos mas que em uma desagradável descoberta percebi que as tinha feito em baixa resolução. Resultado: mudei para alta mas não tive suficiente tempo para tirar as mesmas fotos que já havia feito.
Por coincidência durante o ultimo dia do estágio na EFS acabamos voltando a essa gruta e pude realizar novamente mais fotos e desta vez, em alta resolução. Embora não tenha tido paciência e nem tempo suficiente para repetir as boas fotos da primeira vizita acho que consegui mostrar um pouco da amplitude e beleza desta caverna.

Grotte Baudin - França


Cidade: Montrond le Château / Besançon;
Departamento: Doubs;

Saída de final de semana junto ao Speleoclub de Paris.
12 e 13 de Junho de 2005;

Estaciona-se o carro na beira da estrada, próximo a uma casa e segue-se por uma trilha a esquerda da casa por entre uma floresta. Em poucos minutos chega-se a um canyon da calcáreo que dá acesso a entrada da caverna. Pode-se dizer que a caverna é a continuidade subterrânea do canyon. Logo na entrada, alguns lances de vertical levam a um salão. Mais algumas descidas em corda e chegamos ao mais amplo conduto da caverna. Um modesto conduto de aproximadamente 4 metros de diâmetro e 15m de comprimento, teto inclinado e solo argiloso, de afundar a bota inteira na lama. É no fim desse conduto que saem 2 fendas. Uma fóssil à leste e outra, ativa à norte por onde se prossegue a caverna. A partir deste ponto começa uma “penante” atividade de “escalada horizontal”. Em uma mistura de quebra-corpo com fenda a caverna prossegue por um interminável conduto. Diversas possibilidades de caminhos se abrem. Pode-se escolher, de acordo com o gosto individual entre seguir um caminho por uma parte mais alta da fenda ou por uma parte mais baixa. As vezes andávamos 2 ou até 3 pessoas em mesma direção sendo que cada um em uma altura diferente da fenda. Ainda não conheci no Brasil algum conduto semelhante. Em alguns pontos essa fenda se alarga e encontramos alguns travertinos e pequenos lagos mas na grande maioria são caminhos altos e estreitos. Em um ponto mais distante um grande labirinto possibilita o acesso ao mesmo ponto por pequenos condutos diferentes e neste ponto fica muito fácil perder o censo de direção e se perder. Não se trata de blocos desmoronados ou terreno instável mas de condutos reais formados, a princípio, pela água. Na volta fiquei em último na equipe e junto com o Olivier tomamos um conduto abaixo ao caminho seguido pelos outros integrantes. Por alguma “passagem-mágica” não aparente na topografia acessamos uma área bastante avante ao resto do grupo e tivemos que ficar esperando que eles chegassem. Um pouco cansados e cerca de 6 horas mais tarde chegávamos ao primeiro lance da subida, para sairmos da caverna. Mais uma vez fiquei por último assumindo a responsabilidade iria repetir no resto das cavernas daquele final de semana: a desequipagem... Na saída da caverna o Olivier e o Florent me esperavam (graças a deus!) para me dar uma mão com a última desequipagem e com as mochilas pesadas.
Ao chegar no local onde o carro estava estacionado e ainda de cueca na beira da estrada ganhei uma super cerveja gelada.
Depois de virar metade da garrafa exclamei com felicidade “Acho que foi a melhor cerveja francesa que já bebi desde que cheguei”. De bate-pronto todos responderam: “Mas essa cerveja é belga !”.

Trabalho de desobstrução de abismo - França

Cidade: Pequena vila próximo de Dijon;
Departamento: Cote D´or - BOURGOGNE;

Final de semana específico de desobstrução.
04 e 05 de Junho de 2005


Pois é galera. Aqui escrevo um pouco sobre um trabalho de desobstrução de um abismo que participei na França. Próximo à cidade de Dijon (já ouviu falar da Mostarda de Dijon?) existe uma vasta rede subterrânea. Trata-se de um labirinto com certa de 30km de galerias mapeados porém com um obstáculo logo no início o que dificulta imensamente os trabalhos de exploração. Um sifão a cerca de 1 km da entrada separa a parte exterior dos outros 29km de galeria.
Pois há anos este grupo descobriu um abismo localizado bem encima da rede de galerias porém, estrategicamente posicionado após a passagem do sifão. Uma dádiva se o abismo não estivesse completamente entupido por sedimentos. Iniciou-se aí um trabalho de cavar e extrair a argila fazendo renascer todo um abismo escondido e completamente enterrado pela natureza.
Por motivos diversos, o grupo que lidera este trabalho pediu para eu manter sigilo quanto ao nome da caverna e localização da mesma portanto quem quiser estas informações vai ficar querendo...

Passamos o final de semana trabalhando na desobstrução. O abismo tem hoje, em seu total, cerca de 15m de profundidade e quase todo o percurso foi desobstruído a partir de uma falha encontrada no solo calcáreo. Observa-se ao longo do abismo o claro trabalho da água em uma outra época. Encontram-se algumas formações em calcita como pequenos escorrimentos, estalactities e pequenas cortinas que até então, estavam cobertas por argila. Na entrada do abismo foram utilizados explosivos mas agora o trabalho consiste em cavar o solo argiloso do fundo e, através de uma corda, extrair a terra em baldes alternados. Para esse trabalho são necessários pelo menos 5 espeleólogos.
Um primeiro desce até o fundo do abismo e realiza o escavamento propriamente dito. Um segundo fica preso na metade do percurso auxiliando a passagem dos baldes cheios de pedras e argila do escavamento. Um terceiro fica na boca do abismo trocando os baldes e os esvaziando. Os últimos dois participantes são aqueles que tracionam a corda que, através de uma polia, leva os resíduos escavados até o exterior do abismo. Pela primeira vez na França tive contato com um verdadeiro trabalho de exploração subterrânea. Dormimos na beira da estrada, acampando em uma espécie de “barracão de pedra abandonado” bastante utilizado por espeleólogos ou viajantes sem grana para pagar uma hospedagem.

