"E impelido pela minha ávida vontade, imaginando poder contemplar a grande abundância de formas várias e estranhas criadas pela artificiosa natureza, enredado pelos sombrios rochedos cheguei à entrada de uma grande caverna, diante da qual permaneci tão estupefato quanto ignorante dessas coisas. Com as costas curvadas em arco, a mão cansada e firme sobre o joelho, procurei, com a mão direita, fazer sombra aos olhos comprimidos, curvando-me cá e lá, para ver se conseguia discernir alguma coisa lá dentro, o que me era impedido pela grande escuridão ali reinante. Assim permanecendo, subitamente brotaram em mim duas coisas: medo e desejo; medo da ameaçadora e escura caverna, desejo de poder contemplar lá dentro algo que me fosse miraculoso"

Leonardo Da Vinci

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Relembrando sobre o Abismo Los Tês Amigos

Semana passada eu estava preparando o próximo numero da revista O Carste, do grupo Bambuí de Pesquisas Espeleológicas. Entre outras matérias, este exemplar publica uma bela história do Alexandre Camargo (Iscoti) sobre a descoberta e os trabalhos de exploração do Abismo Los TRÊS amigos, no PETAR, em São Paulo.

Lembrei então de um relato que escrevi em meados de 2006, logo apos uma expedição nesta caverna. Resolvi então, compartilhar este relato aqui no Blog TerraSub para quem estiver interessado em ler um pouco sobre a aventura. Além de difundir a atividade, coloca mais pimenta e interesse nas publicações dos próximos números da revista. Como fui eu quem escrevi o texto original, tomei a liberdade de realizar uma revisão recente corrigindo pequenos erros e atualizando alguns dados.



De Daniel Menin – Setembro de 2006

“Escrevo abaixo, ainda me recuperando fisicamente da empreitada, um relato do que foi a expedição e do que encontramos debaixo da terra.

O Abismo Los Três Amigos (Brandi/Iscoti/Allan) foi encontrado há cerca de um ano (em 2006) e seu fundo foi atingido, com muito suor, na última expedição, em Maio. Trata-se um imenso salão, parcialmente topografado naquela ocasião e de um conduto ativo de rio à cerca de 200m de profundidade.

Os objetivos da investida deste final de semana era terminar a topografia deste grande salão e seguir com a topografia pelo conduto ativo do rio. Na ultima viagem foi verificado que este conduto ativo continuava nos dois sentidos, mas nada foi explorado.

Participaram da expedição um grupo de 11 espeleologos sendo 2
 do GPME (Eu e o Allan), 8 do Bambuí e 1 do EGRIC.

A atividade foi razoavelmente longa. Entramos na caverna à uma hora da tarde do Sábado e saímos lá pelas 7hs do Domingo. A caverna, até a base do grande salão, é toda vertical. Logo na entrada já utiliza-se corda pois trata-se de uma fenda aberta no solo da mata densa de Bulhas. Um primeiro lance nos leva até um salão de médio porte. O abismo segue através de uma sucessão de lances verticais de diversas profundidades e dificuldades. Alguns lances são em negativo e o espeleólogo fica somente na corda, outros são em paredes levemente positivas e pode-se auxiliar a descida com os pés. Em quase todos os lances temos bastante lama o que pode tornar a descida mais rápida do que o esperado e exige certo cuidado suplementar. Existem fracionamentos de todos os tipos e níveis possíveis. Em positivo, em negativo, em fenda estreita, etc.

A cerca de -80m acessa-se um platô à beira de um enorme vazio. Trata-se do grande salão. Ali temos o maior lance livre de corda da caverna. Uma tenebrosa descida de 45m totalmente negativa em uma das laterais de um imponente salão. Nossas lanternas, por mais potentes que sejam tinham dificuldade de iluminar as paredes a dezenas de metros adiante. O Ezio desceu primeiro e, pendulando um pouco, parou sobre um grande bloco de cerca de 10m da base do fim da corda. Desci em segundo, saí da corda, caminhei até uma parte mais plana na lateral mais próxima da corda e fiquei admirando a descida das outras pessoas. De cima do bloco o Ezio fazia a medição das laterais do salão com uma trena a laser levada por ele: “140m! gritou em uma das medidas”.
Estávamos em 3 equipes de topografia: 2 seguiriam para topografar os 2 sentidos do rio e uma ficaria topografando o grande salão.
O solo do salão é, na sua grande maioria, formado por grandes blocos abatidos. O rio, a dezenas de metros abaixo, é acessado com corda em mais lances verticais entre estes blocos. O Ezio ficou com uma equipe de 4 pessoas topografando o salão enquanto que as outras 2 equipes de 3 pessoas desceram para o rio. Em alguns pontos, do conduto do rio até o teto do salão foi medido uma distância de 100m verticais! Uma altura incrível para o interior de uma caverna ainda desconhecida no PETAR.
O Brandi e mais 2 pessoas seguiram topografando a jusante do rio. Eu, o Allan e o Rogério seguimos topografando a montante.
Já adianto que nenhuma das 2 equipes conseguiu terminar seu trabalho ou mesmo chegar à qualquer indício de final da caverna.

