"E impelido pela minha ávida vontade, imaginando poder contemplar a grande abundância de formas várias e estranhas criadas pela artificiosa natureza, enredado pelos sombrios rochedos cheguei à entrada de uma grande caverna, diante da qual permaneci tão estupefato quanto ignorante dessas coisas. Com as costas curvadas em arco, a mão cansada e firme sobre o joelho, procurei, com a mão direita, fazer sombra aos olhos comprimidos, curvando-me cá e lá, para ver se conseguia discernir alguma coisa lá dentro, o que me era impedido pela grande escuridão ali reinante. Assim permanecendo, subitamente brotaram em mim duas coisas: medo e desejo; medo da ameaçadora e escura caverna, desejo de poder contemplar lá dentro algo que me fosse miraculoso"

Leonardo Da Vinci

terça-feira, 10 de abril de 2012

Sistema Areias em Fotos

O Sistema Areias, no PETAR, SP sempre foi especial para mim. Já nos meados de 1997, antes de ser de algum grupo de espeleologia, eu perambulava pelos intermináveis condutos, rios e labirintos subterrâneos do sistema insistindo em encontrar conexões ou novas saídas das cavernas. Era programa obrigatório em todas as viagens para o PETAR. Mas foi somente em 2004, depois de ter entrado no GPME que, após muito incentivar os companheiros do grupo, conseguimos autorização do parque e iniciamos a mapear detalhadamente a caverna Areias de Cima. Foi um trabalho que realizamos entre os anos de 2004 e 2007. Um projeto que deu um grande ânimo para o grupo e, graças a dedicação excepcional da Leda em desenhar mapas (sejamos justos), conseguimos terminar o trabalho a tempo para o lançamento do livro ˜Sistema Areias, 100 anos de estudos", organizado pela Prof de Bio da USP Eleonora Trajano. Topografamos e exploramos muitos condutos ainda desconhecidos na caverna, mas na época, como eu ficava sempre incumbido de mapear as áreas mais profundas e distantes, nunca tive tempo de fotografar como gostaria os belos condutos e salões da Gruta. Fiquei com essa pulga atrás da orelha até semana passada, quando pudemos retornar à caverna e então fotografar alguns condutos com mais tempo e calma. O resultado são algumas das fotos que publico aqui no TerraSub. Não são apenas fotografias da caverna de Areias de Cima, mas também de outra caverna do mesmo sistema, a gruta Laboratório.
Fotos e textos Daniel Menin
















segunda-feira, 19 de março de 2012

Caverna do Diabo

"Bem que o Marcos disse que seria divertido". Repeti mentalmente essa frase várias vezes durante as atividades do final de semana dos dias 2 e 3 de Março. 
Estávamos ajudando os estudos de campo do Mestrado de nossa amiga Bruna, mas devido a atividade ser em caverna tão ilustre, a ação foi bem além de minhas expectativas.
Entramos pela entrada turística, seguimos por uma bela rede fóssil da caverna para as áreas de coleta de sedimentos. Acessamos diversos lances verticais, escaladas, cordas, desmoronamentos e abismos até chegarmos ao grande conduto do rio. Por ele seguimos transpondo cachoeiras, passagens a nado, desmoronamentos e grandes salões até chegarmos quase no final da gruta. Voltamos no mesmo dia para a entrada turística e deixamos as cordas para serem retiradas no dia seguinte. Estávamos cansados. Na verdade, exaustos. Mas também estávamos felizes da vida por mais um belo dia de espeleologia. Fui dormir e por mais rápido que o sono tenha vindo ainda deu tempo de repetir mais uma vez silenciosamente: "bem que o Marcos disse que seria divertido".



