“E impelido pela minha ávida vontade, imaginando poder contemplar a grande abundância de formas várias e estranhas criadas pela artificiosa natureza, enredado pelos sombrios rochedos cheguei à entrada de uma grande caverna, diante da qual permaneci tão estupefato quanto ignorante dessas coisas. Com as costas curvadas em arco, a mão cansada e firme sobre o joelho, procurei, com a mão direita, fazer sombra aos olhos comprimidos, curvando-me cá e lá, para ver se conseguia discernir alguma coisa lá dentro, o que me era impedido pela grande escuridão ali reinante. Assim permanecendo, subitamente brotaram em mim duas coisas: medo e desejo; medo da ameaçadora e escura caverna, desejo de poder contemplar lá dentro algo que fosse miraculoso"

Leonardo Da Vinci

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Realizada em 2017 a segunda travessia da caverna São Vicente, uma das mais difíceis e históricas cavernas do Brasil

Texto e fotos: Daniel Menin
Video: Marcelo Andrê

O dia estava clareando quando fazíamos as últimas arrumações nos equipamentos. Um café rápido, lanches embalados e pegamos o mesmo caminho dos dias anteriores, mas agora com um desafio muito maior: fazer a travessia da Caverna São Vicente.
A Caverna São Vicente abriga um dos mais longos rios subterrâneos do Brasil. Com aproximados 10km, só perde para o rio São Mateus, na mesma região, com 11km de extensão debaixo da terra. Apesar de não ser o mais longo, seu volume de água muito maior e suas inúmeras cachoeiras dão fama à caverna como a mais violenta no Brasil e uma das mais esportivas que se tem conhecimento. Não obstante, a caverna é uma das mais importantes no Brasil também do ponto de vista histórico. Foram necessárias mais de quatro décadas de expedições e participação de espeleólogos brasileiros e estrangeiros para pouco a pouco ir desvendando a grandeza e as dificuldades do sistema. Embora tantas expedições e espeleólogos estarem envolvidos, a travessia foi realizada apenas uma vez, em 1999, quando quatro brasileiros entraram pelo sumidouro principal descendo as corredeiras até chegarem a saída da Craibinha a cerca de 9km de rio abaixo.
Na época, o relato da aventura publicado na revista O Carste deixou espeleólogos impressionados por quase duas décadas até que esta nova travessia fosse realizada em 2017.



Revista O Carste edição de 2000 com histórico das explorações no sistema São Vicente

Com a retomada do mapeamento pelo grupo Bambuí, partes importantes do mapa vem sendo completadas e uma nova topografia está seguindo o leito do rio. O intuito desta nova travessia era retopografar uma área distante da caverna, cujo retorno contra a correnteza seria inviável obrigando a equipe a atravessar a gruta. Por acaso ou não, os quatro espeleólogos da primeira travessia estavam presentes também nesta expedição, mas nenhum deles se propôs a acompanhar a nova equipe na incursão...
O acesso à entrada da caverna não é difícil. São apenas 15 minutos caminhando a partir da casa de um morador local. As dificuldades aparecem, entretanto, logo no começo da gruta onde os espeleólogos sentem a força da água ao atravessar o rio. Algumas dezenas de metros adiante, e como cartão de visitas, uma primeira cachoeira obriga o uso de corda e equipamentos de vertical. Mais um pouco à frente e outra cachoeira, seguida de um trecho de água funda e correntezas demonstram que o caminho não será nada fácil. Esses obstáculos são transpostos sem grandes problemas com o auxílio de boias e cordas, mas a cerca de 2km da entrada se encontra um dos maiores obstáculos da caverna. Conhecida como  Garganta do Diabo, trata-se de uma volumosa cachoeira de 20m que impede qualquer espeleólogo que não esteja extremamente preparado a continuar a descida do rio. Não por acaso, o nome Garganta do Diabo foi dado em uma expedição de 1976 e foram necessários 14 anos até que a cachoeira fosse vencida.