Gouffre de Montaigu e um outro que não lembro o nome... - França

Cidade: Crosey-le-Petit
Departamento: JURA
Saída junto ao Speleoclub Chilly Masarin
Final de semana específico de aperfeiçoamento e técnica.

22 e 23 de Abril de 2005

Estivemos neste final de semana no departamento do JURA onde há um grande maciço de calcáreo na divisa da França com a Suíssa. Tratou-se de uma viagem com poucas pessoas (5 espeleólogos) para a visita no abismo de Montaigu com seus -385m de profundidade.

Entramos no abismo Sábado por volta das 10hs da noite e saímos por volta das 17hs. O intuito foi de aperfeiçoamento e treinamento vertical em um abismo mais profundo. O abismo se encontra em uma das várias dolinas de uma didatica seqüência em linha reta no alto de uma colina calcárea. Descemos até -250m quando resolvemos voltar antes de entrar em uma rede labiríntica vertical que leva até o ponto mais profundo da cavidade. Após a entrada em meio a raiz de uma árvore encontra-se um lance de 35m seguido por uma vasta sala que dá acesso a lindos lances dos quais os 2 primeiros são bastante amplos (55m e 40m, diretos). Montaigu foi descoberto em 1913 e explorado por completo em 1932 por espeleólogos de Pays de Montbéliard. Vale a pena a visita.


No Domingo passamos por um outro abismo da região o qual não sei o nome. Descemos até – 65m onde encontramos uma rede de galerias apertadas em meio a muita lama. Encontramos 3 outros grupos de espeleólogos neste abismo. Pela primeira vez na França pude observar um verdadeiro congestionamento vertical de espeleólogos e cordas. Também valeu a visita apesar da falta de informação sobre o abismo.

Também tive a oportunidade de observar pela primeira vez na prática a equipagem através de cordonetes de dynema de 6 mm, técnica bastante utilizada pelo grupo em equipes pequenas como nesta ocasião. Outra prática que tive contato pela primeira vez é o descaso sobre a teoria de ângulo nas ancoragens duplas. Segundo eles, apos vários testes realizados por fabricantes de equipamento e pela escola francesa, esta teoria não se aplica na prática, considerando entre outros fatores, a elasticidade da corda. Meses depois eu viria a confirmar isto em um estágio na própria escola francesa de espeleologia.

Dormimos em um alojamento próprio para espeleólogos (Gita espeleológica), uma hospedagem perfeita dispondo de beliches, banheiros, cozinha e um bom espaço para armazenagem e limpeza de equipamentos. E tudo isso por preços irrisórios para o padrão França. Isso sim que é incentivo!

Reseau de la Sonnette - França


Nome: Reseau de la Sonnette / Reseau de Avenir – Grande Viaille;
Cidade: Savonnières en Perthois – Carrière du Village
Departamento: Perthois;

17 e 18 de Abril de 2005 – Speleoclub Chilly Masarin;

Aí vai mais um relatório de saída para uma caverna na França.
Desta vez, a saída foi junto ao Speleoclub Chilly Massarin, grupo dos arredores de Paris.

A Reseau (ou rede) de La Sonnette é um complexo de galerias escavadas artificialmente para extração de calcário, prática comum na França em outras épocas. Ao longo das galerias, abrem-se abismos naturais, encontrados ao acaso durante as escavações.
A entrada para a o complexo subterrâneo faz-se através de uma sinuosa estrada de terra. Após passar por alguns portões aparentemente abandonados, a estrada encerra sua fase a céu aberto e adentra na montanha em uma espécie de túnel. Eis as galerias escavadas.
Eu já havia estacionado o carro perto das entradas de cavernas o que nos exclui das trilhas e caminhadas de aproximação, mas desta vez havíamos superado todas as expectativas. Estávamos trilhas dentro delas!
Avançamos pelo labirinto subterrâneo alguns minutos até chegarmos a uma sala bastante ampla onde estacionamos os veículos e montamos acampamento. Daquele momento em diante não veríamos mais a luz do dia até o domingo, quando voltaríamos à Paris.
Desta sala parte-se em direção a 2 redes de galerias verticais. Abismos naturais em meio às galerias escavadas. O objetivo da saída era iniciação de novatos ao grupo e à espeleologia. Justamente por este motivo é que havia se escolhido este local onde era possível estar por um bom período continuamente abaixo da terra (2 dias) e com uma certa estrutura possibilitando o fácil acampamento. Com um pouco de caminhada, as galerias acessavam 2 abismos naturais. O Abismo de La Sonnette e o abismo de Grande Viaille.
O grupo era grande (cerca de 15 pessoas) e foi dividido em dois, cada um se dirigindo para um dos abismos.

O Abismo de la Sonnette, mais profundo (-65m) possui logo no início um bonito lance de 30m seguido por outros 3 lances pequenos até o fundo do abismo. O último deles, um belo garrafão com as paredes laterais arredondadas.

