“E impelido pela minha ávida vontade, imaginando poder contemplar a grande abundância de formas várias e estranhas criadas pela artificiosa natureza, enredado pelos sombrios rochedos cheguei à entrada de uma grande caverna, diante da qual permaneci tão estupefato quanto ignorante dessas coisas. Com as costas curvadas em arco, a mão cansada e firme sobre o joelho, procurei, com a mão direita, fazer sombra aos olhos comprimidos, curvando-me cá e lá, para ver se conseguia discernir alguma coisa lá dentro, o que me era impedido pela grande escuridão ali reinante. Assim permanecendo, subitamente brotaram em mim duas coisas: medo e desejo; medo da ameaçadora e escura caverna, desejo de poder contemplar lá dentro algo que fosse miraculoso"

Leonardo Da Vinci

sexta-feira, 25 de março de 2011

Novas cavernas são encontradas em Bulhas D'água









Marcos Silverio
fotos Daniel Menin e Alexandre Camargo (Iscoti)

Após seis anos de atividades constantes a região de Bulhas D'água continua nos brindando com muitas descobertas, diversão e certa dose de sofrimento. Mas como a memória espeleológica trata de registrar somente o que nos interessa, pelo menos a cada mês retornamos entusiasmados para muita caminhada, lama, bichos e, quem sabe, um encontro com a onça que teima em nos seguir nas trilhas.

Nos dias 18 e 19 de fevereiro último uma equipe do Grupo Bambuí formada por Bedu, Carolina Anson, César Augusto, Daniel Menin, Fabio von Tein Iscoti e Marcos Silverio, os escaladores Rodrigo e Beto de São Calor e o Prof. Sérgio Bueno da USP e sua filha estiveram na região de Bulhas d'Água para mais uma investida de prospecção e mapeamento na área.

O objetivo no primeiro dia era verificar uma provável continuação no trecho final da Gruta do Lago Subterrâneo, realizar o mapeamento desta caverna e coletar exemplares de Aegla avistados no lago. Parte da equipe ficou responsável pelo mapeamento da caverna, outra pela escalada na parede junto ao lago enquanto a última acompanhou o Prof. Bueno na coleta das Aeglas.

A caverna localiza-se no fundo de uma dolina e apresenta uma entrada apertada com desnível de aproximadamente 5m entre blocos. O pequeno curso d'água do início logo encontra um afluente, surgido de um conduto baixo, e segue por um trecho encachoeirado e muito estreito até o lago subterrâneo. Acima deste conduto há uma galeria que acessa o lago através de uma fenda com cerca de 10m de desnível, nosso caminho. Este lago, com trechos profundos e cerca 30m de comprimento, preenche toda a largura da galeria de 4m. Neste local há possibilidades de continuação através da escalada das paredes laterais. O escalador Rodrigo (Amarelo) subiu uma das paredes mas sem encontrar continuação, restando ainda uma pequena possibilidade mais à frente na galeria do lago.

No retorno a subida pela fenda, após um dia de atividade, foi um desafio para os menos familiarizados com cordas e blocantes. E, como estamos em Bulhas, tudo ainda podia ficar mais divertido. Na saída trovões chacoalhavam as paredes da caverna e a pequena entrada começava a jorrar água e lama enquanto nos espremíamos para fora na chuva. A trilha parecia mais íngreme e escorregadia e a corda foi útil para, literalmente, puxar o pessoal para cima. 

De noite, debaixo de uma garoa fina, fomos de trator até a casa de pesquisa de Bulhas para nos preparar para as atividades do dia seguinte. O objetivo era mapear uma gruta e verificar a continuação de um abismo encontrados durante a expedição de janeiro e escalar um paredão próximo ao Rio Pilões. Novamente nos dividimos em equipes, agora sem o Prof. Bueno e sua filha, que retornaram para São Paulo. Parte da turma foi escalar o paredão e o restante foi mapear a gruta. 

A primeira investida neste paredão foi realizada em janeiro de 2006 mas interrompida por ameaça de maribondos e falta de equipamento. Em janeiro de 2011 uma equipe tentou novamente a subida mas não conseguiu atingir a suposta entrada avistada. Desta vez os escaladores Neto e Rodrigo munidos de furadeira, costuras etc, alcançaram a entrada, que se tratava apenas de uma reentrância na rocha. Merece destaque o preparo e motivação dos dois para escalar as paredes podres e enlameadas e para encarar o terrível macarrão preparado por nós. Se a memória colaborar esperamos contar com eles em outras atividades…

A equipe de topografia deveria mapear uma caverna próxima à Gruta Capinzal. Porém um pequeno vale ao lado da trilha chamou nossa atenção e   nos obrigou a um desvio. Logo encontramos um pequeno abismo, sem continuação e mais à frente um ralo que recebe grande quantidade de água nas chuvas. Um pouco de procura nos afloramentos próximos e logo encontramos um espaço entre blocos que denunciava um grande abismo. O Daniel, que já vinha equipado do outro abismo, logo se espremeu pela passagem e chegou ao final da corda, sem atingir o fundo, a cerca de 25m de profundidade. Devido à sua localização e morfologia o abismo tem grande potencial para descoberta de fósseis.

Como já estávamos com o tempo curto para cumprir nosso objetivo resolvemos seguir por este vale até o abismo descoberto em janeiro e checar seu potencial. Na verdade trata-se de um lance vertical de 5m que atinge uma rede de condutos estreitos e baixos com possibilidade de ligação com outras cavernas próximas. Seguimos depois até a gruta que deveríamos topografar para checar a possibilidade de continuação após um lago azul encontrado em janeiro.

Na água gelada, sem macacão e botas, verifiquei que há uma possibilidade de continuação em uma das laterais mas nesta época está totalmente sifonada. Esta caverna é interessante pois há possibilidade de atingir a galeria de uma outra caverna próxima, que hoje encontra-se bloqueada por um desmoronamento. Uma ligação entre elas após o desmoronamento levaria a gruta a mais de 1km de desenvolvimento.

Como não exploramos sem mapear sempre deixamos dúvidas e possibilidades para as próximas saídas. Então quem sabe o que ainda descobriremos por lá, com certeza a curiosidade é nosso maior motivador.



terça-feira, 15 de março de 2011

Roraima - Março de 2011

E lá fomos nós, de novo, aos Tepuys da Venezuela.
Devido ao mal tempo, acabamos deixando as cavernas para segundo plano. Queríamos ao menos fotografar e prospectar algo, mas decidimos fazer o trivial nos restringindo à superfície. De qualquer maneira, a viagem aos Tepuys sempre vale muito a pena. O sofrimento é garantido, mas também muito recompensado pelas espectaculares paisagens do local.
Desta vez a arrumação das mochilas foi quase perfeita e acho que cheguei à uma lista ótima na relação material x peso.

Compartilho abaixo para as próximas idas. Cabe lembrar que a lista não inclui material de espeleo e é ideal para uma viagem de 7 dias: