“E impelido pela minha ávida vontade, imaginando poder contemplar a grande abundância de formas várias e estranhas criadas pela artificiosa natureza, enredado pelos sombrios rochedos cheguei à entrada de uma grande caverna, diante da qual permaneci tão estupefato quanto ignorante dessas coisas. Com as costas curvadas em arco, a mão cansada e firme sobre o joelho, procurei, com a mão direita, fazer sombra aos olhos comprimidos, curvando-me cá e lá, para ver se conseguia discernir alguma coisa lá dentro, o que me era impedido pela grande escuridão ali reinante. Assim permanecendo, subitamente brotaram em mim duas coisas: medo e desejo; medo da ameaçadora e escura caverna, desejo de poder contemplar lá dentro algo que fosse miraculoso"

Leonardo Da Vinci

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Abismo Toca Do Porco - Relatorios de atividades (mapeamento e enchente)

Por Marcos Silverio:

Na última saída paramos a exploração no início de um lance vertical. Havíamos levado
pouca corda pois, além de ser domingo, a caverna não prometia muito. Mas começamos a nos animar com o potencial da caverninha.
Desta vez voltamos com mais corda e disposição. Até o ponto em que paramos desc- emos sem qualquer dificuldade dois pequenos lances após uma caminhada rápida. O único problema é a água do rio que passa por uma casa e onde animados porcos passam seu tempo. O cheiro não é dos mais agradáveis.
Arrumamos um bom lugar para a ancoragem, longe do chuveiro e a Karen se candidatou a descer. Primeiro achamos que ela estava ama- relando :), mas a corda já estava no fim e não entendíamos nada do que ela gritava lá de baixo. Qualquer coisa que precisava de mais corda, que não via o fundo etc. O Luis desceu em seguida e se juntou a ela num pequeno patamar. O César foi o próximo e logo depois eu.
Todos empoleirados no minúsculo patamar na fenda, vertical nos primeiros 10m e depois uma rampa escorregadia até o patamar a 12m do fundo. Com mais 15m de corda para o último lance até o fundo. O Luis e a Karen desceram e confirmaram o que temíamos. Continua! Uma fenda no contato prometia não terminar tão cedo.
Eu e o Cesar voltamos até o carro para buscar mais corda, trocamos as duas cordas na fenda pela maior, para deixar um lance direto e logo estávamos juntos no fundo.
Havia mais uns 60m de corda em 3 pedaços, uma delas semi rompida na descida, provavelmente devido a um atrito por conta da rampa. Cortei a corda e equipamos até o início do lance seguinte.
O César fez as ancoragens e desceu, uma rampa inclinada até a beirada de um grande garrafão. A imagem era linda, mais de 20m abaixo, um salão largo e muito alto. Já era 16h e resolvemos iniciar a topografia deste ponto já que o abismo continuava além desse salão e novamente estávamos sem corda.
A subida foi lenta e aborrecida, a longa corda na rampa nos fazia parecer um io-io e o frio começava a pegar. Mas logo encontra- mos o pessoal da outra equipe do lado de fora, com 2 sacos cheios de lixo tirado da caverna e animados após visitar um outro abismo próximo.
Quem sabe o que a caverna vai aprontar conosco na próxima...
Equipe: César, Karen, Leandro, Leda, Luis, Marcos e Regiane.



Por Daniel Menin – 1 mês depois…

A primeira coisa que fiz após ler o relato do Marcos e ver o croquis do abismo foi marcar minha ida à São Paulo. A ansiedade era grande e a oportunidade apareceu cerca de um mês depois quando eu, o Marcos e a Renata conseguimos conciliar nossas agendas e nos reunir para em um final de semana em Itaóca. Como o tempo era escasso, pretendíamos explorar o restante do abismo e sair da caverna com ao menos toda a parte vertical  topografada. Tudo isso em um só dia de atividade subterrânea.
Chegamos em Apiaí no Sábado a noite e separamos o Domingo para nossa incursão na caverna. Viajamos com as mochilas de caverna já prontas e fizemos apenas uma revisão pela manhã, o que agilizou o processo. Cerca de 230m de corda, muitas fitas, batedor, proteções de corda, spits, mosquetões, chapeletas e alguns equipamentos de técnicas leves. Água, comida, primeiro socorros e outros materiais menores. Tudo isto dividido em 4 mochilas (imagine o peso que elas ficaram...).
O tempo estava ameno. Fresquinho, com uma garoa fina, mas nada que prejudicaria os trabalhos na caverna.