Na volta ao acampamento foi preparada uma quente sopa espeleológica (que na verdade não esquentou muito a temperatura) e boa parte da sala foi iluminada a velas. Durante o tempo todo a temperatura da rede subterrânea ficou em torno de 6 graus (muito frio para um mortal brasileiro!).

Obviamente sem tomar banho, fomos dormir. Eu não havia entendido perfeitamente todas as prévias recomendações de pernoite e estava munido apenas de um leve saco-de-dormir tropical e um isolante térmico de promoção.
A noitada nesta temperatura e sob estas condições foi obviamente memorável. Tentando fugir do frio, vesti todas as minhas roupas secas de uma só vez, entrei dentro do sleep e, ainda não satisfeito, tentei me espremer dentro de minha mochila cargueira, ainda seca. Devo ter ganho alguns importantes graus celcius com esta última medida desesperada porém, para minha infelicidade, quando comecei a cochilar (dormir é luxo demais nestas condições) os despertadores tocaram...
No Domingo, ainda doendo de frio depois do café da manhã, resolvi desistir de conhecer o menor abismo e saí para me esquentar e secar minhas roupas (e mochila) no sol. Sábia decisão!

Grand gargai de la Sainte-Victoire - França



St-Antonin - Montagne Ste-Victoire;
Cidade: Aix-en-Provence
Departamento: Alpes de haute Provence;

Visita de treinamento técnico vertical;
27 de Fevereiro de 2005 – Grupo CAF ( Clube Alpin Francaise – contact Richard);

Eis a primeira caverna que efetivamente visitei na França. Após participar de algumas reuniões no CAF (Clube Alpino Frances) mostrando fotos e algumas revistas do Brasil fui convidado a acompanhar uma turma em uma saída de treinamento. Cabe lembrar que fazia pouco tempo que eu estava no país e a comunicação com as pessoas em francês não estava lá grande coisa.
Consegui entender que a caverna ficava no Mont Sant Victoire e que deveríamos nos encontrar em uma avenida, perto da casa em que eu estava hospedado, às 5hs da manhã, em ponto.
O resto, não entendi muito bem mas não poderia deixar de ser detalhes insignificantes.

Na manhã combinada e no local exato encontrei o Richard e o Christofe e outros integrantes do CAF em um tradicional velho furgão branco de espeleólogo, digamos de passagem, carro adequadíssimo à atividade.
Uma meia hora de estrada e já estávamos a beira do maciço de Sant Victoire, uma imponente montanha de calcário completamente exposto com cerca de 800m de altura de sua base a seu cume. O cinza do calcário ainda estava rosado, com as primeiras luzes do dia. Estacionamos o carro há beira da montanha e enquanto descíamos nossas mochilas e corda um dos espeleólogos do grupo aponta para o cume da montanha e, com certo ar de gozação me diz algo assim: “a caverna fica lá encima, bem na pontinha da montanha. Preparado pra subir?”. Tentei sem sucesso me certificar com as outras pessoas do grupo que ele estava brincando mas pelo meu desespero todas confirmaram a informação.

Iniciamos a trilha de subida antes mesmo que eu pudesse me preparar psicologicamente. “Hoje será um dia daqueles!”, pensei comigo mesmo.
A subida, que por si já penante, foi obviamente agravada pelo peso dos equipamentos de vertical, cordas e tudo o mais. Até certo ponto caminhamos sobre o calcário, em trilhas bastante íngremes. Depois, iniciamos vias mais inclinadas e passando a “escalaminhar”.
A beleza era deslumbrante e contribuiu bastante para que o tempo passasse rápido. Na verdade, a subida nem foi tão pesada como eu imaginava (nada como um pessimismo nestas horas!). O clima frio, o céu absolutamente azul e a beleza do lugar compensavam o esforço. As montanhas vizinhas, outrora altas, agora não passavam de pequenos morrotes, lá embaixo.

Cerca de 3 horas depois de iniciarmos a subida já estávamos praticamente no cume. Paramos para comer em um pequeno platô há alguns metros da parte mais alta da montanha. Ao nosso lado as paredes já estavam totalmente verticais. Um pouco acima ficava uma passagem de rocha chamado Arco das Andorinhas e logo a frente do platô, uma boca vertical dava acesso ao interior da montanha. Era enfim o objetivo de nossa subida: o Abismo Garganta de Sant Victoire.
Almoçamos ali, entre uma deslumbrante vista. Segundo os franceses, podíamos sentir a brisa do mar de Marseille, há cerca de 50km a Sul. As vezes um forte vento dava rajadas nervosas. Era o Mistral, que pode atingir enormes velocidades derrubando escaladores desavisados. Após uma boa sessão de queijos e vinhos, perfeito para o lugar, nos equipamos e iniciamos a descida do abismo, agora pela parte interior da montanha.
Maravilha!

Trata-se de um abismo clássico, todo equipado e com diversas escolhas de ancoragem. Dois sucessivos poços acessam o fundo desmoronado de um grande salão. Um fracionamento negativo na metade do segundo lance exige um pouco de técnica do espeleólogo, porém, de forma geral o abismo pode ser considerado fácil.
Algumas galerias bastante ornamentadas nas partes mais profundas. Uma inscrição dos primeiros exploradores e os restos das escadas utilizadas nas primeiras explorações são encontradas no fundo do abismo. Ao chegar na inscrição notamos uma assombrosa coincidência: Estávamos exatamente à 67 anos do dia em que o abismo foi explorado.
No fundo do grande salão ainda podíamos ver os restos das escadas velhas de ferro utilizadas pelos exploradores. Na França não é raro encontrarmos dentro das cavernas restos de equipamentos antigos utilizados em outras épocas e abandonados devido ao peso e dificuldade de levá-los de volta à superfície.

