"E impelido pela minha ávida vontade, imaginando poder contemplar a grande abundância de formas várias e estranhas criadas pela artificiosa natureza, enredado pelos sombrios rochedos cheguei à entrada de uma grande caverna, diante da qual permaneci tão estupefato quanto ignorante dessas coisas. Com as costas curvadas em arco, a mão cansada e firme sobre o joelho, procurei, com a mão direita, fazer sombra aos olhos comprimidos, curvando-me cá e lá, para ver se conseguia discernir alguma coisa lá dentro, o que me era impedido pela grande escuridão ali reinante. Assim permanecendo, subitamente brotaram em mim duas coisas: medo e desejo; medo da ameaçadora e escura caverna, desejo de poder contemplar lá dentro algo que me fosse miraculoso"

Leonardo Da Vinci
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segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Abismo Los Três Amigos revela novas peças de um grande quebra-cabeça


27 de Agosto de 2018. 


Escrevo este relato ainda me recuperando da última incursão ao Abismo Los 3 Amigos.

O objetivo desta viagem era trabalhar no extremo Oeste da caverna, região mais próxima às cavernas João Dias e Ribeirãozinho II. Existiam pendências nas duas direções do conduto de rio encontrado na viagem anterior (montante e jusante). Uma delas voltava em direção a um grande salão fóssil, a sala do chuveirão. A outra consistia em uma escalada no sentido principal do desenvolvimento da caverna, em direção à Ribeirãozinho II. Entre estes dois extremos, alguns condutos superiores de fácil acesso haviam sido deixados para trás na viagem anterior e queríamos desta vez explorar.

Havíamos ainda como incumbência trocar as cordas entre as cotas -40 e -80m da entrada, pois estavam duras e enlameadas. Outra corda a ser trocada era a de descida entre o grande salão do voo livre e o conduto de rio, instalada em 2006 na ocasião da primeira descida.

Por conta destas trocas e de mais equipamentos de topografia, estávamos um pouco mais carregados do que de costume.
Prevíamos que a atividade seria longa. Por isto combinamos com o Zé de nos buscar de trator na trilha as 7h da manhã do domingo.

Sexta-feira dormimos em sua casa, depois de uma noite de muita chuva e fortes trovoadas. A logística de saída no Sábado de manhã foi rápida. Como a estrada de Buenos estava em boas condições, boa parte dela foi feita de trator e as 10h45 já estávamos descendo os primeiros lances de corda.

As trocas de corda na descida ocorreram sem problemas. A maior dificuldade foi abrir os mosquetões que com o tempo dentro da gruta apresentavam rosca muito dura. A boa desenvoltura de todos no vertical ajudou e logo estávamos fazendo um primeiro lanche na base do salão do voo livre. A corda do rio foi trocada sem problemas e um fracionamento instalado onde antes havia apenas um desvio.

As 14h da tarde nos encontrávamos todos reunidos no extremo Oeste da caverna, já separando as equipes de topografia. Uma parte, composta por Thomas (Vagalume), Ives e Adelino, seguiram à jusante do rio por um conduto amplo em direção à sala do chuveirão. A outra, composta por mim (Daniel), Rejeito, Bia e Diego seguimos em direção à montante onde, na viagem anterior, havíamos interrompido a topografia.

Após uma pequena escalada, acessamos um conduto fóssil contornando por cima o desmoronamento de onde o rio ressurgia. Nossa felicidade não durou muito tempo e logo acessamos uma área muito instável, com blocos e lama.
Após uma descida de corda entre blocos nos vimos de novo no desmoronamento. Com passagens estreitas entre blocos tanto na água quanto por cima, forçamos por cerca de duas horas alguma passagem. Uma leve corrente de ar, insetos e sedimentos (galhos) indicava que poderíamos estar perto de alguma saída, mas tivemos que desistir após muitas tentativas frustradas.
No retorno fizemos a topografia por um caminho superior conectando esta nova parte com o conduto fóssil do chuveiro. Resolvemos descansar em uma sala bastante confortável, próximo da descida para o rio e logo que paramos escutamos as vozes da outra voltando de sua topografia.
Após o almoço, a primeira equipe decidiu iniciar o longo caminho de volta enquanto nós faríamos algumas fotos do grande salão ali ao lado e verificaríamos alguma outra pendência no caminho de volta. E foi na sala do chuveiro que decidimos concluir uma escalada realizada em 2006 por mim e pelo Brandi no final da topografia daquela ocasião. Se tratava de uma íngreme subida próximo à parede direita da sala, se desenvolvendo bem em direção à caverna João Dias. Lembro na ocasião de termos subido e verificado uma continuidade, mas como estávamos cansados acabamos deixando a exploração para outra ocasião.