A força da água e corredeiras constantes dificulta muito o trajeto contra a correnteza

A primeira cachoeira entre as grandes


Passagens superiores evitam partes perigosas demais pelo rio



Dali em diante a caverna toma uma violência digna de uma descida de canyon das mais esportivas. Mesmo que vença a cascata, as partes que seguem são tão desafiadoras quanto. Entre elas está o Caldeirão do Diabo, um verdadeiro ralo gigante onde o rio borbulha girando em torno de um pequeno buraco (sifão) por onde a água desaparece. Do outro lado, o volume é expelido violentamente caindo alguns metros à frente em mais uma cachoeira de 6m de altura. Neste ponto somos obrigados a seguir pelas paredes, em um corrimão suspenso de corda até subir em uma passagem superior vendo a continuação do rio do outro lado do sifão. Transpor a corda é difícil, tem que alternar força e movimento preciso para ir conectando os nossos mosquetões em cada ponto de ancoragem e assim ir avançando metro a metro. Não há apoio para os pés e ficamos frequentemente balançando na corda alguns metros acima do rio em tempestade. O barulho ensurdecedor da água turbulenta impede uma boa comunicação entre as pessoas. A névoa atrapalha a visão. Ajudar seu vizinho acaba sendo bem mais difícil do que de costume e cair na água nestes trechos está fora de cogitação.
Para ajudar, enquanto conectava meu mosquetão no final na última alça do corrimão fazendo impulso para sair do caldeirão escuto: "Se não morrer afogado no sifão", gritou meu colega olhando pra mim, "morre na cachoeira logo depois!". Me debrucei ainda com a segurança conectada e lá do outro lado do sifão vi uma violenta queda de espuma explodindo nas rochas abaixo.


Passagem suspensa nas laterais do Caldeirão do Diabo

Uma das 20 cachoeiras pelo percurso, o turbilhão das quedas impossibilita o caminho pela água

Descida lateral à cachoeira Garganta do Diabo

Uma queda na água certamente seria fatal carregando o espeleólogo até outras quedas mais a baixo

A cada metro avançado a volta vai se tornando mais difícil. A um certo ponto, retornar não é mais opção uma vez que nadar contra correntezas e cachoeiras é considerado humanamente impossível.
E foi na base de uma das últimas cachoeiras que começamos nossa topografia. O objetivo era seguir pelo caminho principal por cerca de 1km representando em detalhes a galeria e possíveis laterais deixadas em aberto no mapa anterior. Uma vez encontrado um conduto afluente de rio conhecido como Passa Três, encerar a topografia e seguir caverna abaixo até a saída da Craibinha. A topografia foi o ponto mais tranquila da travessia. O rio calmo e condutos grandes permitiam visadas longas e agradáveis. Cerca de 1h30 depois chegamos até um afluente grande, um conduto lateral por onde descia outro rio, era a caverna Passa Três. Conhecida desde as explorações de 1980, a conexão da caverna Passa Três desde sua entrada até o rio São Vicente fora realizada apenas recentemente. Isto porque a caverna compreende em um longo conduto, ora estreito e ora praticamente submerso, por onde os espeleólogos devem mergulhar por completo em uma passagem para atravessar seguindo seu caminho. Conectamos nossa topografia a uma base fixa na entrada do conduto da Passa Três e seguimos rio abaixo rumo a saída da São Vicente. Já havia se passado quase metade da jornada e ainda tínhamos o mais longo percurso a realizar.