No momento de subida me vi em uma situação um pouco inusitada: um dos espeleólogos, bastante cansado, não conseguiu transpor o fracionamento aéreo e se enroscou entre seus equipamentos e as cordas. Como eu era a pessoa abaixo mais próxima coube a mim prestar o devido socorro. Subi até ele, que estava suspenso na metade do maior lance, há cerca de 40m do fundo. Realizamos uma espécie de contra-peso para conseguir desenroscar o fulano e reconectá-lo à corda de subida. Ele não era tão leve mas confesso que a maior dificuldade não foi de levantá-lo e realizar a manobra mas sim de conseguir explicar em francês, o que eu estava fazendo.

domingo, 24 de agosto de 2008

Projeto Juvenal

Segue aí artigo publicado na revista O Carste sobre o projeto Juvenal.
Acrescentei algumas fotos que não foram para a revista e como aqui temos mais espaço, resolvi colocar.

Abraço!
Daniel Menin


Foi na década de 70 que o Abismo Juvenal foi descoberto e explorado pela primeira vez. Já naquela época, essa cavidade se tornou uma referência na espeleologia nacional uma vez que lá foi atingida a maior profundidade em cavernas do Brasil (-241m). Os trabalhos do CEU (Centro Excursionista Universitário), nesse abismo, foram, anos mais tarde, complementados e detalhados por várias outras expedições e grupos de espeleologia, como o Grupo Bambuí, o GPME, a Trupe Vertical, o GESCAMP além de várias outras investidas de espeleólogos exploradores autônomos. Apesar da importância histórica e dos freqüentes trabalhos de exploração, alguns pontos se mostravam com bastantes dificuldades técnicas de serem atingidos deixando, nos mapas produzidos, grandes pontos de interrogação como pendências a serem um dia, melhor verificadas. Estas dificuldades também contribuíram para que o abismo seja, até hoje, um local pouco freqüentado e de certa forma, bastante intacto.

Logo na entrada, um bonito lance vertical de 20m impede o ingresso de pessoas não devidamente equipadas. A seguir, uma rede de estreitos condutos, com especial atenção ao “buracóide”, filtra os espeleólogos despreparados fazendo desistir aquele menos apto ou menos dedicado à atividade.

Realizado durante os anos de 2001 a 2005, o Projeto Juvenal de Explorações de Caverna trabalhou para desvendar as partes desconhecidas da caverna assim como possíveis interligações com outras cavidades próximas. Composto por três fases distintas, o projeto explorou e mapeou novos condutos do abismo, desvendou algumas pendências dos mapas anteriores e descobriu novas cavernas nas suas proximidades. Trabalhando em parceria com o Museu de Zoologia da USP, o Projeto Juvenal também descobriu fósseis no interior de duas das novas cavernas exploradas.

Na primeira fase, o projeto explorou o entorno do abismo encontrando três outros novos abismos hoje já cadastrados e mapeados; porém, nenhum deles com ligação direta com o Abismo do Juvenal. As outras duas fases se voltaram para a parte interior do abismo, explorando detalhadamente a extremidade esquerda (pelo mapa) de sua grande galeria situada a 120m de profundidade.

Após um belo lance vertical de 40m, dá-se acesso a um amplo conduto onde se pode caminhar pelo piso desmoronado da galeria até um ponto onde ela se torna totalmente vertical, se apresentando como uma enorme parede formada por um abatimento de imensos blocos

Da base desta parede, observa-se o teto a dezenas de metros acima; porém, é impossível avistar a ligação desta parede com o teto dando ampla impressão de continuação. O potencial de prosseguimento dessa grande galeria gerou sempre curiosidade daqueles que exploraram o abismo.

Agora entende-se o motivo pelo qual nenhum dos mapas anteriores ousou “ fechar” a galeria, mas, sim deixar um grande espaço em aberto para próximas incursões. A imaginação de uma continuação da caverna levando a novos condutos, galerias, salões e até possíveis ligações a outros sistemas subterrâneos da região seduz e atrai os espeleólogos que vêem os mapas ou que passaram pelo local. Porém, transpor os lances verticais em questão se apresenta igualmente desafiante e assombroso. E foi exatamente essa escalada o objetivo principal das incursões que se seguiram durante o projeto.
Ainda antes de iniciar a fase da escalada foi descoberta uma fenda na lateral esquerda da galeria. Com 15 metros de altura, a fenda foi escalada e topografada; porém, não foi encontrada nenhuma ligação que resultasse em grandes descobertas.

A segunda fase do projeto foi marcada pelos trabalhos paleontológicos nas cavernas ao redor do Juvenal e também pelo início do trabalho de escalada do final da grande galeria. Pelo grau de dificuldade, a escalada foi iniciada com técnicas artificiais adaptadas, ou seja, a ascensão foi permitida através da incisão de parafusos de aço instalados na parede para servir como apoio ao escalador.





A rocha foi perfurada manualmente e os parafusos instalados a golpes de martelo. Durante o desenvolvimento dessa fase a empresa BOSCH cedeu um martelo de perfuração à bateria (furadeira profissional) o que otimizou bastante (apesar do peso) o trabalho de escalada.