Desta vez tínhamos mais tempo e energia para continuar e eu havia separado esta pendência caso o conduto de rio não evoluísse. Enquanto a Bia descansava no meio da sala, eu, Rejeito e Diego rumamos por uma inclinada subida seguindo o rastro de 2006. Apesar da inclinação e impressionante desnível até a parte mais baixa da sala, o piso não estava escorregadio e conseguimos rapidamente vencer as partes mais difíceis. Chegamos a condutos horizontais e extremamente ornamentados. Uma ampla sala com mites grandes e várias possibilidades de continuação. Deixamos algumas partes difíceis ou perigosas e seguimos pelos caminhos mais evidentes. Acessamos uma região muito frágil e belíssima. Canudos de 3 a 4m e helictites ornamentavam uma ampla área. Foi o auge do dia em termos de descobertas e explorações. Mapeamos por cerca de duas horas acessando no final mais uma grande sala de onde pudemos nos comunicar com a Bia mais de 50m abaixo, por um terraço. Foi um alívio uma vez que não havíamos levado mochila e nossas baterias principais estavam acabando.Uma vez terminada a topografia tomamos o caminho de volta ao salão do voo livre.

No retorno, verifiquei ainda pelo menos um ponto de acesso à grandes galerias fósseis pelo caminho. Escaladas que exigirão o auxílio de equipagem móvel ou artificial e uma logística exclusiva para esta exploração...

A volta foi lenta e cansativa e por volta das 2h da manhã nos juntamos à primeira equipe na "sala de jantar". Estava muito frio e mesmo com mantas térmicas, isolantes e velas para a criação de "pontos quentes", tivemos dificuldade de dormir ou descansar como prevíamos.

As 5h da manhã desistimos de dormir e iniciamos a difícil tarefa de nos recompor para a saída da caverna. Os últimos 40m verticais foram em meio a uma espécie de lamentação coletiva de cansaço e frio. Mesmo fora da caverna estava difícil de esperar. Enquanto o dia começava a clarear um vento soprava forte de dentro da caverna e uma névoa da manhã permeava as árvores na trilha.

Encontramos o Zè na última subida da trilha, um pouco antes de cruzar o Rio Pilões.
Depois de um banho quente, lá pelas 9h da manhã, desmaiei dentro do saco de dormir para alguns momentos de descanso antes de pegar a estrada de volta a SP.

Foram 20 horas de atividade dentro da caverna e cerca de 400m mapeados de novas galerias. Em breve deveremos ter o mapa contemplando estas partes e datas programadas para continuar a desvendar este gigante quebra-cabeça.

Separação de alguns equipamentos antes da incursão: 100m de cordas (20 para entrada e 80 para trocas), fitas, mosquetões, batedor, kits de topografia, cozinha, etc
Equipe limpinha Sábado de manhã - Agosto 2018
Faltou o Ives que nos encontrou na trilha


Reencontro das duas equipes após primeiro turno de topografias

Reencontro das duas equipes após primeiro turno de topografias

Salão do encontro, último grande salão no extremo Oeste da caverna.

Chegada da equipe no trator, Domingo de manhã. Sujos, com frio, exaustos e felizes.
(Adelino levantou só pra foto)
À direita da imagem as linhas de trena da topografia desta viagem. Detalhe para o salão superior e condutos próximo à superfície. A topografia indica cerca de 30m apenas.


quinta-feira, 21 de junho de 2018

Desenhado o perfil do Abismo Los 3 Amigos

Há doze anos era descoberta aquela que seria uma das cavernas mais desafiadoras dos últimos tempos na espeleologia brasileira.

