“E impelido pela minha ávida vontade, imaginando poder contemplar a grande abundância de formas várias e estranhas criadas pela artificiosa natureza, enredado pelos sombrios rochedos cheguei à entrada de uma grande caverna, diante da qual permaneci tão estupefato quanto ignorante dessas coisas. Com as costas curvadas em arco, a mão cansada e firme sobre o joelho, procurei, com a mão direita, fazer sombra aos olhos comprimidos, curvando-me cá e lá, para ver se conseguia discernir alguma coisa lá dentro, o que me era impedido pela grande escuridão ali reinante. Assim permanecendo, subitamente brotaram em mim duas coisas: medo e desejo; medo da ameaçadora e escura caverna, desejo de poder contemplar lá dentro algo que fosse miraculoso"

Leonardo Da Vinci

segunda-feira, 24 de março de 2008

Páscoa - abril 2007

por Daniel Menin

Sexta-feira - Caverna do Agenor:
Na ultima investida na caverna deixamos vários condutos em aberto que prometiam um verdadeiro labirinto em alguns níveis diferentes.
Dividimos as áreas de trabalho em 6 quadros com cerca de 20 continuações possíveis...
No Sábado foram formadas 2 equipes sendo uma de fundo, que iria até a parte mais extrema da caverna averiguando os 3 últimos quadros e outra que ficaria um pouco mais atrás. As 2 equipes estavam nas áreas descobertas durante as ultimas viagens (salão das elictities, baixão e continuações).
A primeira equipe se dirigiu diretamente para um longo conduto de teto baixo (o “Superespreme”) que apontava diretamente para a área fora do perímetro da caverna o que o tornava bastante promissor. Havíamos topografado seu início na ultima viagem retornado antes de atingir seu fechamento. A equipe topografou o conduto até atingir uma área bastante “enlameada” e de proporções reduzidas a ponto de deixar um tatu com claustrofobia. Desistimos então daquele ponto e iniciamos a volta fechando as entradas laterais. Acessamos um grande labirinto onde quase todos os condutos se interligam em algum momento. Aparentemente esta área era um grande conduto que foi, um dia, entupido de sedimentos sendo desobstruído com o tempo e formando muitos condutos e passagens de forma caótica e em diversos níveis.
A equipe 2 topografou outras continuações onde também pôde atingir esta área confusa e unir a topo com a outra equipe em alguns pontos.
Muitos dos fechamentos foram realizados não ficando nenhum grande conduto em aberto.
Trabalhamos por cerca de 8hs na caverna e pela primeira vez saímos com menos trabalho do que entramos !
Ainda faltam alguns condutos interessantes a serem verificados, o histórico da caverna nos aponta que em qualquer um destes condutos podemos encontrar outras continuações e continuações...

Sábado:
Na Sexta foi realizada uma assembléia extraordinária e todos os participantes da expedição se rebelaram com a idéia de voltar para a Agenor, devido a canseira do dia anterior ( espeleoidosos é fogo! ).
Desta forma, o grupo foi dividido onde uma parte seguiu para as cavernas do Bethary topografando a Gruta do Gastão (é isso Guano ?) e outra partiu a procura do Abismo Doriana, também naquela região. A segunda equipe bateu-mato insistentemente, mas não encontrou o abismo resolvendo desistir da empreitada.



Para não perder a arrumação das malas a equipe resolveu “dar uma passada” no Abismo do Mastodonte para averiguar uma possível e quase remota continuação, super apertada, dentro da água, no fim de um longo conduto de teto baixo, o qual na primeira ocasião eu jurei que não voltaria nunca mais...


Fomos até o abismo, equipamos, descemos e seguimos pelo conduto até a passagem mais apertada. Depois de uns 200m de teto baixo o conduto acaba em um pequeno lago onde mal é possível colocar a cabeça para ver se continua... de certa forma este foi exatamente o problema.


Depois de uma rápida discussão para definir quem seria o “mergulhador” eu acabei aceitando (em troca da desequipagem do abismo) e entrei no laguinho. Depois de estar completamente dentro da água, com a cabeça virada tentando respirar no pequeno espaço do conduto alagado verifiquei que a continuação abria um pouco. Mais cerca de 1m de desespero e pude sair do conduto e ficar em pé em um outro conduto perpendicular de proporções animadoras. Tratava-se de um conduto ativo de rio com plena continuação dos dois lados.
Chamei o Renato que acabou também tendo que passar pelo “ralo de privada” e exploramos o conduto nos certificando que esta fecha dos dois lados a algumas dezenas de metros adiante. Não topografamos pois estávamos sem equipamento. Pela dificuldade de acesso provavelmente esta área ficará somente no croquis (acrescentarei em breve).
Fica uma sugestão de topografia para o ano de 2900 quando os espeleólogos já tiverem mapeado todas as cavernas do universo.

Nesta empreitada estavam eu, o Renato e a Renata.

Eu e o Renato exploramos esta continuação e a Renata ficou entusiasticamente esperando fora do conduto, próximo à corda...
No Domingo acordamos, arrumamos as coisas e enfrentamos um dos maiores congestionamentos da história da humanidade. Esta que, a cada dia insiste em crescer e se multiplicar...

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