Técnicas de escalada adaptadas à espeleologia com corda dinâmica, spits, chapeletas e segurança a partir de baixo foram utilizadas proporcionando maior conforto e segurança àqueles que desenvolviam as vias.
Foram necessárias três incursões totalizando dez horas de escalada para atingirmos um platô a aproximadamente quinze metros de altura. Neste ponto encerramos a segunda fase do projeto, vislumbrando uma condição mais fácil de escalada na próxima fase, quando pretendíamos atingir o ponto mais alto da galeria.

Foi durante essas incursões de duro trabalho de escalada, que um dos participantes do projeto, desobstruindo alguns blocos desmoronados no solo, descobriu uma passagem lateral ganhando acesso a uma pequena galeria que o levou até um novo salão. A princípio, este salão apresentava-se com um alto potencial de prosseguimento uma vez que tinha um desenvolvimento lateral, como se contornasse a parede de blocos por baixo e pelo lado. Explorado e topografado o salão acaba em uma estreita fenda onde além de escorrimento de calcita e muita argila, foram encontrados alguns ossos de morcego o que pode apontar a existência de alguma saída não muito distante.

Porém esta área apresenta-se como bastante irregular e instável o que dificultou os trabalhos de exploração ou a utilização de qualquer técnica de desobstrução.

Foi na última incursão durante a realização das fotos que foi encontrado um morcego solitário, repousando na ponta de uma estalactite. Assustado com a presença de um ser estranho, ele sem titubear voou diretamente em direção à fenda.

Foi na terceira e última fase do projeto que demos continuação ao penível trabalho de escalada. A presença de um escalador experiente na equipe possibilitou uma maior rapidez nas conquistas; mas, também, nos apresentou rapidamente os problemas que enfrentaríamos dali em diante. Ambiente completamente instável, repleto de argila e pequenos blocos. Éramos ali alvos fáceis de contínuos desmoronamentos. Enquanto a pessoa de cima se movia, as outras se abrigavam onde pudessem de um verdadeiro bombardeio.

Como em um campo de batalha não somente nós, mas também as cordas já instaladas, poderiam ser danificadas pelas pedras que caiam. No decorrer das investidas já tínhamos marcados os pontos de abrigo onde cada espeleólogo deveria se proteger. Outra dificuldade era a de encontrar pontos seguros para as bases de segurança e ancoragens. Impossível encontrar ancoragens naturais em um aglomerado vertical de blocos e argila. As paredes também eram bastante fissuradas e igualmente instáveis.Onde fixar um spit ?

O escalador Gustavo foi obrigado a fazer investidas maiores que o de costume até encontrar pontos onde pudesse equipar uma segurança fixa mais confiável. Ao chegar a alguns metros do teto observamos a impossibilidade de prosseguimento da galeria naquele sentido, porém à nossa frente, um grande arco se abria com a possibilidade de condutos superiores. A cerca de 60 metros de altura e fixando mais duas bases de segurança, contornamos horizontalmente a parede do grande salão atingindo o arco onde infelizmente não encontramos nenhum tipo de prosseguimento. Foram realizadas mais duas incursões a esta área, sendo uma para toda a topografia e outra para a recuperação do equipamento deixado nas outras investidas.
Assim, demos por concluído o trabalho no alto da galeria principal por termos chegado ao suposto fim desta grande galeria. Porém, nunca poderemos afirmar categoricamente que não existe continuação; apenas não a encontramos.
Ao todo, as estatísticas do projeto somam doze dias de trabalho no entorno do abismo, duzentos e onze horas de atividades dentro dele, o envolvimento de dezenove pessoas, oitenta e sete metros de paredes escaladas no seu interior, duzentos e setenta metros de cordas instaladas, quilos e mais quilos de equipamentos e muito, mas muito suor e esforço dedicado...
Esforço, aliás, que perde sua medida diante de tamanha paixão à essa atividade chamada espeleologia.

sábado, 2 de agosto de 2008

Abismos no Nordeste (Gruta do pe do Morro, BA e Buraco das Vespas, RN)

Antes que eu me esqueça ou não tenha mais tempo, vou publicar aqui 2 mapinhas de abismos que exploramos no Nordeste durante uma expedição em 2004.
Um deles é na Bahia, região de Paripiranga, do nosso amigo orkuteiro Fernando!
O outro fica no RN, próximo à Felipe Guerra. Neste segundo fomos levados pelo Rostand, historiador local.

Em ambas as viagens estavamos em uma equipe não muito adepta às explorações verticais, portanto, acabei explorando e croquisando estes abismos sozinho. O apoio moral veio da Yuri, que ficou na entrada da caverna, caso algo acontecesse.

No RN foi mais fácil, pois o abismo era menor.
Na Bahia acabei deixando condutos em aberto pois não quis forçar a passagem e me afastar muito estando sozinho.

As fotos foram tiradas em esquema Ninja: colocando a máquina no disparador automático e correndo para aparecer!




sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Alguns Absimos no Lageado

Desde a primeira vez em que estive no PETAR me apaixonei pela região do Lageado. Não é a toa que há anos batemos mato naquela área topografando, retopografando e descobrindo várias cavernas. O Projeto Juvenal, de 2001 a 2005 só veio adicionar mais tempero nessa relação. Me aproximei de outros excelentes espeleologos e conheci melhor um dos mais profundos abismos do Brasil.
Mas não é sobre o Juvenal que escrevo a seguir, mas sim sobre algumas cavernas que, durante estes anos, foram encontradas, perdidas, reencontradas, perdidas novamente...
Algumas delas foram cadastradas, outras ficaram somente na referência. Muitas foram realmente mapeadas, outras, ainda estão em mapeamento e ainda outras, talvez nunca cheguem a ser mapeadas.