O Abismo Los 3 Amigos, localizado na região de Bulha D'água no PETAR, apresenta um desnível de 193m. Esta profundidade não o coloca entre as dez mais profundas cavernas do país, entretanto suas grandes dimensões certamente o classificam em posição de destaque entre as mais volumosas.

A única entrada conhecida é um buraco vertical, encontrado após 1h30 de trilha no interminável sobe-desce de serras da região. O acesso tem ficado a cada dia mais difícil uma vez que as estradas antigas, sem manutenção, são tomadas pela mata atlântica e desaparecem.

De dentro do buraco, uma forte corrente de vento sopra balançando a vegetação e espirrando para fora folhas que eventualmente caiam pela entrada da caverna.

Por dezenas de metros os espeleólogos descem por cordas tendo que vencer os mais diferentes tipos de obstáculos. Passagens escorregadias, cordas enlameadas, fracionamentos difíceis. Nada que já não seja esperado para uma caverna vertical em plena exploração. A maior surpresa, no entanto, está a 80m verticais da entrada: um lance livre de 50m em corda no meio de um gigante salão dá acesso a um conduto de rio de grandes proporções. Com uma média de 30m de diâmetro por mais de 40 de altura, o conduto se estende para os dois lados não estando ainda por completo explorado.

Após anos de dedicação externa em busca de novas entradas ou conexões com cavernas do entorno, as tentativas foram se exaurindo e as investidas voltaram a ser através das galerias verticais. Em 2017 uma investida deu manutenção às cordas e equipamentos deixados no interior da caverna e em 2018 novas viagens estão sendo organizadas para continuidade das explorações e mapeamento.

No final de semana de 16 e 17 de Junho estivemos novamente na caverna. Com as partes horizontais exploradas já mapeadas, fazia-se necessária mais uma ida para com calma redesenhar o perfil vertical da descida. Com esta finalidade, três espeleólogos estiveram na gruta descendo até a cota de -190m. 

Após acessar o grande salão, a equipe realizou algumas fotos e - por não ter encontrado o caminho da última descida para o rio - seguiu pelo grande conduto fóssil à Leste, sentido montante. Caminhar neste conduto é difícil devido às grandes dimensões dos blocos e desníveis, qualquer deslocamento demanda tempo e calma. Uma das laterais em aberto foi checada e a equipe tomou a decisão de voltar.

Do momento de entrada até a saída da gruta foram necessárias mais de 13h de atividade. A equipe entrou na caverna as 12h30 do Sábado e saiu as 2h do Domingo. 

Com 1h30 de trilha, chegamos à casa de pesquisa as 3h30 da manhã debaixo de uma garoa fraca e um frio intenso...

O mapa, já desenhado, está em constante evolução e a cada viagem uma nova área é adicionada ao documento.


Texto e fotos: Daniel Menin

Equipe antes da atividade: descansados...

1h de trator até chegar à casa de pesquisa. Chuva e frio foram uma constante.
Trilha aberta, mas com muita lama e umidade

A -140m de profundidade está a Grande Sala, dela um enorme conduto de rio segue parcialmente explorado.

Grande sala,  -140m de desnível

Parada para abastecimento dos estômagos.
Sem muito tempo, mas foi possível fazer algumas fotos da sala a -140m
O objetivo desta atividade foi fazer o desenho de toda descida até o salão. Dever cumprido.

Equipe recém chegada à casa de pesquisa: 3h30 da manhã...



Mapa em constante evolução: Grupo Bambuí de Pesquisas Espeleológicas.







quarta-feira, 23 de maio de 2018

Travessia da Caverna Ouro Grosso

Texto: Lucas Padoan (Rejeito)
Fotos: Daniel Menin

A visitação da caverna Ouro Grosso, um dos maiores abismos do Brasil, foi organizada pelo XXI Epeleo + Petar 60 Anos e ocorreu na última quarta-feira (16 de maio de 2018). Participaram 13 espeleólogas e espeleólogos, que ao longo de 9 horas e 30 minutos percorreram toda a caverna, iniciando a travessia pela principal dolina de acesso, após cerca de 1 hora de caminhada pela mata morro acima. O percurso foi realizado pela via vertical seca, com acesso ao 2º garrafão, e pela galeria do rio até a ressurgência final da gruta.