Uma das inesperadas cachoeiras ao longo do caminho


Grandes condutos são uma constante na caverna

Colete salva-vidas e boia são equipamentos obrigatórios sem os quais as chances de sucesso são mínimas. Os coletes ficaram conosco por todo percurso, mas 50% da equipe teve suas boias furadas ao longo do percurso.
Em muitas curvas da caverna a força da água cavou reentrâncias na parede e a correnteza empurra os espeleólogos para baixo de espaços estreitos entre o teto e a água. Os últimos quilômetros de caverna são cansativos. Rochas pontiagudas ameaçam furar as boias e os espeleólogos são obrigados a fazer boa parte do percurso entrando e saindo da água, procurando alternativas entre blocos e escaladas ao lado do rio.
Existem duas saídas conhecidas rio abaixo na caverna São Vicente: a saída eslovena, explorada na década de 80 e localizada cerca de 8km da entrada, e a saída da Craibinha, 1km abaixo da saída eslovena. Como não conhecíamos esta saída, nossa única chance era encontrar a Craibinha. Para ajudar, uma equipe de apoio havia feito o caminho por fora dias antes e, além de ter deixado a saída equipada com cordas, também deixaram uma fita colorida as margens do rio para que pudéssemos, na travessia, identificar o ponto a sair da água e buscar uma saída em blocos na lateral da caverna. Perder o ponto exato de deixar o rio em busca desta saída significaria descer por mais 1km de correntezas até desaparecer em um sifão intransponível.
Não podíamos nos dar muito luxo de descansar. As paradas eram apenas pelo tempo suficiente para unir-se aos outros integrantes e seguir caminho. Felizmente, alguns trechos de rio calmo proporcionavam uma agradável descida, sentado na boia, onde o único esforço foi contemplar a beleza, desviando de pedras. Naqueles momentos, a cavernada mais parecia uma atração típica de parque temático. Só faltavam saídas de emergência e uma música de fundo...


Coluna gigante



Alguns trechos de água calma

Mas as calmarias duravam pouco. Logo se ouvia a frente o barulho de novas cachoeiras e corredeiras nos fazendo sair das boias ou remar rapidamente para as margens. A medida em que nos aproximávamos dos quilômetros finais da travessia, as corredeiras voltaram a ser uma constante, além de agora estarem repletas de rochas pontudas no fundo e nas paredes (lapiás).
Foi ali, no início deste trecho, que minha boia furou. Lembrei de um comentário do Ezio um dia antes alertado para perigo no "final" da travessia. Pelas nossas contas, ainda havíamos 3 ou 4km de rio pela frente. Da maneira que dava e sem boia, fui usando o colete para flutuar, além de me equilibrar na mochila e em um saco estanque. Descia o rio mais rápido que as boias e logo me vi a frente da equipe. Na velocidade das corredeiras, usava os pés na frente, prevenindo me chocar com mais rochas pontiagudas. Embora estivesse o tempo todo em movimento, estar completamente dentro da água me fez começar a sentir frio. Para ajudar, logo depois, o saco estanque em que me apoiava também acabou furando em uma das corredeiras. Já estávamos exaustos quando a boia do Marcelo foi jogada para baixo de um bloco cheio de pontas, e também furou. Vendo ele ser arrastado com uma mochila pesada pulei na água e ajudei-o a sair para a margem. Nos recuperávamos do susto em uma pequena praia quando vi o Marcelo tossindo freneticamente. Deve ter engolido muita água, pensei comigo, mas ele acenava para que eu batesse em suas costas. Após recuperar  fôlego o suficiente para umas primeiras palavras, ele me informou que o escândalo não era por ter engolido água, mas sim por estar engasgado com um pedaço de rapadura!
A incerteza sobre o ponto da saída da caverna consome psicologicamente os espeleólogos da travessia. A medida em que o tempo passa, fomos ficando mais cansados e a dúvida latejava na cabeça de cada um. Havíamos perdido o ponto para sair do rio em busca da Craibinha? Chegar ao sifão final da caverna tendo que subir o rio contra a corredeira, por 1km, em busca de uma saída, seria um pesadelo de causar pânico a qualquer pessoa.
Continuamos a descida em um silêncio preocupante. Uns pela borda, outros pela água e cada um com seus recursos para garantir a segurança e a progressão. As mochilas cheias de cordas molhadas pareciam estar a cada momento mais pesadas. Era possível adivinhar o pensamento de cada um em seu semblante, todos preocupados com tudo o que poderia acontecer dali em diante. Na areia as margens do rio começamos a ver pegadas humanas, só poderia ser da equipe de apoio dias antes. Estávamos próximo de alguma saída! Em uma das curvas lá estava a fita laranja amarrada em uma pedra as margens da água.
Cada um que chegava na fita urrava de felicidade. Agora seria "só seguir reto desmoronamento acima até encontrar uma saída". Esvaziamos as boias que ainda estavam intactas e seguimos o caminho apontado pelas pegadas até chegarmos a uma corda amarrada em blocos no teto da caverna. Já era possível sentir a brisa fria da noite entrando na gruta. Após cerca de 15m de corda e algumas passagens estreitas, senti o prazer de ver vegetações e ouvir o barulho da mata.
Saindo da gruta me deparei com mochilas cargueiras deixadas ali pela equipe para carregarmos nossos equipamentos pela trilha. Também deixaram em uma das mochilas comidas liofilizadas de montanha e um fogareiro. Descansamos o tempo suficiente para fazer uma comida quente, trocar as roupas molhadas, dividir os pesos nas cargueiras e iniciar a trilha de volta.
As 23h30 iniciamos a trilha até os carros deixados na Craibinha pela equipe de apoio. Mais algumas horas caminhando no cerrado e as 2h da manhã estávamos de volta a casa. Um prato de comida direto da panela deixada sobre o fogão foi um banquete difícil de descrever, mesmo estando fria. Desmaiei na cama ainda escutando o eco das corredeiras na minha cabeça.

Do ponto de vista físico, técnico e psicológico, considero a travessia um grande desafio mesmo aos mais experientes espeleólogos. Os riscos são muitos e, qualquer pequeno incidente, certamente será fatal devido a impossibilidade de resgate e ambiente hostil que a caverna oferece. A preparação e a logística também devem ser diferenciadas. Equipar antecipadamente, marcar trilhas, deixar carros e equipamentos na saída da gruta facilitam muito o trabalho. Boias e coletes salva-vidas são obrigatórios. Também nos ajudou muito uma aclimatação com a caverna dias antes, indo cada dia mais fundo, até a data de atravessar. Na nossa experiência, ter topografado galerias próximas à Garganta do Diabo, bem como sua equipagem previamente, foram essenciais para que tudo ocorresse como planejado. Por fim, a travessia apenas como objetivo de desafio técnico pode ser arriscada demais, e eu desaconselho completamente. É preciso um propósito a altura para justificar o esforço e o risco, além de contar com pessoas que conhecem a gruta e a região. É determinante estar na época de seca e não ter absolutamente nenhuma possibilidade de chuva. Mesmo com o baixo volume de água, a caverna apresenta as mais duras dificuldades.

A expedição de Julho de 2017 rendeu cerca de 5km de topografias. Foram mapeadas áreas já conhecidas, mas também novos condutos e salões não descrito no mapa anterior. Também foi descoberta uma nova caverna, a Gruta Des Foux, que rendeu mais de 1km após transposição de um sifão e um abismo.






Um dos condutos superiores topografados na expedição


Moradores locais, isolados da cidade e próximos à entrada da caverna

Equipe da expedição 2017
GBPE - Grupo Bambuí de Pesquisas Espeleológicas
EGB - Espeleo Grupo de Brasília
GSBM - Groupe Spéléo Bagnols Marcoule, França


segunda-feira, 29 de maio de 2017

Expedição Serra do Ramalho 2017


--> A Gruna da Serra Verde e o povoado de Lagartixa

Texto: Ezio Luiz Rubbioli
Fotos e legendas: Daniel Menin

Grupo Bambuí de Pesquisas Espeleológicas

- Fica na “Largatixa”.
- Lagartixa. É – La-gar-ti-xa.
- Isso mesmo, na “Largatixa”. Disse que visitou várias cavernas, mas não entrou muito em nenhuma delas. Tinha várias fotos de entradas grandes e, pelo que entendi, é um lugar que nunca estivemos antes.

A Serra do Ramalho é um grande maciço calcário que ocupa boa parte dos municípios sul-baianos de Cocos, Coribe, Feira da Mata, Ramalho e Carinhanha, na margem esquerda do Rio São Francisco. Apesar da extensão territorial e os mais de 25 anos de exploração, é incrível que ainda existam áreas intocadas sob a ótica espeleológica. E a Lagartixa (ou povoado Ponta d`Água como preferem os moradores) parecia ser um destes locais “esquecidos”. Quem deu a dica foi uma jovem que mora em Descoberto (local onde estávamos hospedados) e havia feito um trabalho para a escola sobre as grutas e sítios arqueológicos. E as fotos eram prova disso: entradas grandes com muitas concreções e pinturas rupestres.