Entramos na gruta às 10hs da manhã. O Marcos foi na frente, encarregado pela equipagem. Fui logo atrás dando o apoio necessário e a Renata seguiu descendo por último. Queríamos fazer tudo relativamente rápido e voltar até umas 4hs da tarde para não ficar muito cansativa à estrada de volta para São Paulo.
Cerca de duas horas depois chegamos ao amplo salão onde a equipe anterior havia parado por falta de corda, à -81m de profundidade. A partir deste ponto eu e o Marcos alteramos as posições. Passei a descer primeiro, equipando a caverna ao mesmo tempo em que fazia o trabalho de ponta de trena na topografia. O Marcos fazia as anotações e o croquis e a Renata a leitura dos equipamentos. A trena a laser facilitou muito o trabalho de topografia vertical viabilizando a equipagem e mapeamento ao mesmo tempo, apesar da equipe reduzida.
Assim que cheguei no fundo deste salão, encontrei uma base deixada pelo Cesar na topografia anterior. Uma estaca fixada na argila sobre um bloco bem no centro da sala. Mais adiante, uma desescalada entre blocos acessava mais uma descida livre. Fiz a segurança em um grande bloco e me debrucei para iluminar lá embaixo. Mesmo a forte luz da lanterna não foi o suficiente para ver o fundo do abismo. Enxergava-se cerca de 20m abaixo e, entre às laterais de rocha e blocos, um vazio negro indicava a  promissora continuidade da caverna. Um calmo e contínuo filete de água vinha de cima e acompanhava a parede em umas das laterais do salão, a água infiltrava-se entre os blocos e aparecia mais abaixo seguindo por outra lateral.
Batemos um spit para duplicar a ancoragem, fizemos um desvio para evitar contatos indesejados da corda com a rocha e seguimos descendo e topografando com tranquilidade. Apenas escutávamos o barulho calmo da água descendo nas ranhuras da rocha na lateral esquerda do conduto. Descíamos com os pés na parede inclinada. Uma espécie de "rampão"vertical.
Além da corda em que estávamos pendurados, eu ainda carregava na mochila mais duas cordas não muito longas e esperava que as mesmas fossem suficientes para chegarmos a algum conduto ou area horizontal da gruta. Sorte ou acaso, os próximos dois lances verticais compreenderam exatamente ao mesmo comprimento das cordas. Mesmo com alguns fracionamentos e desvios ao longo do caminho, no final destas duas descidas, não sobrou nem faltou sequer um metro de corda.
Ao descer o último lance vertical à vista me deparei com mais um amplo salão. Não tão grande como as salas anteriores, mas o suficiente para se caminhar confortavelmente de pé. Apesar do volume, agora as possibilidades de continuação já não eram tão claras. Enquanto a Renata e o Marcos topografavam esta última descida eu resolvi dar uma rápida olhada buscando por alguma continuação. Eu estava tentando passar por entre os blocos de um desmoronamento quando escutei o Marcos, ainda pendurado na corda alguns metros acima, perguntar se o nível de água estaria aumentando. Me virei até ele e sem muita analise apurada respondi: "Impressão sua!". Mais alguns segundos e o barulho da água evidentemente começou a aumentar. Saí do desmoronamento e fiquei em pé no meio do salão. Foi quando pude sentir uma corrente de ar mais forte, indício de que algo se movimentava dentro da caverna diferentemente de antes.  Olhei para a lateral do salão e na parede junto à corda eu não via mais apenas o filete de água escorrendo como antes. No lugar havia muito mais água descendo a parede violentamente junto à muita espuma.  Foi questão de segundos mesmo. A este ponto a topografia já havia sido interrompida e a Renata, assim como o Marcos, ambos completamente molhados, desciam direto para o salão. Nas laterais da sala  haviam várias áreas secas e lugares para nos abrigar caso a água aumentasse ainda mais. Contando com essas áreas de escape decidimos seguir um pouco adiante com a topografia e terminar logo o trabalho. Monitorando a variação fluvial da caverna mapeamos todo salão e também o restante dos condutos. Chegamos até a forçar alguma passagem seca, conduto lateral com alguns moradores morcegos, mas sem nenhuma continuação evidente. Toda a água que descia na caverna se infiltrava entre os blocos de rocha em dois diferentes pontos apertados no fundo do abismo. Diante da situação, demos por encerradas as possibilidades de exploração e mapeamento assim como a busca por continuidades.