A travessia da caverna Ouro Grosso foi organizada pelos espeleólogos Lucas Padoan e Henrique Albuquerque (GGeo), coordenada tecnicamente pelos espeleólogos Diego Ferreira (UPE) e Irineu Ramos (guia local) e documentada através de fotografia pelo espeleólogo Daniel Menin (GBPE). Participou como estagiário na travessia o espeleólogo e guia turístico local Alex Sandro Rodrigues. 

Um dia antes da saída de campo foi realizado no ginásio esportivo do bairro da Serra um teste de proficiência prévio em espeleologia vertical com todos os candidatos à travessia, a fim de priorizar a segurança da atividade e garantir que todas as pessoas envolvidas na travessia teriam domínio das técnicas básicas de progressão em corda. Muitos dos participantes tinham pouca experiência em abismos longos como a caverna Ouro Grosso e, mesmo assim, toda a equipe teve um excelente desempenho durante a travessia da gruta, respeitando todas as instruções de segurança apontadas pela equipe de organização e aplicando os procedimentos corretos de progressão em corda. A travessia também foi muito facilitada pela reequipagem do abismo, executada recentemente pelo 1º Simulado de Espeleoresgate de São Paulo (4 a 6 de maio de 2018). 

Acreditamos que esse bom resultado é fruto da postura da organização em priorizar as boas práticas de segurança, reunir uma equipe de espeleologia experiente e exigir dos participantes da travessia um bom preparo técnico. 

O GGeo agradece a todas e todos os envolvidos na travessia da caverna Ouro Grosso por essa atividade bem sucedida e que, certamente, representa uma experiência muito positiva e marcante! 













terça-feira, 8 de novembro de 2016

Retomados os trabalhos no abismo Los três amigos

Nos dias 5 e 6 de Novembro, 8 espeleólogos do Grupo Bambuí de Pesquisas Espeleológicas estiveram no abismo para reequipar parte da descida vertical. Com mais de 200m de desnível e inúmeras passagens por corda, esta é até hoje a única entrada conhecida para uma vasta rede de grandes galerias, ainda parcialmente exploradas. 

Devido a dificuldade de acesso através do abismo, durante anos as equipes se dedicaram em encontrar entradas alternativas, mas sem sucesso. As cavernas Ribeirãozinho III e João Dias, que representam o sumidouro e a ressurgência do mesmo rio subterrâneo encontrado no abismo, foram detalhadamente verificadas. Escaladas subterrâneas foram realizadas. Tentativas em longos desmoronamentos, desobstrução e passagens submersas também frustraram a conexão deixando como única opção o acesso ao abismo através de sua já conhecida rede de galerias verticais.

Sem mais opções alternativas, o objetivo desta viagem de Novembro foi preparar o abismo para as próximas investidas sem que as equipes de exploradores percam tempo com equipagem. A trilha estava fechada, o que dificultou um pouco encontrar uma entrada de cerca de dois metros em meio a uma densa floresta tropical e íngremes terrenos. A antiga estrada que aproximava o trator do início da trilha, sem manutenção, não pôde ser utilizada e a equipe fez todo percurso a pé, abrindo uma trilha por cerca de 2h.

Parabolts, chapeletas maiores, novas cordas e mosquetões foram instalados até a base do rappel para um grande salão que dá acesso a galeria de rio e outras galerias fósseis. Outras viagens deverão acontecer em Dezembro e em 2017, ano que será dedicado as explorações e mapeamento desta caverna que representa um dos últimos grandes desafios subterrâneos de São Paulo.

