“E impelido pela minha ávida vontade, imaginando poder contemplar a grande abundância de formas várias e estranhas criadas pela artificiosa natureza, enredado pelos sombrios rochedos cheguei à entrada de uma grande caverna, diante da qual permaneci tão estupefato quanto ignorante dessas coisas. Com as costas curvadas em arco, a mão cansada e firme sobre o joelho, procurei, com a mão direita, fazer sombra aos olhos comprimidos, curvando-me cá e lá, para ver se conseguia discernir alguma coisa lá dentro, o que me era impedido pela grande escuridão ali reinante. Assim permanecendo, subitamente brotaram em mim duas coisas: medo e desejo; medo da ameaçadora e escura caverna, desejo de poder contemplar lá dentro algo que fosse miraculoso"

Leonardo Da Vinci

terça-feira, 27 de julho de 2010

EspeleoInfo - Informativo do CECAV - Ano2 - Nº 2 - 2010



Recentemente foi publicado o segundo número do EspeleoInfo, Boletin Eletrônico do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Cavernas - Cecav/ICMBio.

Neste segundo número são apresentadas algumas atividades em desenvolvimento no CECAV como também outras que estão sendo implementadas. Entre estas atividades está a conclusão dos trabalhos de mapeamento da Caverna do Trapiá, realizada em parceria com o grupo Meandros e cuja as fases do projeto estão descritas em detalhes ao longo deste blog. 

Quem tiver interesse em receber o Espeleoinfo completo pode entrar em contato conosco ou diretamente com o CECAV (http://www4.icmbio.gov.br/cecav/index.php?id_menu=252).



terça-feira, 20 de julho de 2010

Abismo Los três amigos


Demorou, mas voltamos ao Abismo Los Três Amigos. No último final de semana, dia 17 de julho, Brandi, Cesinha, Ezio e eu caímos na estrada rumo à Guapiara.

Fazia frio e chovia o bastante para nos preocuparmos com o rio na caverna, uma enchurrada poderia causar muita confusão.

Da entrada do abismo soprava um vento forte e quente e logo, literalmente, escorregávamos para dentro pelas cordas enlameadas. 

Não demorou para eu descobrir o por quê do voo livre, realmente impressiona o vazio negro à frente. Descer no meio do salão com as paredes a dezenas de metros e os pequenos pontos de luz dos outros lá embaixo não nos deixam sossegado.

Chegamos ao ponto em que a equipe anterior havia parado por falta de corda. Descemos e continuamos pela galeria do rio sem dificuldades, apesar da correnteza que nos fazia lembrar da chuva a todo momento. Parecia que a conexão com a Ribeirãozinho III era questão de tempo. Até que um desmoronamento acabou com a nossa animação.

Faltou explorar uma promissora galeria superior, que deve, ao menos, nos premiar com boas descobertas e quem sabe até nos levar ao outro lado. Como tudo na região, nada vem fácil e ainda teremos de encarar o abismo algumas vezes até conseguir encontrar outro provável acesso.

A volta foi sofrida, não bastasse o cansaço da semana de trabalho acumulado ainda tinha de brigar com meu equipamento desregulado e minha maldita mochila pesada. Fora a lama acumulada nas cordas e equipamentos.

O frio da madrugada estava ainda mais forte e a garoa e o vento só pioravam a volta pela trilha. Não havia o Zé com seu trator para nos levar e o mundo estava torto pro nosso lado, era só subida. A saída foi não pensar no caminho e apertar o passo.

Chegamos perto das 3h da manhã, com o Zé nos esperando, como sempre. A cada minuto uma alegria. Banho quente, roupa quente, comida quente, cama quente.

Não choveu o suficiente para nos atrapalhar, mas percebemos o quanto é perigoso uma enchurrada na galeria do rio. O frio também preocupa, principalmente nos momentos de espera para entrar na corda. Agora é entrar em forma, arrumar a tralha e voltar pra continuar os trabalhos pois a caverna ainda promete muito.



segunda-feira, 12 de julho de 2010

Publicado novo mapa do Abismo da Marreca

A Caverna ou Abismo da Marreca (SP-50) é uma importante caverna localizada na região do Lajeado, no PETAR, SP. Sua importância dá-se principalmente a seu valor historico e localização.

O Acesso à caverna é realizado através da descida de um abismo com cerca de 20m e exige o auxílio de corda e conhecimento de técnicas verticais. Após a descida dá-se acesso a seus condutos e salões até chegar a mais uma íngreme descida (necessário cordas) para acessar um grande salão na parte de maior desnível da gruta. 

