"E impelido pela minha ávida vontade, imaginando poder contemplar a grande abundância de formas várias e estranhas criadas pela artificiosa natureza, enredado pelos sombrios rochedos cheguei à entrada de uma grande caverna, diante da qual permaneci tão estupefato quanto ignorante dessas coisas. Com as costas curvadas em arco, a mão cansada e firme sobre o joelho, procurei, com a mão direita, fazer sombra aos olhos comprimidos, curvando-me cá e lá, para ver se conseguia discernir alguma coisa lá dentro, o que me era impedido pela grande escuridão ali reinante. Assim permanecendo, subitamente brotaram em mim duas coisas: medo e desejo; medo da ameaçadora e escura caverna, desejo de poder contemplar lá dentro algo que me fosse miraculoso"

Leonardo Da Vinci

domingo, 26 de abril de 2020

Alteração de decretos ameaça cavernas brasileiras



A elaboração de uma minuta por parte do MME (Ministério de Minas e Energia) prevê a alteração de dois decretos (99.556/1990 e 6.640/2008), que dispõem sobre a proteção das cavernas existentes no território nacional. 

A comunidade espeleológica brasileira vêm demonstrando preocupação, uma vez que a alteração foi proposta de maneira unilateral (sem a participação da sociedade) e representa séria ameaça à cavernas de máxima relevância.

Uma recente carta da Sociedade Brasileira de Espeleologia (SBE) procura se posicionar e alertar autoridades nacionais e internacionais sobre os impactos irreversíveis que esta mudança pode representar.

Uma petição no Avaaz foi criada para chamar a atenção de autoridades.

Clique AQUI para assinar.

Para conhecer esta carta e saber mais sobre as mudanças, visite o site da SBE.




quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

Caverna do Jerônimo, Uauá, Bahia


(Texto e fotos: Daniel Menin)


Localizada no topo da serra junto a um mirante, a Caverna do Jerônimo faz parte do Parque Municipal da da Serra do Jerônimo, na cidade de Uauá, norte do estado da Bahia.
Entre os dias 07 e 15 de Dezembro de 2019 de uma expedição organizada pelo Laboratório de Estudos do Carste do Instituto de Geociências da USP (IGc), com apoio do Grupo Bambuí de Pesquisas Espeleológicas (GBPE) e do Grupo Mundo Subterrâneo de Espeleologia (GMSE), esteve no local realizando pesquisas e a topografia da caverna.
Cadastrada pelo Grupo Bambuí há mais de duas décadas e mesmo sendo destino turístico conhecido na região, a caverna até hoje permaneceu sem um mapa produzido.
Com grandes salas e muitos espeleotemas, a gruta que, atualmente tem visitação controlada por um portão, já foi palco de extração de salitre e apresenta muitos sinais de depredação. Mesmo assim, ainda dispõe de relevante beleza cênica, além dos valores científico, histórico e cultural.

O mapa recém produzido foi fornecido às instituições locais, à biblioteca da SBE e estará disponível para estudos e pesquisas de interesse público.



A caverna tem como característica grandes salada e relevante valor estético.



Muitos espeleotemas apresentam morfologia rara, com sinais de intemperismo.
Restos mumificados de um quadrúpede

Em muitas partes da caverna observa-se sinais de depredação com estalagmites e colunas quebradas

Local de antiga extração de salitre, provavelmente um dos motivos das depredações encontradas.

Sala com grande acúmulo de guano (fezes de morcego).
  
Grande coluna com muito desgaste de intemperismo.








domingo, 12 de janeiro de 2020

Expedição Iraquara 2020


Entre os dias 02 e 09 de Janeiro de 2020, espeleólogos integrantes do Grupo Bambuí de Pesquisas Espeleológicas realizaram mais uma expedição à região de Iraquara, Bahia. Dentre muitas cavernas mapeadas pelo grupo na região, os espeleólogos se concentraram este ano em um trabalho de verificação de partes em aberto em mapas antigos, bem como referências ainda não verificadas.

Uma das grandes cavernas exploradas na década de 90, a Gruta do Impossível, foi novamente visitada. Informações indicavam que o nível do lençol freático estava mais baixo que o usual, fato que propiciou o acesso a condutos antes não topografados. Foram topografados 969m de novos condutos, o que deve levar a Gruta do Impossível para uma projeção horizontal de 5.300m fazendo a gruta subir algumas posições entre as maiores cavernas do país.

Outra gruta visitada foi a Caverna do Escôncio. Com entrada vertical, grandes desmoronamentos e longos condutos ornamentados. Foram topografados 1.113m levando a caverna para uma projeção horizontal de 2.300m. No último dia de expedição foi descoberto uma ampla sala com acesso vertical através de um abismo com mais de 30m.

A expedição também verificou algumas dolinas e deu continuidade ao mapa da Gruta Diva de Maura. Com grandes salas e algumas continuações em aberto no mapa anterior, a caverna teve uma relevante continuidade por um conduto freático acessado após a descida de um abismo em um dos extremos da gruta. Foram topografados 630m na caverna Diva de Maura a levando para uma projeção horizontal de 2.000m.