Almoçamos e esperamos mais um tempo para analisar novamente o comportamento da água. O nível parecia estável, bastante volumoso, mas havia parado de aumentar. Tínhamos duas opções: iniciar a subida enfrentando a água, o que tornaria a volta à superfície claramente mais penosa ou aguardar o nível baixar para então começar a subir. Cabe lembrar que não estávamos no verão, época de constantes e fortes chuvas. Portanto, fora da época das inundações frequentes não estávamos muito preparados para passar dias aguardando a caverna "secar" ou ficar horas à fio molhados. Nesta época do ano, claramente havíamos sido pegos de surpresa. Aguardamos mais um pouco. Não observamos nenhum sinal de diminuição do volume de água, mas também nenhum sinal de aumento, então optamos por enfrentar a aguaceira toda e iniciar a subida.
Logo nos primeiros metros de corda já estávamos encharcados. Qualquer esforço a se manter seco era em vão.
A Renata foi subindo na frente enquanto que eu e o Marco nos alternávamos na desequipagem da caverna. Em alguns pontos, tentar enxergar o caminho afrente ou acima era impossível então nos guiávamos pela própria corda, presos por nossos equipamentos. Os movimentos, mesmos nas áreas mais horizontais ou amplas, deveriam ser realizados com calma e lentamente para evitar choques com saliências pontudas e afiados lapiás ao longo do caminho. Entre nós, tentávamos manter algum contato auditivo ou visual para saber se o companheiro estava bem e seguindo seu caminho. A cada lance de corda que eu escutava o companheiro de cima gritar "Liiiiivre!” me vinha um alívio duplo: era a indicação de que a corda estava livre para minha subida e de que a situação lá encima estava sob controle. Quando seu grito tardava a vir ou quando era de alguma maneira desproporcional eu já sabia que a subida tinha sido mais difícil que o usual.
Alguns lances verticais acima e chegamos ao maior salão da caverna. Como eu era o último da equipe a subir, rapidamente desamarrei a corda da ancoragem, guardei os equipamentos na mochila e em um raro momento de descanso pude contemplar a Renata subindo pela corda por uma parede à minha frente. Apaguei minha luz para economizar energias e confesso que vê-la subir por uma lisa parede de cerca de 20m verticais à frente de uma imponente cachoeira era uma visão espetacular. Pensei em fazer algumas fotos, mas tentar alguma comunicação com a Renata com o infernal barulho da água ou parar a subida  para fazer fotos seria algo totalmente fora de cogitação. Cena difícil de descrever e mais difícil ainda de fotografar.
Naquele momento eu lembrava de algumas histórias de enchentes em grutas verticais e algumas técnicas para nos proteger delas. Passando pela experiência na própria pele eu podia me certificar de uma coisa: a caverna que havíamos descido, ora seca e com boa visibilidade estava agora completamente desconfigurada. A condição de novos cursos d'água, de dificuldades na respiração devido à alta humidade e de falta de visibilidade nos expunha à um ambiente novo e bem mais desafiador. A situação se agravava bastante psicologicamente, sobre a incerteza de quanto tempo a vazão da água lá embaixo seria suficiente para evitar que a gruta ficasse completamente submersa.
Levantei com um determinado grito vindo da Renata informando que a corda estava livre para minha subida. Vi sua luz desaparecer em um conduto de onde saía muita água, há mais de 20m acima.