Recepção sempre simpática dos cachorros locais
Maravilhosa hospitalidade da mãe do Zé Guapiara 

Café e histórias
Pai do Zé Guapiara, povo simples, verdadeiro e hospitaleiro
Com a vinda das chuvas, a estrada de Bulha já está bastante escorregadia
Encontramos um bom uso para orelhas furadas
Dez anos se passaram da descoberta do abismo e o Brandi continua preferindo não usar macacão

Tentativa frustrada de conexão com o abismo através de escalada na Robeirãozinho III, realizada em 2015
Uma das cordas antigas do abismo substituída por uma nova
Visitante noturno debaixo do colchão

Vem pra foto, gente! Vem!
Agora sim, equipe reunida!

sábado, 15 de outubro de 2016

Espeleologia contemporânea na Eslovênia

Por Rafael Camargo
Morando em Berlim há mais de três anos, tenho ido para caverna bem pouco. A geologia de Berlim e região é composta apenas de depósitos de areia e cascalho das últimas glaciações, nada de carste por aqui. As cavernas mais próximas estão na região da Saxônia Suíça (Sächsische Schweiz), próximo à Dresden, mas em arenito e em geral pequenas. Ou nas Montanhas Harz, em uma região cárstica pequena, mas muito interessante. No entanto, os espeleólogos de lá não fazem muito mais explorações, fazem basicamente monitoramento, legal, mas não exatamente o que eu mais gosto.
Explorações de verdade na Alemanha são nos Alpes, perto da divisa com a Áustria. Mas se é para ir para o sul da Alemanha, então dá para ir para Eslovênia, ainda melhor! O país é sempre mencionado pelo carste clássico e longa tradição em espeleologia, mas isso não para por aí. Mesmo estando em um território pequeno (menor em área que o estado do Sergipe), espeleólogos continuam fazendo grandes descobertas. Somente em uma região, em Kanin por exemplo, há sete cavernas mais profundas que -1000m. Uma delas, o sistema BC4 – Mala Boka, é uma travessia de mais de 8km e -1300m de desnível. No mês de agosto, a convite de Matt Covington e Matic Di Batista, tive a oportunidade de participar em duas expedições com o grupo espeleológico DZRJL de Ljubljana e pude presenciar como eles organizam a bagunça deles.
Primeiramente, para ter permissão de ir para caverna (se tornar um espeleólogo) na Eslovênia é preciso frequentar um curso de formação teórico-prático e passar em um exame prático ao final. Os cursos são ministrados pelos grupos de espeleologia, são em média de dois meses de duração com encontros a noite durante a semana e saídas de campo nos finais de semana. No caso de estrangeiros, precisamos comprovar experiência em técnicas verticais, noções básicas de conservação de ambientes cavernícolas, bem como ser associado à alguma instituição de espeleologia reconhecida internacionalmente ou afiliada da UIS. Para nós brasileiros, ser filiados à SBE ou à algum grupo filiado é o suficiente. – Inclusive, obrigado Marcelo Rasteiro, presidente da SBE, pela carta de referência – Então depois de passar no exame final do curso ou comprovar experiência, um certificado é emitido pela Secretaria de Meio Ambiente da Eslovênia atestando que a pessoa tem treinamento adequado para praticar espeleologia de forma autônoma. Este procedimento é provavelmente o que tem garantido explorações de alto nível técnico e sem acidentes. O DZRJL de Ljubljana, por exemplo, tem mais de 100 anos de atividades (foi fundado em 1910) e até hoje nunca teve nenhum acidente sério.