Com visitas mais frequentes na decada de 60, a caverna apresenta em algumas partes uma serie de inscrições (predatorias) datadas daquela época e alguns acessórios antigos deixados no interior da gruta (detalhe para uma lâmpada calcificada e já totalmente incrustada nas concreções). A caverna apresenta também salões volumosos, com a presença de ossos e formações delicadas. Detalhes para algumas grandes colunas e escorrimentos um belo “disco”, formação não muito frequente.


Em meados de Março de 1966 a caverna teve seu mapeamento realizado pelo Espeleo Grupo de Londrina e também outras tentativas de continuidade realizadas no mesmo ano pelo CAP (Clube Alpino Paulista), durante expedições que se passavam na Gruta de Areias.

Mapa do Abismo da Marreca (Espeleo Grupo de Londrina - 1966)


Mapa do Abismo da Marreca (CAP 1966)


Através do Projeto Paçoca e Arredores (Sistema Corrego-Fundo) observamos a necessidade de remapear a caverna seguindo os mesmos criterios de detalhamento das outras cavernas mapeadas na região.

Os trabalhos de tropografia e mapeamento foram realizados no início de 2010 e o novo mapa publicado em Julho deste mesmo ano.

Para este mapa demos especial atenção a representar a caverna além de sua planta, mas também realizando um corte em perfil detalhado. Desta forma é possível ter uma imagem bastante próxima à realidade não somente da morfologia da gruta, mas também da localização de pontos importantes na caverna (ossos, disco, abismos, pérolas, etc...). Cabe lembrar que a qualidade do mapa só reflete a riqueza destes detalhes na caverna porque os mesmos foram cuidadosamente bem representados em um excelente croquis, obra do nosso amigo arquiteto Marcos. Valeu Marcão!



Mapa atual do Abismo da Marreca (2010- Grupo Bambuí de Pesquisas Espeleologicas)

O mapa está disponível na Mapoteca da Redespeleo Brasil e as informações detalhadas sobre o histórico da caverna encontra-se no Projeto Paçoca e Arredores (pdf disponibilizado ao governo e entidades competentes).

União de projetos entre caverna Paçoca e Corrego Fundo dá maior abrangência a trabalhos no PETAR

Republicação de artigo do Conexão Subterrânea N. 77 (14/04/2010),  com adição de mais dados e imagens.

Em meados de março uma equipe de espeleólogos do (GBPE) Grupo Bambuí de Pesquisas Espeleológicas realizou uma viagem à Região da Caverna Paçoca, no Vale do Ribeira em São Paulo. O objetivo da viagem foi dar continuidade a dois importantes projetos que vinham sendo realizados na região: o Projeto Paçoca e arredores, coordenado por Daniel Menin e Renata Andrade (iniciado quando ambos pertenciam ao GPME (Grupo Pierre Martin de Espeleologia), e os trabalhos de mapeamento no Sistema Córrego Fundo, realizados pelo Grupo Bambuí para a publicação do livro As Grandes Cavernas do Brasil (2001, Auler. A, Rbbioli.E, Brandi,R). Estas duas frentes são bastante complementares, visto que a Gruta Córrego Fundo e a Caverna da Paçoca representam pontos de recarga de um mesmo aquífero cárstico, com drenagem no Bairro da Serra, e pertencem  portanto, ao mesmo sistema hídrico.


Mapa Aquíferos Carstico - PETAR (destaque para Sistema Corrego-Fundo - Maiores Informações vide Projeto Corrego-Fundo (GBPE) - Fonte primária: Revista do Instituto Geológico, São Paulo, 2003.

Vale lembrar que, entre outros resultados, o Projeto Paçoca gerou o re-mapeamento detalhado desta caverna com a inclusão de novas continuidades e galerias; o mapeamento da Gruta de Páscoa com a descoberta de uma nova saída da caverna e a descoberta da Caverna do Agenor, importante gruta da região, com quase 3 km de desenvolvimento. Na ocasião desta última viagem, foi remapeado o Abismo da Marreca, utilizando o mesmo padrão de detalhamento dos mapas que foram produzidos pelo projeto e também foi iniciada  a escalada da  cachoeira situada na caverna Paçoca, que era uma pendência do projeto, até então. 
A compilação de todos os dados do Projeto Paçoca e arredores com os mapas atualizados e a adição de novos dados históricos sobre a região está pronta e já foi  encaminhada  às entidades competentes (caso tenha interesse em obter o estudo entre em contato com os coordenadores do projeto).
Esta união dos dois projetos traz um novo fôlego para os trabalhos a serem realizados na região e promete outras descobertas e belos mapas nos anos que virão. Agradecemos ao Parque Estadual do Alto do Ribeira (PETAR), ao CECAV, ao GBPE (Grupo Bambuí) e a todos aqueles que acreditam e participam de forma positiva destes trabalhos espeleológicos.