O rio segue serpenteando em um conduto ora de grandes galerias com o teto a cerca de 20m acima, ora em pequenos desmoronamentos facilmente vencidos. Topografamos centenas de metros de rio observando alguns pontos de escalada e algumas janelas que acessavam condutos superiores de grandes proporções.

Em um dado momento, estávamos em um dos desmoronamentos do conduto ativo da montante quando a equipe do Brandi apareceu para nos chamar a ajudá-los na topografia do outro lado da gruta. Entusiasmado, o Brandi contava que havia encontrado a equipe do Ezio, em gigantes galerias desmoronadas. Certamente precisariam de ajuda.
Como estávamos com nossa topo quase transpondo este desmoronamento resolvemos antes unir as equipes e seguir um pouco mais pela galeria do rio para depois, enfim, encontrarmos o Ezio nas galerias do outro lado da gruta.
Mais alguns metros de rio e resolvemos seguir por uma subida lateral para tentar acessar um conduto fóssil cerca de vinte metros acima. Nos deparamos com outro desmoronamento e mais acima monstruosas continuações. Galerias desmoronadas com cerca de 30m, 40, 50m de diâmetro e de altura! Um conduto que seguia para os dois lados nestas mesmas proporções! Resolvemos seguir topografando até atingirmos uma bifurcação, igualmente volumosa. Estávamos já bastante cansados e sem muita comida e carbureto, deixados na base do grande salão do abismo. Resolvemos parar a topografia e iniciar o processo da volta.

O combinado era que todas as equipes deveriam se encontrar na base do salão e às 2h da manhã iniciar a subida de corda para sair da caverna. A idéia era  estamos todos fora da caverna lá pelas 7h pois teríamos um trator nos esperando perto da trilha às 8hs e ninguém tinha a intenção de perder essa carona!
Deixamos, portanto, a bifurcação em aberto e voltamos para o salão. Encontramos a equipe do Ezio nos dizendo que também não conseguiram terminar a topo no lado deles. De ambos os sentidos de desenvolvimento da caverna temos a ampla gelaria do rio continuando e os gigantes condutos desmoronados acima.

Voltamos o tempo todo discutindo como seria a melhor logística de expedição para conseguir topografar toda a caverna. Seria bivacar algumas noites lá dentro? Seriam investidas mais ágeis com pequenos grupos divididos em horas diferentes? Quando seria a próxima viagem?

Uma coisa é certa: estávamos à frente de uma das maiores descobertas da espeleologia brasileira através de técnicas verticais. E nem ainda sabíamos as reais proporções desta descoberta... Estamos falando de galerias e salões gigantes, de volumes comparados à gruta Casa de Pedra e de longas galerias ativas como Areias ou Santana. Certamente uma caverna com muitos  kms de desenvolvimento.

A subida foi bastante penosa. O alívio de subir o maior lance do grande salão é logo abafado por mais 80m de uma série de subidas bem chatas. O excesso de lama nos equipamentos faz com que os blocantes não trabalhem direito simplesmente deslizando corda abaixo em alguns momentos. O cansaço, o frio, a espera da corda livre e a quantidade de fracionamentos acentuam a dificuldade de subida fazendo com que saíssemos da caverna completamente exaustos.
Saí por último e logo ao pisar fora da caverna fui agradavelmente surpreendido por uma caneca de café quentinho. Era um presente do Zé, morador local que sempre nos acompanha com entusiasmo e empenho mata adentro, além de nos ajudar bastante com seu trator. Ufa! Maravilha!

Parabéns a todos, mas principalmente ao Brandi ao Allan e ao Iscoti (Los três Amigos) que há tempos vêem insistindo e se  dedicando ao trabalho naquela área”.

O próximo número da revista O Carste (Volume 22 N.3) vem com uma matéria especial do Alexandre Camargo (Iscoti) sobre a descoberta e as explorações do Abismo Los 3 Amigos. Este relato aqui foi só para dar mais água na boca...
Se você ainda não assina O Carste entre em contato com o Brandi ou com o Fred Lott e peça sua assinatura (azuias@yahoo.com.br / fredlott@gmailcom).

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