A região de Iraquara é conhecida turisticamente por estar próximo à Chapada Diamantina e abrigar algumas das maiores e mais importantes cavernas do Brasil. Repleta de dolinas, a região vem sendo explorada e documentada pelo Grupo Bambuí desde a década de 80 e diversos estudos científicos já usufruíram de mapas e dados gerados pelos espeleólogos. A própria caverna do Impossível, por exemplo, tem sido palco de contínuos trabalhos de paleontologia.


Amplas galerias próximas a uma das entradas da caverna do Escôncio



Grande sala com um bloco vertical na Caverna Diva de Maura

Um dos diversos abismos que dão acesso à zona freática da caverna



Vulcões em uma das amplas salas da Caverna Diva de Maura (desta vez até eu saí nas fotos!)
Espeleotemas raros, originários de zona alagada na caverna Diva de Maura






Descida de abismo descoberto na Caverna do Escôncio

Entrada de uma das cavernas topografadas. Abismos verticais em fundo de dolinas são muito frequentes na região da Iraquara.

Raros espeleotemas azuis encontrados em zona remota e de difícil acesso.


Reprodução de foto antiga realizada durante a primeira topografia da Gruta do Impossível  




Equipe topografando mais de 500m de novas galerias

Descontração durante o último dia de topografias

terça-feira, 24 de dezembro de 2019

Expedição científica percorre nordeste do estado da Bahia em busca de registros do clima do passado

Entre os dias 07 e 15 de Dezembro de 2019 uma expedição com cientistas especialistas em geologia, climatologia e espeleologia percorreu mais de 1000km de empoeiradas estradas de terra no árido sertão do nordeste, no Estado da Bahia.
A expedição foi liderada pelo Professor Dr Francisco W da Cruz Junios (Chico Bill), do Instituto de Geociências da USP (IGC) e teve colaboração de espeleólogos da UFB (universidade Federal da Bahia) do GMSE (Grupo Mundo Subterrrâneo de Espeleologia) e do GBPE (Grupo Bambuí de Pesquisas Espeleológicas).
A viagem percorreu cavernas nos municípios de Paripiranga, Uauá e Campo Formoso e o objetivo era encontrar espeleotemas que pudessem fornecer registos climáticos de parte dos últimos 20 mil anos na região (final do Pleistocêno e Holoceno), um período relativamente recente em se tratando de idades geológicas.
O campo compreendeu a uma pequena etapa de um projeto que vem mapeando o clima da Terra nos últimos 200 mil anos e que já teve conteúdos publicados em revistas científicas de grande repercussão, como a britânica Nature. Espeleotemas podem representar registos climáticos de boa parte do Pleistocêno, já foram coletadas estalagmites com 600 mil anos de registros sobre o regime e  a origem das chuvas na região onde elas se encontravam.
Entender o clima do passado ajuda os cientistas a criar modelos que permitem explicar melhor as mudanças climáticas do presente bem como prevê-as no futuro.
Além das pesquisas climáticas as equipes também realizaram levantamentos topográficos e fotográficos de algumas cavernas da região.

(Texto e fotos, Daniel Menin)

Por muito tempo a caverna de Bom Pastor foi usada em eventos religiosos recebendo visita maciça de fiéis. Recentemente espeleólogos locais têm feito trabalhos de isolamento de espeleotemas para determinar área de caminhamento e proteger de depredações.

Teto de conglomerado repleto de fósseis na Gruta do Bom Pastor

Escada de acesso construída na Gruta do Bom Pastor.

Rappel no fundo de uma dolina dá acesso ao Abismo do Cazuza.


Dezenas de baratas encontradas em uma região específica do Abismo do Cazuza.

Vista do alto da Serra do Jerônimo, onde encontra-se a Caverna do Jerônimo. 

Cadáver em decomposição de uma cabra, provavelmente perdida na caverna (Caverna Jerônimo - Uauá)

Grandes salas e formações caracterizam a caverna do Jerônimo, em Uauá. Mesmo a caverna tendo sido amplamente depredada, ainda resta grande beleza cênica e de potencial científico e pedagógico.

Trabalhos de topografia na Caverna Jerônimo - Uauá


Ossada de um quadrúpede, provavelmente um bode perdido dentro da caverna.

Grande coluna com alto grau de intemperismo, encontrada na Caverna do Jerônimo.

Grandes salas na Caverna Jerônimo - Uauá



A caverna de Jerônimo também era amplamente visitada em cultos religiosos e extração de salitre. Por todos seus salões, encontram-se estalagmites e colunas depredadas. 

A extração de salitre era realizada em escavações como esta visível na fotografia. Com o piso rompido pelas escavações, acumulam-se estalagmites quebradas próximo às áreas de extração.

A caverna de Jerônimo também era amplamente visitada em cultos religiosos e extração de salitre. por todos seus salões encontram-se estalagmites e colunas depredadas. 

Algumas das formações já depredadas foram utilizadas como amostras

Grande espeleotema retirado de sua posição original durante escavações de extração de salitre. Na parte de baixo, à direita, é possível observar buraco deixado para as escavações.

Alguns condutos na Toca da Boa Vista apresentam marcas de água em diferentes níveis fornecendo dados sobre épocas chuvosas na região.


Toca da Boa Vista, Bahia



Equipe de trabalho
Outras fotografias da expedição podem ser encontradas NESTE LINK.