“E impelido pela minha ávida vontade, imaginando poder contemplar a grande abundância de formas várias e estranhas criadas pela artificiosa natureza, enredado pelos sombrios rochedos cheguei à entrada de uma grande caverna, diante da qual permaneci tão estupefato quanto ignorante dessas coisas. Com as costas curvadas em arco, a mão cansada e firme sobre o joelho, procurei, com a mão direita, fazer sombra aos olhos comprimidos, curvando-me cá e lá, para ver se conseguia discernir alguma coisa lá dentro, o que me era impedido pela grande escuridão ali reinante. Assim permanecendo, subitamente brotaram em mim duas coisas: medo e desejo; medo da ameaçadora e escura caverna, desejo de poder contemplar lá dentro algo que fosse miraculoso"

Leonardo Da Vinci

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Grand gargai de la Sainte-Victoire - França



St-Antonin - Montagne Ste-Victoire;
Cidade: Aix-en-Provence
Departamento: Alpes de haute Provence;

Visita de treinamento técnico vertical;
27 de Fevereiro de 2005 – Grupo CAF ( Clube Alpin Francaise – contact Richard);

Eis a primeira caverna que efetivamente visitei na França. Após participar de algumas reuniões no CAF (Clube Alpino Frances) mostrando fotos e algumas revistas do Brasil fui convidado a acompanhar uma turma em uma saída de treinamento. Cabe lembrar que fazia pouco tempo que eu estava no país e a comunicação com as pessoas em francês não estava lá grande coisa.
Consegui entender que a caverna ficava no Mont Sant Victoire e que deveríamos nos encontrar em uma avenida, perto da casa em que eu estava hospedado, às 5hs da manhã, em ponto.
O resto, não entendi muito bem mas não poderia deixar de ser detalhes insignificantes.

Na manhã combinada e no local exato encontrei o Richard e o Christofe e outros integrantes do CAF em um tradicional velho furgão branco de espeleólogo, digamos de passagem, carro adequadíssimo à atividade.
Uma meia hora de estrada e já estávamos a beira do maciço de Sant Victoire, uma imponente montanha de calcário completamente exposto com cerca de 800m de altura de sua base a seu cume. O cinza do calcário ainda estava rosado, com as primeiras luzes do dia. Estacionamos o carro há beira da montanha e enquanto descíamos nossas mochilas e corda um dos espeleólogos do grupo aponta para o cume da montanha e, com certo ar de gozação me diz algo assim: “a caverna fica lá encima, bem na pontinha da montanha. Preparado pra subir?”. Tentei sem sucesso me certificar com as outras pessoas do grupo que ele estava brincando mas pelo meu desespero todas confirmaram a informação.

Iniciamos a trilha de subida antes mesmo que eu pudesse me preparar psicologicamente. “Hoje será um dia daqueles!”, pensei comigo mesmo.
A subida, que por si já penante, foi obviamente agravada pelo peso dos equipamentos de vertical, cordas e tudo o mais. Até certo ponto caminhamos sobre o calcário, em trilhas bastante íngremes. Depois, iniciamos vias mais inclinadas e passando a “escalaminhar”.
A beleza era deslumbrante e contribuiu bastante para que o tempo passasse rápido. Na verdade, a subida nem foi tão pesada como eu imaginava (nada como um pessimismo nestas horas!). O clima frio, o céu absolutamente azul e a beleza do lugar compensavam o esforço. As montanhas vizinhas, outrora altas, agora não passavam de pequenos morrotes, lá embaixo.

Cerca de 3 horas depois de iniciarmos a subida já estávamos praticamente no cume. Paramos para comer em um pequeno platô há alguns metros da parte mais alta da montanha. Ao nosso lado as paredes já estavam totalmente verticais. Um pouco acima ficava uma passagem de rocha chamado Arco das Andorinhas e logo a frente do platô, uma boca vertical dava acesso ao interior da montanha. Era enfim o objetivo de nossa subida: o Abismo Garganta de Sant Victoire.
Almoçamos ali, entre uma deslumbrante vista. Segundo os franceses, podíamos sentir a brisa do mar de Marseille, há cerca de 50km a Sul. As vezes um forte vento dava rajadas nervosas. Era o Mistral, que pode atingir enormes velocidades derrubando escaladores desavisados. Após uma boa sessão de queijos e vinhos, perfeito para o lugar, nos equipamos e iniciamos a descida do abismo, agora pela parte interior da montanha.
Maravilha!

Trata-se de um abismo clássico, todo equipado e com diversas escolhas de ancoragem. Dois sucessivos poços acessam o fundo desmoronado de um grande salão. Um fracionamento negativo na metade do segundo lance exige um pouco de técnica do espeleólogo, porém, de forma geral o abismo pode ser considerado fácil.
Algumas galerias bastante ornamentadas nas partes mais profundas. Uma inscrição dos primeiros exploradores e os restos das escadas utilizadas nas primeiras explorações são encontradas no fundo do abismo. Ao chegar na inscrição notamos uma assombrosa coincidência: Estávamos exatamente à 67 anos do dia em que o abismo foi explorado.
No fundo do grande salão ainda podíamos ver os restos das escadas velhas de ferro utilizadas pelos exploradores. Na França não é raro encontrarmos dentro das cavernas restos de equipamentos antigos utilizados em outras épocas e abandonados devido ao peso e dificuldade de levá-los de volta à superfície.

No momento de subida me vi em uma situação um pouco inusitada: um dos espeleólogos, bastante cansado, não conseguiu transpor o fracionamento aéreo e se enroscou entre seus equipamentos e as cordas. Como eu era a pessoa abaixo mais próxima coube a mim prestar o devido socorro. Subi até ele, que estava suspenso na metade do maior lance, há cerca de 40m do fundo. Realizamos uma espécie de contra-peso para conseguir desenroscar o fulano e reconectá-lo à corda de subida. Ele não era tão leve mas confesso que a maior dificuldade não foi de levantá-lo e realizar a manobra mas sim de conseguir explicar em francês, o que eu estava fazendo.

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