“E impelido pela minha ávida vontade, imaginando poder contemplar a grande abundância de formas várias e estranhas criadas pela artificiosa natureza, enredado pelos sombrios rochedos cheguei à entrada de uma grande caverna, diante da qual permaneci tão estupefato quanto ignorante dessas coisas. Com as costas curvadas em arco, a mão cansada e firme sobre o joelho, procurei, com a mão direita, fazer sombra aos olhos comprimidos, curvando-me cá e lá, para ver se conseguia discernir alguma coisa lá dentro, o que me era impedido pela grande escuridão ali reinante. Assim permanecendo, subitamente brotaram em mim duas coisas: medo e desejo; medo da ameaçadora e escura caverna, desejo de poder contemplar lá dentro algo que fosse miraculoso"

Leonardo Da Vinci

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Gouffre de Vauvougier - França


Cidade: Montrond le Château;
Departamento: Doubs;
Saída durante estágio junto a EFS (Escola Francesa de Espeleologia).

Após um dia de avaliação técnica em uma falésia dedicamos o primeiro dia embaixo da terra para também sermos avaliados em equipagem e desequipagem porém agora em um ambiente real, sobre as condições reais de uma caverna.
O Gouffre de Vauvougier é um lindo abismo que dá acesso a uma labiríntica rede subterrânea. Estávamos em 2 equipes de 4 pessoas sendo 3 alunos e 1 instrutor que apenas acompanhava os alunos intervindo no trabalho de equipagem quando pertinente.
A primeira equipe, a qual eu fazia parte, tinha como objetivo acessar a rede subterrânea e nós a profundidade pelos lances a esquerda do Puits du Pendule (ver mapa). Nossa equipe estava formada por Julian, Jackie, eu e a instrutora Cécile. Julian começou a equipagem descendo pela lateral direita de um enorme e volumoso abismo de entrada. Uma equipagem considerávelmente técnica uma vez que foi necessário vários pêndulos para acessar os spits nas paredes do abismo. A vista da luz externa em raios de sol entrando no abismo era algo de espetacular. Descemos cerca de 45m com alguns fracionamentos e ao chegar lá embaixo percebemos que havíamos passado um conduto lateral que deveríamos ter seguido e direção ao Puits du Pendule, como fez a outra equipe. Então subimos, aproveitamos as amarragens da outra equipe e acessamos ou outros abismos em direção ao nosso objetivo. A partir desse ponto fui o responsável pela equipagem. Equipei cerca de 40 a 50m até uma sala de onde saía um dos últimos lances. Equipagem feita em spits batidos sobre um grande bloco e desci o lance até a metade, onde me deparei com o nó de fim de corda. Era o fim de nossa descida. Jackie quis também descer para observar o belo lance pela metade. Almoçamos todos nessa sala e começamos a subir para voltar. Jackie e Julian desequiparam a parte equipada por mim e eu fiquei encarregado de desequipar os primeiros lances equipados por Julian. Ainda não sei as exatas sensações que tive ao desequipar diversos fracionamentos em pêndulo. A cada última desparafuzada na plaqueta era como se fosse um gatilho me pendulando em um belo vôo para o centro de um largo garrafão de quase 50m de altura. “Ao escolher os lugares para bater spits e equipar, pense na hora da desequipagem” pensei comigo mesmo.
Por ser o primeiro dia de atividade subterrânea resolvi não levar a máquina fotográfica mas me arrependi amargamente pois o abismo é seco, com grandes garrafões e perfeito para fotografias. Fica então essa dica para uma outra vez, um dia, quem sabe...

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