E foi assim que no dia 30 de abril, antes de voltar para Descoberto, depois de um dia de explorações, resolvemos averiguar as informações. O Povoado de Ponta d`Água fica na borda oeste da Serra do Ramalho em um maciço ligado ao afloramento principal por uma estreita faixa de calcário. Quase uma montanha separada. A estrada de acesso não é das melhores, mas permite que qualquer tipo de carro trafegue até o pequeno povoado. Seguindo uma estratégia de prospecção (que já é quase uma tradição) procuramos o bar mais bem localizado. No caso da Lagartixa, este ficava quase no cruzamento das duas únicas ruas de terra que formam o simpático aglomerado de casas que se alinham diante de imponentes paredões de calcário. Conversa vai, conversa vem e em menos de 10 minutos já tínhamos várias informações sobre cavernas e uma dúzia de dicas e nomes dos protagonistas que podiam

nos acompanhar. O mais incrível era que a nossa fama de “caçadores” de cavernas já havia nos precedido.

- Ahhh! São vocês que ficam entrando nas gruna lá do Morro Furado.
- E como é aquele sumidô lá de Descoberto??
- Tenho um livro sobre as gruna da região - era a revista O Carste que um dos moradores possuía e guardava com todo orgulho - orgulho nosso também.
Isso facilitava muito a conversa e evitava especulações sobre os nossos objetivos. Mas já era final do dia e não tínhamos tempo a perder.

A primeira gruta visitada não passou de um abrigo sem continuações. Algumas pinturas, espeleotemas corroídos, mas nada que justificasse a viagem. Já estávamos a caminho da segunda opção (agora guiados pelo morador Edmilson) que nos orientava por uma estrada esburacada e que mais parecia um caminho de boi. Estávamos prestes a desistir quando encontramos um senhor que vinha a pé no sentido contrário. Questionamos sobre a distância que ainda faltava. Não era muito para ir caminhando se não fosse tão tarde.
- Por que vocês não procuram o Beto ou o Marcelo? Eles andaram um dia inteiro dentro de uma gruna lá na terra deles.
- É mesmo? E o carro chega mais perto.

Meia volta e lá vamos nós atrás do Beto.
A poucos quilômetros dali, encontramos um jovem falador que logo se interessou pela nossa curiosidade: Josemar Silva Santos ou simplesmente Beto. Falou que havia entrado com mais dois companheiros em duas oportunidades na caverna. Na primeira entraram com tochas e quase morreram intoxicados. Na segunda vez foram mais preparados e andaram “umas quatro horas sem ver o fim da gruna”.
- Opa. É o que estamos procurando.
Mas já era tarde. O sol já estava perto do horizonte e o jeito foi combinar um retorno para o dia seguinte.

Chegamos cedo, pegamos o Edmilson e fomos na direção da casa do Beto. No caminho o grupo ainda foi engrossado por mais um morador que também queria conhecer a tal gruta. E quando finalmente chegamos na sua entrada, já éramos uma equipe com 10 pessoas; 6 espeleólogos e 4 guias sem lanterna, sem capacete e com muita disposição. Logo nos primeiros metros o teto baixava bruscamente e o Beto disse que as últimas chuvas haviam carregado muita terra.

- Acho que não dá para passar mais...Um dos guias desistiu de entrar na caverna.
Entramos rastejando na galeria baixa, quase entupida por galhos secos, folhas, terra, mas um vento forte não deixava dúvidas de que estávamos diante de uma gruta que continuava. Logo na frete a galeria tomou dimensões confortáveis com 10 metros de largura e mais de 5 de altura. O Beto ia descrevendo o que encontraríamos mostrando a veracidade das suas explorações pioneiras.
- Lá bem na frente vai ter um estreitamento, mas depois abre e não vimos o fim.

Andamos rápido cerca de 500 metros deixando várias passagens laterais para trás. As marcas no piso não deixavam dúvidas de que aquele sumidouro temporário (totalmente seco até ali) deveria ser periodicamente invadido por um volume considerável de água. Nos locais mais altos ainda era possível encontrar as marcas das pegadas do Beto e seus companheiros. Incrível como eles entraram tanto sem praticamente nenhum equipamento.