Fotos de Daniel Menin e Marcos Silverio












sexta-feira, 2 de março de 2012

Topografia da Gruta Buenos IV e Gruta do Lago Azul, Bulha D’água/SP


Numa equipe mais numerosa do que o normal para os padrões de Bulha D’água, partimos eu, Carol, Cesar, Iscoti, Magna, Rodrigo, Thales, Thomas, Vanessa e Zé Guapiara, nos dias 25 e 26 de fevereiro de 2012 para finalizar o mapeamento da Gruta Buenos IV, descoberta em 2008 e para plotar algumas cavernas próximas à Gruta do Capinzal, afluente da Gruta de Buenos I.


Após a equipagem da descida para a galeria do rio da Buenos IV fizemos um reconhecimento e constatamos a continuação além do desmoronamento à montante. O objetivo era mapear a continuação do rio à jusante, porém decidimos iniciar por uma galeria lateral, que parecia não ir muito longe, e matar logo o trabalho. Sem contrariar a tradição, a galeria não só não fechou, como se mostrou tão grande que além de não conseguirmos mapeá-la nem chegamos a descer o rio. Deixando muito o que fazer para a próxima investida.

No domingo fomos identificar e organizar a bagunça das cavernas encontradas nos últimos dois anos, próximas à trilha do Capinzal. Localizamos as entradas e decidimos mapear uma ligação entre a Gruta do Lago Azul e uma entrada próxima. A Carol e o Thomaz (Vagalume) seguiram na frente procurando o caminho entre os blocos e a Magna, o Rodrigo e eu atrás mapeando. Após os dois sumirem na nossa frente encontramos a conexão, mas nem sinal dos dois. Saímos pela outra entrada quando então soubemos que após fazerem a conexão eles erraram a volta entre os blocos e espremeram-se num quebra-corpo até sair na Gruta do Capinzal, fazendo outra conexão! Até quando saem errado as coisas dão certo.

Mata na região do Capinzal Fotos Marcos Silverio

Gruta do Ribeirãozinho III Foto Marcos Silverio

Acesso à galeria do rio na Gruta de Buenos IV Foto Iscoti

Equipagem da descida para galeria do Rio da Gruta de Buenos IV Foto Marcos Silverio

Descida para a Galeria do rio na Gruta de Buenos IV Foto Iscoti
Descida para a Galeria do rio na Gruta de Buenos IV Foto Iscoti
Galeria do rio na Gruta de Buenos IV Foto Iscoti
Equipe Foto Iscoti


sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Carnaval de 2012 na Bahia


Enquanto uma esmagadora maioria de foliões pulava em seus blocos de carnaval no litoral da Bahia, nós, uma esmagadora minoria de espeleólogos pulávamos (felizes da vida), cobras, aranhas, blocos de rocha e abismos no árido sertão deste mesmo estado. No final das contas, o cansaço físico até que pode ser comparado entre as duas atividades, mas a produção de mapas, fotos e sensação de felicidade plena já é outra história...
Foi assim que passamos os quatro dias de folga de nossos tradicionais trabalhos para dar continuidade ao Projeto Morro do Chapéu, dirigido pelo CPRM (Centro de Pesquisa de Recursos Minerais) e com nosso apoio na exploração e mapeamento das cavernas da região.
Os resultados foram mais de 1,5km de topografia, novos condutos e salões e uma importante conexão. Agora as Cavernas de Cristal I e II, antes separadas, compreendem a uma só cavidade: o Complexo Cristal. A ligação foi realizada no final das topografias do segundo dia de trabalho e causou um enorme espanto de turistas desavisados que caminhavam pelo grande conduto da caverna de Cristal II. Estes, ao se depararem com espeleólogos sujos e cansados saindo de apertados blocos na lateral do conduto ensaiaram uma fuga repentina, mas ao se certificarem que não se tratava de uma invasão de criaturas alienígenas do subterrâneo se renderam a uma conversa e fotografaram freneticamente seus novos amigos. Esta foi somente um dos bons momentos que essa viagem nos proporcionou. 
O trabalho continua e promete muitas outras boas histórias!