Panorâmica do platô do Monte Kanin
A primeira expedição que participei foi no platô do Monte Kanin (2587m), nos Alpes Julianos, divisa entre Eslovênia e Itália. O DZRJL organiza no mínimo uma grande expedição por ano nesta área, geralmente em julho/agosto, no verão europeu. Desde 1956 eles têm um local para acampamento base à aproximadamente 2000m onde um abrigo de paredes de pedra e cobertura de lona é montado. O abrigo serve como cozinha comunitária e local de convivência onde todos se reúnem durante café da manhã e jantar e também para se proteger das fortes tempestades. É impressionante a quantidade de equipamentos que eles têm lá em cima na montanha. Algumas coisas ficam lá mesmo, estocadas em uma pequena caverna, mas na maioria das vezes eles têm apoio de um helicóptero do exército transportando muita coisa, inclusive caixas e caixas de cerveja, bastante o suficiente para todos ficarem bêbado quase todas as noites e ainda deixar algumas estocadas para o próximo ano. Mas é claro que cada um sobe com com sua mochila de aproximadamente 30kg, carregando barraca, saco de dormir, equipamentos individuais e um pouco do coletivo, além de comida e alguma bebida, é claro. Eu levei uma cachaça mineira, evaporou em meia hora.
Trilha para o acampamento (1000m em ganho de altitude +30 kg)
Aproveitando o sol para secar um pouco os equipamentos
Este ano os trabalhos se concentraram basicamente na continuação das explorações e mapeamentos de duas cavernas já conhecidas, Surouka e P4, e em prospecção na superfície. Surouka tinha em torno de 2km mapeados e -350m de desnível. Este ano foram mapeados mais algumas centenas de metros de labirintos freáticos nos níveis superiores e aproximadamente -50m de desnível no fundo até atingir um sifão. No entanto, a equipe identificou que o fluxo de ar continua por outra passagem e trabalhos podem continuar nas próximas expedições. P4 estava em -470m de desnível e depois de dois dias de desobstruções teve mais uma série de abismos mapeados até atingir o desnível de -650m onde há várias possibilidades de continuação. Na superfície, a prospecção também foi recompensadora, resultou principalmente na (re)descoberta de uma caverna que estava marcada como inacessível/preenchida de neve por trabalhos anteriores, mas que neste ano estava sem neve alguma. Aquecimento global tem suas vantagens, não?! Foi necessário desobstruir um pouco a entrada, mas depois a caverna (TA1) foi mapeada até -200m de desnível, até a equipe ficar sem cordas para continuar. 
Quando menciono desobstruções (digging) isso significa trabalho duro, movendo quantidade significativa de material, alargando passagens onde não era possível passar nem mesmo os mais magros e contorcionistas, mas que é esperado uma continuação por causa do fluxo de ar. Quem conhece o Buraco da Sopradeira em São Desidério-BA, sabe do que estou falando. Porém, tais avanços não seriam possíveis sem as gambiarras feitas nas furadeiras e baterias e principalmente sem “cepivo”, o terceiro membro. Acima de tudo é preciso ter criatividade e persistência, com certeza.
Equipamento básico para exploração de cavernas na Eslovênia