Com frequencia outras pessoas batem mato e reencontram cavernas já exploradas e mapeadas. Isto é comum e por isto mesmo devemos ter bastante cautela para não reescrevermos uma história já existente. Mas sem dúvida nenhuma, a pior das hipóteses é quando a caverna é descoberta, explorada, mapeada e depois de anos e anos o trabalho simplesmente se perde. E isto acontece ou proque surgem novas tecnologias que deixam os registros anteriores obsoletos ou porque o autor (ou grupo), por descaso acaba perdendo o trabalho em alguma gaveta ou (mais modernamente) pasta esquecida...

Dentro do grupo (GPME), por mais que prezávamos pela topografia imediata, no momento da descoberta ou da exploração de um abismo, por exemplo, nem sempre isto acontece e mapas que poderiam existir ficam para outras ocasiões.

Pois vamos então parar de lero-lero e deixar aqui alguns mapas desta região. Resolvi postar mapas pequenos e que tenho aqui comigo. Acontece que nos últimos anos estivemos bem ativos na região não somente retomando trabalhos antigos mas começando novos e alguns mapas ainda não foram publicados. Por hora, coloco abaixo mapas de alguns abismos que recentemente estivemos.

Enjoy!

Este aqui é de um abisminho (ainda sem nome) que descemos em 2006, acho. Eu havia passado por ele há uns 6 ou 7 anos e coincidentemente o Marcos e o Dennys também. Pois após N vezes que combinamos de voltar para descer e mapear acabamos conseguindo fazê-lo somente em 2006. Como de costume descemos equipando e explorando e subimos mapeando posi estávamos somente em 3 pessoas (Eu a Re e o Marcos... o Dennys furou).

Nesta mesma viagem, acabamos encontrando mais um abismo, bem pertinho deste. Trata-se de uma fenda, longa e bem promissora. Até acho que era esse que eu tinha vindo na ocasião dos tempos remotos e não o anterior.
Descemos equipando e subimos mapeando. Apesar de promissor, o abismo fechou com apenas cerca de 65m de profundidade. Nenhum vestígio de presença humana. Nem pegadas, nem spits batidos...


Ambos estes 2 abismos ficam bem próximos à estrada do lageado, menos de 1km após o trevo com a estrada Bairro de Serra-Apiaí.
Caverna de Pascoa:

A caverna de Pascoa foi uma boa dica do Ditinho, guia e amigo do PETAR. Ao saber que estávamos trabalhando na área da Passoca o Dito nos contou que havia descido um abismo, no fim da caverna, e encontrado uma pequena passagem. Tão pequena, que devido à sua "falta de forma" não conseguiu passar deixando a suposta continuação da caverna para um espelelogo mais "magrelo".
Marcamos uma viagem para mapear a caverna e tentar encontrar a tal passagem pequena.


Logo na primeira investida topografamos boa parte da gruta. Na segunda investida, esta com 2 equipes descemos o abismo e topografamos boa parte das galerias inferiores. Em uma terceira viagem eu e a Renata, em 2 dias de atividades, averiguamos todas as possíveis continuações intermediárias (entre o stor superior e o fundo do abismo) em um complexo vertical cheio de passagens e condutos apertados.


Em mais uma viagem, agora em um feriadão prolongado, conseguimos unir uma excelente equipe vertical e vencemos o extremo Norte da caverna e em uma série de escaladas (cerca de 40m escalados). Foi desta vez, através de uma fenda e abaixo de uma boa chuva que, eu e o Renato encontramos um grande salão e... outra boca! Mapeamos tudo neste feriado mesmo. Para maiores detalhes busque neste Blog mesmo os relatos da Pascoa.

Segue o mapa finalizado desta bela travessia.


Outros mapas da região estão espalhados pelo Blog ou em outras postagens ou junto aos relatos de trabalhos.

Mapa da Agenor

Opa! Encontramos aqui no Blog, diversos relatos, além do resumo das atividades nos 2 anos de trabalho na caverna do Agenor. Mas estava faltando algo... não havíamos colocado o resultado disto tudo.

Pois aí o primeiro mapa, quando descobrimos a caverna ...


... e o resultado final, depois de muito suor, dezenas de viagens e muitos e muitos dias subterrâneos.

sábado, 10 de maio de 2008

Série Tecnica - Amarragens perigosas com cordelete de Dynema

Segue abaixo o primeiro artigo da Serie Técnica aqui no Blog.

Trata-se de exemplos de ancoragens perigosas realizadas com o uso de alguns equipamentos considerados específicos para Técnicas Leves (Thecniques Legeres). É sabido que hoje na França as "Thecniques Legeres" estão sendo mais difundidas e padronizadas pela própria Escola Francesa. Este fato é uma resposta da própria Federação à popularidade de alguns equipamento e a certa "massificação" na utilização dos mesmos. É certo que, a utilização sem o devido conhecimento das técnicas e dos limites dos equipamentos torna-se bastante perigosa.
As fotos foram tiradas em alguns abismos de grande fluxo de espeleólogos, durante saídas de avaliação técnica na França. Entre estes equipamentos "leves" está o resistente cordelete de Dynema (vide outras postagens sobre este material).
Utilizando corretamente, as ancoragens com este cordelete são seguras e práticas pois o cordelete tem alta resistencia a abrasão e em muitos casos substitui as tradicionais fitas de alta resistência. Porém existem diversos cuidados extra que devemos tomar quando utilizamos o Dynema.