Mas era hora de começar a topografar. Dividimos o grupo em duas equipes: a primeira começaria o mapeamento na direção da entrada, e a segunda, voltaria até a boca e entraria topografando. 

Olhando sob uma ótica mais detalhada, a cavidade consiste basicamente de uma galeria principal e várias passagens paralelas menores. Ora a drenagem coincide com o conduto principal, ora busca caminho nas laterais, alargando fraturas mal dimensionadas para o fluxo. Quando abandonado pela drenagem o conduto principal acumula grandes quantidades de sedimentos que chegam a “entupir” as passagens até o teto.

Depois de algumas horas de topografia, as equipes finalmente se encontraram unindo as bases que vinham de direções opostas. Formando uma única equipe numerosa, era hora de partir para o desconhecido. Logo na frente uma bifurcação deixava dúvidas de onde seguir. A galeria da direita seguia para norte, a direção preferencial até ali. Por outro lado, o conduto da esquerda era bem maior. Escolhemos a primeira opção, mas logo nos primeiros metros o ar abafado e a atmosfera pesada indicavam que as chances de continuações estavam reduzidas. O teto abaixava de forma suave e depois de poucos metros deparamos com um lago raso e coberto de jangadas.

O teto abaixava ainda mais e para continuar era inevitável entrar na água. Voltamos à galeria tida como principal que agora segue voltada para oeste e sem muitas passagens laterais. Pouco mais de 150 metros e chegamos a uma passagem bem menor com cerca de 1,5 metros de altura e largura. As pegadas do Beto estavam por todo lado, e ele atestou que estávamos no tal “estreitamento”.

- Mas a gruta depois continua e volta a ficar grande, falou ele categoricamente.
Era um bom lugar para dar meia volta. Grande suficiente para animar um retorno, mas nem tanto para nos arrependermos depois. Saímos da gruta já de noite com 2 km de topografia acumulados nas planilhas de anotação, 6 espeleólogos contentes e já planejando as próximas expedições. Era o nosso últimos dia na Serra do Ramalho. A gruta recebeu o nome da fazenda: Serra Verde.

Já de volta à civilização, debrucei no computador sondando nas imagens do Google o potencial da região. Embora não seja tão extensa como o maciço principal, este afloramento se desenvolve bastante para norte, onde são bem visíveis grandes vales. E que venha a Expedição Lagartixa.

Pegando as dicas com amigos locais
Na Serra do Ramalho, as exuberante Barrigudas estão por todos os lados.




A primeira dica no povoado de Lagartixa não nos levou a uma caverna de fato, mas foram encontradas lindas pinturas rupestres no alto de um abrigo, provavelmente uma caverna obstruída por sedimentos.

Equipe no dia da primeira investida no povoado de Lagartixa,
minutos antes de entrar na caverna Serra Verde.

Alguns caminhos são sobre lajes e lapiás

Topografia na caverna Serra Verde
(mapeados 2km em 2 equipes e um só dia de trabalho)
Galeria ampla e bem ornamentada

No final de uma ramificação da caverna, um lago e muito sedimento.

No fundo da caverna, um animal desconhecido indica que pesquisadores devem retornar em breve.

Mais barrigudas

Última moda na Serra do Ramalho: Crocs e sombrinha para as trilhas.

Na montante de uma drenagem identificada por imagem de satélite:
esta foi a informação advinda de um minucioso trabalho de prospecção a distância que nos possibilitou descobrir a caverna do Otaviano.
Logo após a entrada, uma clarabóia ilumina uma larga galeria na Gruta do Otaviano

Sem pegadas, sem informações oficiais ou mesmo de locais,
tudo indica que esta caverna era até então desconhecida.
Condutos amplos e bem ornamentados
Adentrar em uma nova caverna, onde a cada metro uma surpresa nos aguarda é uma sensação difícil de descrever.



Na Caverna do Otaviano foram mapeados 1,5km de topografia em  2 dias de trabalho 

Parada para lanche e descanso

Uma ramificação leva a um conduto freático com mais de 600m extensão








O apoio e hospitalidade dos amigos locais faz toda a diferença na viagem, da hospedagem às dicas de novas cavernas.

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