“E impelido pela minha ávida vontade, imaginando poder contemplar a grande abundância de formas várias e estranhas criadas pela artificiosa natureza, enredado pelos sombrios rochedos cheguei à entrada de uma grande caverna, diante da qual permaneci tão estupefato quanto ignorante dessas coisas. Com as costas curvadas em arco, a mão cansada e firme sobre o joelho, procurei, com a mão direita, fazer sombra aos olhos comprimidos, curvando-me cá e lá, para ver se conseguia discernir alguma coisa lá dentro, o que me era impedido pela grande escuridão ali reinante. Assim permanecendo, subitamente brotaram em mim duas coisas: medo e desejo; medo da ameaçadora e escura caverna, desejo de poder contemplar lá dentro algo que fosse miraculoso"

Leonardo Da Vinci

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Reseau de la Sonnette - França


Nome: Reseau de la Sonnette / Reseau de Avenir – Grande Viaille;
Cidade: Savonnières en Perthois – Carrière du Village
Departamento: Perthois;

17 e 18 de Abril de 2005 – Speleoclub Chilly Masarin;

Aí vai mais um relatório de saída para uma caverna na França.
Desta vez, a saída foi junto ao Speleoclub Chilly Massarin, grupo dos arredores de Paris.

A Reseau (ou rede) de La Sonnette é um complexo de galerias escavadas artificialmente para extração de calcário, prática comum na França em outras épocas. Ao longo das galerias, abrem-se abismos naturais, encontrados ao acaso durante as escavações.
A entrada para a o complexo subterrâneo faz-se através de uma sinuosa estrada de terra. Após passar por alguns portões aparentemente abandonados, a estrada encerra sua fase a céu aberto e adentra na montanha em uma espécie de túnel. Eis as galerias escavadas.
Eu já havia estacionado o carro perto das entradas de cavernas o que nos exclui das trilhas e caminhadas de aproximação, mas desta vez havíamos superado todas as expectativas. Estávamos trilhas dentro delas!
Avançamos pelo labirinto subterrâneo alguns minutos até chegarmos a uma sala bastante ampla onde estacionamos os veículos e montamos acampamento. Daquele momento em diante não veríamos mais a luz do dia até o domingo, quando voltaríamos à Paris.
Desta sala parte-se em direção a 2 redes de galerias verticais. Abismos naturais em meio às galerias escavadas. O objetivo da saída era iniciação de novatos ao grupo e à espeleologia. Justamente por este motivo é que havia se escolhido este local onde era possível estar por um bom período continuamente abaixo da terra (2 dias) e com uma certa estrutura possibilitando o fácil acampamento. Com um pouco de caminhada, as galerias acessavam 2 abismos naturais. O Abismo de La Sonnette e o abismo de Grande Viaille.
O grupo era grande (cerca de 15 pessoas) e foi dividido em dois, cada um se dirigindo para um dos abismos.

O Abismo de la Sonnette, mais profundo (-65m) possui logo no início um bonito lance de 30m seguido por outros 3 lances pequenos até o fundo do abismo. O último deles, um belo garrafão com as paredes laterais arredondadas.

Na volta ao acampamento foi preparada uma quente sopa espeleológica (que na verdade não esquentou muito a temperatura) e boa parte da sala foi iluminada a velas. Durante o tempo todo a temperatura da rede subterrânea ficou em torno de 6 graus (muito frio para um mortal brasileiro!).

Obviamente sem tomar banho, fomos dormir. Eu não havia entendido perfeitamente todas as prévias recomendações de pernoite e estava munido apenas de um leve saco-de-dormir tropical e um isolante térmico de promoção.
A noitada nesta temperatura e sob estas condições foi obviamente memorável. Tentando fugir do frio, vesti todas as minhas roupas secas de uma só vez, entrei dentro do sleep e, ainda não satisfeito, tentei me espremer dentro de minha mochila cargueira, ainda seca. Devo ter ganho alguns importantes graus celcius com esta última medida desesperada porém, para minha infelicidade, quando comecei a cochilar (dormir é luxo demais nestas condições) os despertadores tocaram...
No Domingo, ainda doendo de frio depois do café da manhã, resolvi desistir de conhecer o menor abismo e saí para me esquentar e secar minhas roupas (e mochila) no sol. Sábia decisão!

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