Graças à técnica "hors crue" onde equipamos uma descida com a corda fora de um possível novo curso em caso de enchente, esta maior subida não estava tão difícil pois mesmo sob a forte cachoeira a corda ainda se mantinha longe da água. Por outro lado, alguns outros lances, antes secos e simples, se tornaram difíceis subidas com água caindo fortemente no meio do caminho. Muitas vezes a água ocupava quase toda a área em torno da corda e não havia opções de sair debaixo dos violentos chuveiros gelados. Enquanto nos movimentávamos a temperatura era bastante suportável, mas a medida em que o tempo em que estávamos molhados se prolongava e que permanecíamos parados mesmo que por poucos segundos o frio tomava conta de nossos corpos. As mochilas, já carregadas de equipamentos, ficaram ainda mais pesadas encharcadas e muitas vezes cheias d’água. Na medida em que a atividade foi se prolongando, nossos organismos iam ficando mais cansados e a subida foi ficando mais penosa. Era como se existisse um cronômetro e estivéssemos correndo contra o tempo. Foi preciso bastante energia para subir os constantes garrafões diante destas condições.
Apesar de todas as dificuldades nos mantivemos o tempo todo tranquilos. A caverna, por suas formações já muito belas se tornara ainda mais contemplativa diante do poder da água varrendo seu caminho nas entranhas da terra e mergulhando nas profundezas. Esta beleza, somada à esportividade da situação e domínio da técnica nos dava certo conforto possibilitando controle da situação e calma apesar das mudanças no ambiente e dos momentos delicados.
Entre todo o percurso, sem dúvida umas das passagens mais difíceis foi a subida do rampão, pois a água vinha com bastante violência dificultando fixarmos nossos pés na parede e nos manter bem posicionados. O penúltimo lance da caverna, apesar de curto também foi penoso. Um fracionamento suspenso exigia muito esforço bem debaixo de uma forte cachoeira. Obstáculo muito difícil uma vez cansados e com frio. Subida que poderia ter sido bem mais fácil caso tivéssemos nos atentado a fazer uma equipagem evitando o caminho da água. Fica como aprendizado... mesmo para tempos fora da época das chuvas esta é uma boa prática a ser seguida.
Saímos da caverna às 19hs e a chuva havia parado. Segundo o morador local, logo após nossa entrada iniciou-se uma forte chuva que permaneceu incessante por quase todo o dia. Condição climática bastante atípica para esta época do ano. Logo ao chegar na pousada soubemos que nossos amigos já haviam ligado e demonstrado preocupação.
Fica este relato, como aprendizado de cautela e antecipação. Uma caverna, mesmo que aparentemente fácil ou simples pode se tornar um pesadelo em épocas de chuva e com uma equipe mais numerosa ou lenta. Pequenos problemas podem se tornar relevantes agravantes e causar graves acidentes por reação em cadeia.
Nos dias que se seguiram convivi com uma incômoda dor de cabeça, daquelas típicas de dias de ressaca. Fiz e refiz várias vezes o levantamento mental dos detalhes da atividade, buscando no fundo da memória cada minuto dentro da cavenra e anotando nossos erros e acertos. Após esta criteriosa análise acho que encontrei o principal causador desta dor de cabeça: desidratação!

Mapa: Leda Zogbi
Fotos do Mapa: Regiane Velozo, Luiz Rocha e Leda Zogbi.

2 comentários:

nalga disse...

Parabéns, gostei muito do relato e principalmente do trabalho espeleológico efectuado e partilhado com todos, aqui em Portugal tambêm ainda é possivel fazer novas descobertas , quanto mais no vosso enorme Brasil...
Um grande abraço e continuem a descer esses magnificos algares(abismos).
Membro suspenso

Renata Andrade disse...

Ficou bem legal o texto! E o desespero olhando aquela imensidão de água a medida que subia mais?... E a corda bem no centro dela...