A intenção desta postagem é colocar aqui algumas imagens que pude vivenciar de outros espeleólogos usando e abusando destas técnicas porém, com baixíssima margem de segurança.

Desta forma, as fotos abaixo servem como exemplos de práticas para nunca repetirmos ou copiarmos.

Nesta imagem o espeleólogo duplicou a ancoragem usando 2 pontos móveis (Nut) para fixar o cordelete. Ao invés de produzir 2 alças com o cordelete, ele usou um cordelete simples diminuindo bastante a resistência do sistema. Em caso de soltura de um dos pontos móveis a margem de segurança no segundo ponto estaria sériamente reduzida.


Já nesta imagem ao lado, a única coisa dita "correta" pelos padrões destas técnicas é o nó usado na corda (balsa com seio duplo, bom para a conexão do longe).
A amarragem não está fixada por um anel duplo de cordelete, o ângulo está aberto demais para uma ancoragem dupla e os pontos de fixação são móveis. A soma destes fatores torna a acoragem extremamente arriscada!!!






Ao lado, outra ancoragem dupla porém perigosa:

Falha 1: Amarragem com cordele simples e não duplo. Recomenda-se usá-lo sempre através de um anel duplicando assim sua resistência. Não foi por falta de cordele pois existe bastante sobra à esquerda.

Falha 2: Este tipo de mosquetão (sem trava) não é recomendável para ancoragens, mas apenas para usar nas extremidade do longe. Se o problema fosse peso, seria suficiente usar qualquer mosquetão de trava em Zycral.
Uma saída rapida para tornar a ancoragem mais segura seria descartar este cordelete e usar as alças do nó para produzir a ancoragem dupla dividindo o penso entre as argolas conectadas nas chapeletas. Ao utilizar o nó balsa com seio duplo em ponta de corda faz se necessário fazer um bloqueio com a pomta da corda.

terça-feira, 25 de março de 2008

Gruta Agenor - Resumo atividades 2006/2007

Resumo das atividades:

- 10/2006: Descoberta a entrada da caverna e topografados 150m pelo caminho principal até atingirmos o Salão Pegáguas.

- 11/2006: Topografia do o Salão Pagáguas e escalada do fim deste salão. Topografia do conduto das aranhas até o lago dos bichos. Encontrada uma serpente Jararacuçu em um trecho de teto-baixo no início do conduto dos bichos. Topografia do Setor do Barbeiro-Múmia e desobstrução da linha 6 (4m cavados) possibilitando a descoberta do salão Banco-Central.

- 11/2006: O conduto principal foi retopografado. Iniciado a topografia de algumas galerias labirínticas próximas a entrada da caverna. Nesta viagem um espeleólogo deslocou seu ombro dentro da caverna (felizmente próximo à saída).

- 02/2007: Realizada a escalada do Banco-Central acessando as galerias superiores e topografado até a Sala de Jantar. Deixadas muitas galerias em aberto sem topografia nem exploração. Uma forte chuva ocasionou o sifonamento da passagem desobstruída (linha 6) impedindo nossa passagem. Foram topografados outros condutos em aberto próximos à entrada.

- 03/2007: Com equipes de fundo foi topografado o Salão Corneto e as principais galerias do setor. Topografamos o superespreme. Deixamos pendentes várias passagens labirínticas.

- 04/2007: Em 2 equipes terminamos a topografia das áreas labirínticas e do Setor Corneto acessando ainda outros níveis diferentes e labirínticos. Existem erros de fechamento nas bases JH devido à interferência de lanterna.

- 05/2007: Em trabalho de fechamento das pendências decobrimos a passagem para toda uma nova rede incluindo a Rede de Verne. Estávamos decobrindo a maior área em volume da caverna. Topografamos em apenas 1 dia e em 2 equipes cerca de 1km de novas galerias.

- 05/2007: Voltamos a rede de Verne e topografamos a área inferior ao grande desmoronamento. Deixamos em aberto o ralo. Também equipamos e descemos o poção topografando sua continuação.

- 07/2007: Voltamos para descer o Ralo abaixo do grande desmoronamento na Rede Verna e fazer algumas fotos. Nenhuma das pendências verificadas na atividade continuaram e acabamos não topografando nada.

- 09/2007: Topografamos novos condutos próximo ao Baixão e descobrimos o setor Tobogã do Demo por onde acessamos mais um lago subterrâneo.

- 09/2007: Fechamos outras pendências em aberto e descemos os poços do Baixão, que estava
completamente obstruídos.

Topografia: Daniel Menin (15), Renata Andrade (15), Renato Dias (5), Leda Zogbi (4), Adilson Macari (3), Carlos Eduardo Martins (3), Cesar Simões (3), Elisabeth Kinguti (3), Flavio Candeias (3), Gelson Igual (3), Marcos Silvério (3), Maria Cristina Albuquerque (3), Allan Callux (2), Carlos Maldaner (2), Claudio Genthner (2), Daisy Oliveira (2), Dennys Corbo (2), Erica Luna (2), Ericson Igual (2), Fernanda Almeida (2), Francisco Sarpa Lima (2), Jânio (2), Renata Shimura (2), Ademir (1), Bia Boucinhas (1), Camila Ribas (1), Carlos Grohmann (1), Ingo Wahnfried (1), Sylvio Jr. (1), Toni Cavalheiro (1).
Participações: João Mallet (2), Luis Rocha (GEEP-Açungui) (1), “Rato” (EGRIC) (1).