É importante mencionar também o belo trabalho em grupo. Equipes se revezam entre dias pesados no fundo das cavernas e dias mais tranquilos na superfície para descanso ou transportando centenas e centenas de metros de corda e ancoragens para as cavernas. No entanto, não há coordenação alguma, cada um decide por si próprio em qual equipe se sente bem em se juntar naquele dia, mas no final todos se ajudam. Inclusive os membros mais de idade, que já diminuíram um pouco o ritmo, continuam contribuindo de outras formas. Transportam suprimentos, consertam alguma coisa, mantêm diários de campo ou apenas tomam cerveja e compartilham suas experiências com os mais jovens. Este é um aspecto muito interessante por sinal. Mas para falar a verdade, alguns caras de 60-70 que conheci lá são ainda caverneiros hard core. O DZRJL tem por volta de 25 membros MUITO ativos (vão para caverna quase todo final de semana), mas de forma geral são 100 membros ativos, variando entre 18 e 70 anos e eles continuam se renovando (graças ao curso anual de formação), fato não muito comum em outros países de forma geral, onde a comunidade espeleológica vem apenas envelhecendo e pendurando a carbureteira.
Local de reunião do grupo todas as noites

Depois da expedição de uma semana e meia em Kanin foi necessário passar um dia em Ljubljana para compra de suprimentos e reorganização dos equipamentos na sede do DZRJL (que fica em um bunker – antigo abrigo da 2a Guerra Mundial). Falando em equipamentos para as expedições, é impressionante a quantidade de equipamentos do grupo. Bobinas e bobinas de corda, caixas e caixas de ancoragens e mosquetões, furadeiras, geradores, utensílios para os acampamentos base e os de dentro das cavernas profundas. Sem falar que eles emprestam equipamento individual (SRT kit, capacete e iluminação) por até um ano para os recém formados do curso todo ano. Incentivo essencial para iniciantes que são estudantes na maioria das vezes.
É claro que a contribuição dos membros (30 euros por ano) não é o suficiente para manter a quantidade de equipamentos que eles precisam para as explorações, que são essencialmente verticais e demandam muito equipamento. Na Eslovênia há um tipo de recompensa financeira para os grupos espeleológicos que divulgam seus dados espeleométricos, em forma de relatório anual para a Secretaria de Meio Ambiente, onde eles mantêm um banco de dados nacional. Quanto mais metros mapeados (documentados e reportados), mais dinheiro para o grupo. O DZRJL, por exemplo, recebe cerca de 6 mil euros por ano.
Acampamento base do DZRJL no platô do Monte Kanin. Foto: Domagoj Korais
Equipamentos necessários todos reunidos, seguimos para a outra expedição, no platô de Pokljuka, nas proximidades do famoso monte Viševnik, no Parque Nacional Triglav. Os trabalhos nesta área começaram só em 2010 quando Matt Covington, um americano que fazia pós-doutorado no Instituto do Carste ZRC em Postojna, encontrou a primeira possível entrada de caverna. Era apenas ar soprando entre alguns blocos, talvez nem poderia ser chamado de buraco (blowing hole). Prospecção em carste alpino é um pouco peculiar. A melhor época é no inverno, quando as montanhas estão cobertas de neve e as entradas são mais fáceis de serem identificadas uma vez que o ar relativamente quente de dentro das cavernas sopra (para fora) e derrete a neve na entrada, que então se distingue na paisagem. No verão o trabalho seria verificando fissura por fissura, sem saber ao certo se há potencial ou não. Mas é depois de identificar os blowing holes que o trabalho pesado começa. Na maioria das vezes eles não são acessíveis, o ar passa entre as fissuras e blocos, mas muito trabalho é necessário desobstruindo as entradas. Euclides, a primeira caverna encontrada em Pokljuka, por exemplo, precisou de cinco saídas de final de semana, grupo de 4 a 8 pessoas, revezando na escavação e passando blocos de mão em mão até conseguir realmente acessar a caverna que hoje tem cerca de 2km e -430m de desnível. Mas é claro que foi necessária muita desobstrução em vários outros trechos da caverna, não somente na entrada.
Pausa durante exploração (escalada) em Trubar
A expedição em Pokljuka continuou principalmente com explorações nas três principais cavernas da área: Euclides, Platon (2km, -575m) e Trubar (5km, -610m), que provavelmente fazem parte do mesmo sistema. As conexões estão muito próximas de acontecer (Platon e Trubar estão cerca de 20m distância horizontal ou 100m vertical), mas ao mesmo tempo muito distantes por causa da dificuldade das explorações. Em Trubar, por exemplo, ficamos acampados a -560m para depois continuar as explorações em busca da conexão com Platon, mas a exploração é na verdade fazendo escalada em rocha. Explorações anteriores já tinham escalado +300m a partir do Camp -560m e nesta expedição escalamos mais +100m. No final daquele dia estávamos mais perto da superfície do que do Camp, mas tínhamos que descer os 400m e depois no outro dia jumariar os 560m, sem falar dos estreitos e doloridos meandros.

No final das três semanas na Eslovênia era hora de voltar para casa. A experiência foi fantástica. As cavernadas mesmo que difíceis, molhadas e geladas, valeram muito a pena. Apesar de ter levado a tralha toda de fotografia não tive oportunidade de fotografar as cavernas, o foco era exploração e mapeamento e o ritmo foi intenso o tempo todo. Mas algumas fotos do acampamento e da paisagem dá para ter uma ideia. Os Eslovenos são super receptivos e animados para beber. Tanto é que meu presente de despedida foi uma garrafa de schnapps, aguardente de frutas, um típico em cada região da Eslovênia, além do convite para voltar. Quem se anima?
Acampamento base do DZRJL no platô do Monte Kanin

Espeleo-cowboy

Pico do Monte Kanin

Lado italiano do Monte Kanin

Acampamento de outro grupo, também no platô do Monte Kanin

Visita ao acampamento vizinho para troca de informação e degustação de vinho

Dia de chuva no acampamento em Pokljuka

Prospecção em Pokljuka

Cozinha e sala de estar no acampamento

Trubar_profile: Perfil da topografia de Trubar. Final da exploração em Agosto/2016 está à poucas dezenas de metros de Platon