Feriado 12 de outubro de 2007 - Passoca, topografia após o sifão

por Daniel Menin

Como não poderia ser mais adequado, neste feriado de dia das crianças de 2007 resolvemos nos dar de presente mais uma viagem ao PETAR. O GPME foi dividido em 2 turmas com atividades e locais diferentes. A primeira turma rumou para o parque de Intervales, acompanhando um casal de espeleólogos ingleses que passavam por uma temporada no Brasil. A segunda ficou sediada no Bairro da Serra (Casa da Cris). Esta turma estava formada por: Daniel, Renata, Gelson, Cae, Daisy Bedu e Cristina Albuquerque e teve como focos de trabalho o projeto Passoca e Arredores e o núcleo Santana (Santana e prospecção).
Na Sexta -Feira, dia 12, uma equipe formada por mim (Daniel), Renata, Caê e Bedu foi para a caverna da Passoca averiguar o sifão (mais uma vez!). Eu, a Renata e o Caê estávamos preparados para descer e topografar a caverna caso passássemos o sifão. O Bedu estava apenas como apoio moral para nossa descida. Caso o sifão estivesse mais uma vez cheio então o objetivo era bater mato e ele viria junto.




Desci primeiro o abismo seguido pelo Cae enquanto que a Renata e o Bedu aguardavam na base da maior descida. Uma vez lá embaixo corremos até o sifão para averiguar se o mesmo possibilitava a passagem. Chegando próximo ao sifão já era possível ter uma idéia de como estava a situação: “Está com água mais uma vez! Droga!” (não exatamente nestas palavras). Chegando um pouco mais próximo: “Pensando bem tem pouca água!”. Averiguando mais de perto ainda... “Beleza! Acho que dá para passar!”. Entrando efetivamente na lama: “Dá para passar!!!”. Enfim, na quarta tentativa (acho) e exatamente um ano depois de termos passado o sifão pela primeira vez ele estava baixo o suficiente para passarmos novamente e topografarmos a continuação! Vale lembrar que o Michel Le Bret já havia passado este sifão há algumas década atrás. Na ocasião ele também mapeou esta parte da caverna porém, sem muitos detalhes. Anos depois o GEGEO retopografou esta caverna, mas não ultrapassou o sifão ficando o mapa faltando esta continuação. O Caê voltou correndo até o grande salão para avisar a Renata que iríamos passar o sifão e continuar a topografia da caverna. A Renata desceu trazendo o resto dos equipamentos enquanto que o Bedu voltou à casa do Sr Agenor para uma longa seção de RP. O apoio na base da descida não seria mais necessário e esperar por ali por um período relativamente longo seria ruim... Passamos o sifão topografando e logo acessamos um grande conduto de continuação. O mergulho do calcário forma um teto inclinado. À esquerda, um teto bem alto com outros condutos e algumas continuações. À direita outros condutos continuam porém através de bastante teto-baixo. O solo é repleto de seixos em um leito de rio seco. Galhos, troncos e um pedaço de blusa vermelha indicam que a água, ocasionalmente acessa esse conduto reativando o rio. Topografamos o caminho principal e a maioria das laterais. Uma das laterias se revelou em um belo salão fóssil não colocado no mapa do Le Bret. Topografamos a maior parte da caverna pós-sifão em cerca de 340m de condutos na sua maioria de teto-baixo. Com exceção do grande conduto do início esta parte da caverna é formada por largos condutos inclinados e estreitos dificultando o acesso à todas as laterais e transformando a topografia em um trabalho de ralação e bem cansativo. Horas depois o cansaço bateu e resolvemos voltar (ainda teria que repassar o sifão e subir o abismo!).


Deixamos algumas passagens em aberto, entre elas um conduto superior, um quebra-corpo, uma lateral de teto-baixo e uma promissora fenda. Esta última é bastante longa mas muito apertada. Em uma próxima viagem podemos averigua novamente a passagem do sifão para continuar os trabalhos ou deixar a empreitada para o dia das crianças de 2008. De qualquer forma já temos material suficiente para produzir o mapa e até publicá-lo se for o caso. Vale lembrar que temos já algumas centenas de metros a mais que os mapas anteriores além da descoberta de alguns condutos que estavam fechados nos outros mapas.




Acima vemos a área topografada nesta viagem e abaixo o mapa na sua última versão. Já estamos com várias áreas não topografadas ou exploradas por Michel Le Bret e também com bastante precisão e riquesa de detalhes.

Depois vou postar um histórico desta caverna com as expedições e mapeamentos realizados em décadas atrás.












No Sábado a equipe foi dividida. Enquanto que eu e a Renata fomo verificar umas pendências na Santana, o Caê, a Daisy, o Bedu, a Cris e o Gelson foram prospectar uma caverna que o Caê conhecia (a cerca de 10 anos atrás...) mas não encontraram a dita-cuja.
No Domingo uma parte da equipe voltou para SP enquanto que a outra foi bater mato na região da Passoca (Daniel , Renata, Cris e Gelson). O objetivo era chegar até uma área onde possívelmente estaríamos sobre o segundo rio da caverna. Encontramos, através de uma pequena passagem, um belo abismo mas, após descer cerca de 15m o mesmo não apresentou possibilidades de continuação. Tivemos que voltar logo devido ao tempo curto. Em próximas viagens deveremos procurar outros buracos na região.